VASSOURAS, Rio de Janeiro — Quando Ronaldo Cezar Coelho idealizou a construção de um museu no Vale do Café, seu objetivo era celebrar a cultura da região – para ele, a síntese do Brasil mestiço – e recontar sua história de geração de riqueza dando à população preta e indígena seu devido protagonismo.

Ronaldo comprou um imóvel de 1848 que abrigava uma Santa Casa, virou asilo e depois foi destruído por um incêndio – e o recuperou por completo. Tão importante quanto, também investiu pesado em pesquisa e na construção de um educativo sólido, formando educadores na região meses antes da abertura do museu.

É comum que museus construídos do zero foquem mais na arquitetura – espetaculosa e instagramável – e descuidem do conteúdo. Não é o caso aqui, e isso se nota rapidamente. 

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O cuidado com a educação e a preparação para a chegada do museu fica evidente na exposição inaugural, Chegança, que já recebeu mais de 50 mil pessoas em seis meses e deve chegar a 60 mil até o fim das férias de julho.  Para efeito de comparação, o município de Vassouras tinha 34 mil habitantes no último Censo.

Curada por Marcelo Campos, Chegança reúne mais de 60 artistas e cerca de 130 obras, e consegue um feito raro: materializar a missão do museu de recuperar o protagonismo dos povos que fizeram a história do Vale do Café, do qual Vassouras é uma espécie de capital informal.

Ver uma tela de Tarsila do Amaral – filha de produtores de café – ao lado de artistas indígenas, afro-brasileiros e populares ajuda a entender como a cultura brasileira foi moldada.

A verdadeira riqueza, ensina este museu recém-inaugurado, está na diversidade da música, da dança, do cinema e das artes plásticas, que beberam e bebem de fontes indígenas, africanas e europeias. Este caldeirão resulta na originalidade e criatividade que são a marca do Brasil.

A proposta do Museu Vassouras está alinhada ao que existe de mais contemporâneo: sem acervo permanente, não se trata de um espaço para abrigar uma coleção privada estanque, focada nos gostos do fundador ou de uma família. A ideia não é congelar o passado em um acervo pessoal, mas ser uma plataforma de diálogo, produção cultural, pesquisa e formação, em contato constante com as mudanças do mundo e da sociedade.

O trabalho impecável tem rendido frutos. Diariamente, ônibus escolares e vans com grupos de visitantes chegam à cidade atraídos pelo novo museu, e hotéis, restaurantes e comerciantes registram um movimento incomum: neste mês de julho, todos estão com lotação completa.

Os visitantes saem surpresos com o nível do equipamento e da exposição inaugural. 

Se ainda existe o preconceito de que museus fora dos grandes centros oferecem algo menos sofisticado ou puramente regional, o Museu Vassouras destrói essa ideia.

Concebido com padrões museológicos internacionais e com uma exposição inaugural primorosa, instalações de alta qualidade, equipe preparada e curadoria que entrega mais do que se espera, o museu tem tudo para se firmar como um polo de excelência na reflexão sobre as origens do Brasil.

Chegança amplia o olhar sobre a região: os barões do café e seus casarões dividem o protagonismo com trabalhadores, comunidades negras, tradições populares e indígenas.

No núcleo Folias, a curadoria aproxima as festas populares brasileiras retratadas por Djanira de artistas contemporâneos como Rafa Bqueer, que inclui o funk e a periferia na celebração coletiva.

Em Vapor, Rosana Paulino, Dalton Paula e fotografias históricas trazem os temas de ancestralidade, escravidão e trabalho. Nesse contexto, A Hora do Pão (1889), de Abigail de Andrade (1864-1890), ganha uma leitura nova: o cotidiano da época como um retrato da desigualdade.

Aliás, Abigail nasceu em Vassouras e foi a primeira mulher a receber uma Medalha de Ouro no Salão Imperial de 1884. Mais recentemente, tem sido resgatada em debates e pesquisas. 

Já o núcleo Milagre celebra o Rio Paraíba do Sul, conectando fé, natureza e imaginário popular. Tarsila aparece ao lado de artistas indígenas contemporâneos, como Denilson Baniwa e Gustavo Caboco, propondo diferentes formas de compreender o território brasileiro.

A curadoria cria esses encontros improváveis, mas que funcionam muito bem na narrativa contada através das obras. 

A escala do museu contribui para o prazer da visita. Grande o suficiente para abrigar instalações e esculturas – mas sem uma dimensão exaustiva, daquelas em que já não se consegue absorver as obras e o conceito. Uma pausa no excesso constante de estímulos e uma forma mais saudável e inteligente de nutrir o olhar e a mente.

O fundador do museu sonhou grande e, assim como fez na vida pública, colocou sua capacidade e ambição a serviço da sociedade.

É um presente precioso para Vassouras, para o estado do Rio e para o País. Uma proposta calcada em valores cívicos e aspirações democráticas, e que merece ser emulada por mais membros da elite brasileira. E, de quebra, uma visita deliciosa a uma cidade do interior que certamente será redescoberta a partir de agora.

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