A prosperidade desperta novas demandas – e pode desencadear tensão social e protestos, como demonstra o movimento do ‘Partido das Baratas’ na Índia.
O Cockroach Janta Party (CJP) nasceu como sátira, com seus memes viralizando nas redes sociais. Foi lançado em 16 de maio deste ano pelo estrategista político Abhijeet Dipke, de 30 anos, ironizando os comentários segundos os quais a juventude indiana é preguiçosa e não sai da internet.
O estopim foi um comentário feito por um ministro da Suprema Corte durante uma audiência: ele comparou os jovens desempregados e ativistas a “baratas” e “parasitas da sociedade”.
Em resposta, Dipke fez um post ironizando: “E se todas as baratas se unissem?”
Aluno da Boston University, Dipke – autointitulado presidente-fundador do partido – voltou à Índia no começo de junho para comandar o levante das ‘baratas’, imaginando que poderia ser preso ao desembarcar em Déli.
Mas o Governo, provavelmente temendo inflar ainda mais a revolta popular, permitiu que Dipke organizasse uma manifestação – e muitas mais ‘baratas’ saíram às ruas.
O partido se define como “uma frente política da juventude, pela juventude, para a juventude”, e já tem quase 27 milhões de seguidores no Instagram.
O nome do CJP é um jogo de palavras com o Bharatiya Janata Party (BJP), do Primeiro-Ministro Narendra Modi.

Apesar do rápido crescimento econômico, as desigualdades na Índia permanecem abissais – e há uma massa de estudantes e recém-formados que não encontram oportunidades de trabalho condizentes com sua qualificação.
O movimento capturou a insatisfação reprimida, que extravasou em protestos com milhares de pessoas nas ruas de diversas cidades.
Uma das fontes da indignação é a suspeita de corrupção nos vestibulares e concursos públicos.
Há com frequência notícias de vazamentos do conteúdo de exames nas disputas por vagas de alguns dos cursos universitários mais concorridos, como medicina.
As provas muitas vezes acabam sendo canceladas, causando angústia e ansiedade entre os participantes.
“O processo já é brutal em tempos normais. Neste ano, mais de 2 milhões de estudantes prestaram o altamente competitivo National Eligibility-cum-Entrance Test para tentar uma vaga na faculdade de medicina. Nove dias depois, os resultados foram anulados devido a alegações de vazamento,” Rohan Sandhu, um pesquisador da Harvard Kennedy School, escreveu em um artigo no Project Syndicate.
Houve problemas recentes também no exame do ensino secundário, em razão de um novo sistema informatizado de correção de provas.
Os manifestantes exigiram a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan. Pedem ainda reformas e transparência no sistema de seleção dos candidatos e reivindicam indenizações para as famílias de estudantes que cometeram suicídio depois de verem suas provas canceladas.
Modi, que costuma ser rápido e duro na contenção de levantes populares, não conseguiu evitar que os protestos se espalhassem. Os manifestantes deixaram as ruas só depois da renúncia do ministro da Educação, no sábado.
“Considerando a situação, e para que forças antinacionais não se aproveitem desta situação, enviei minha carta de demissão ao primeiro-ministro,” disse o ministro. “Respeito profundamente as aspirações, os sentimentos e as legítimas expectativas da juventude do país.”
Foi uma rara concessão de Modi. De acordo com analistas, a escalada dos protestos revela que o Governo perdeu conexão com os anseios dessa camada da população e subestimou a frustração dos jovens de classe média.
“O BJP não fazia ideia das proporções que o movimento das ‘baratas’ tomaria,” disse ao The Times o analista político Sandeep Shastri, de Bangalore. “Achavam que poderiam conter os manifestantes da mesma forma que fazem com outros protestos.”
Modi está há 12 anos no poder, período em que o crescimento médio anual da economia foi de 6,5% (tipo o Brasil, sabe?).
O PIB da Índia, que era o sétimo do mundo, agora já é o quarto, superando US$ 4,2 trilhões – quase o dobro do brasileiro.
Mas a expansão econômica não criou oportunidades de trabalho estável para uma grande massa de recém-formados das universidades. O pano de fundo do descontentamento da Geração Z, os jovens nascidos entre 1997 e 2010, é o elevador social tradicionalmente emperrado no país.
“Durante décadas, sucessivas gerações de estudantes – incluindo a minha, há cerca de 20 anos – resignaram-se à ideia de que o sistema educacional indiano foi concebido mais como um mecanismo de triagem do que como um meio de desenvolver capital humano,” escreveu Sandhu, de Harvard.
De acordo com o economista, o número de graduados universitários na faixa etária de 20 a 29 anos quase dobrou nos últimos 15 anos, passando de cerca de 32 milhões para 63 milhões. No entanto, cerca de 40% dos graduados com menos de 25 anos estão desempregados. Entre os com idade entre 25 e 29 anos, o percentual dos sem ocupação estável é de 20%.
As ‘baratas’ deram uma trégua, mas ameaçam voltar às ruas porque centenas de estudantes foram presos nos últimos dias. Os líderes do movimento dizem que o Governo não cumpriu a promessa de não retaliar contra os manifestantes.
Saurav Das, o principal porta-voz do CJP e um de seus negociadores, disse que os governantes precisam “cair na real”. “As pessoas não vão mais aceitar que eles imponham suas políticas e leis sem que haja debate.”
O Cockroach Janta Party já vem inspirando outros movimentos políticos. Um deles é o E20 Janta Party, cujo nome faz referência à mistura de gasolina contendo 20% de etanol.
O ‘partido’ conquistou 562 mil seguidores desde domingo, quando estreou no Instagram. O grupo quer explorar politicamente o descontentamento com a imposição dessa mistura que, segundo os motoristas, aumenta o consumo dos carros e danifica os motores mais antigos.
Parece brincadeira, mas essa tem sido uma questão relevante para eleitores de classe média. A campanha contra o E20 tem como principal alvo o ministro dos Transportes de Modi, Nitin Gadkari, cujos filhos administram uma empresa que produz etanol. O ministro disse que os filhos têm apenas 0,5% do mercado indiano e, por isso, não há conflito de interesses.
(Agora imagine a ira dos manifestantes se a mistura subisse para 32%… Ou se o combustível fosse de péssima qualidade e adulterado por organizações criminosas.)











