Todo fim de semana, o casal Paula Pedrão e Fabio Dias pega a estrada em São Paulo rumo a seu sítio na Serra da Mantiqueira.
Paula nunca sonhou em empreender. A executiva de 57 anos fez sua carreira em empresas como o Grupo Pão de Açúcar e a JBS, e hoje é diretora de comunicação da Simpar. Fabio, quatro anos mais velho, é o diretor de sustentabilidade da JBS, e dizia que “jamais” teria uma propriedade rural.
Mas depois de décadas no mundo corporativo, o coração dos dois amoleceu.
Desde a pandemia – quando se encantaram pela vista de uma propriedade de dez hectares em Caldas, Minas Gerais – os dois se apaixonaram pelo cultivo de oliveiras.
A paixão bucólica acaba de render a primeira safra do Azeite da Pedra, que em pouco tempo já ganhou medalhas em Chipre, Turquia e Itália.

Os empreendedores de fim de semana manejam um olival de 2.200 árvores a 1.300 metros de altitude, numa região marcada por pastagem de gado leiteiro, eucaliptos, hortaliças e roseiras. Para a primeira safra, eles colheram pessoalmente as azeitonas.
Depois da atuação da derriçadeira, que chacoalha a copa das oliveiras para que as azeitonas se desprendam dos galhos, os frutos caem sobre o tecido – mas alguns escapam.
“Catei cada azeitoninha que caiu na terra, porque a nossa produção já é muito pequena para termos qualquer perda,” Paula disse ao Brazil Journal. “Fiz muitas flexões. Meu pilates serviu para alguma coisa.”
Ao todo, o casal colheu três toneladas, uma quantidade capaz de gerar uma edição limitada de 800 garrafas do azeite, rapidamente vendidas a friends & family pelo Whatsapp.
“O nosso blend é ‘o blend do que tinha,’” disse Paula. “Não tínhamos volume para fazer um varietal, e a natureza se encarregou de fazer um blend incrível.”
Elaborado com azeitonas arbequina, grappolo e koroneiki, o reconhecimento do Azeite da Pedra em concursos importantes revela o potencial do cultivo de oliveiras em altitude no Brasil – e o compromisso da propriedade com a produção artesanal, a qualidade e a expressão autêntica do terroir.
“A gente não tem compromisso com o resultado financeiro,” disse Fabio. “Nosso compromisso é com o azeite. Queremos um produto de ótima qualidade.”
O casal quer tocar a operação distante da lógica tradicional do agronegócio: crescer devagar, permanecer pequeno e apostar em qualidade. “Quem trabalha com fazenda aprende que cada coisa tem o dia certo,” disse Fabio.

A primeira safra representou apenas cerca de 10% da produção projetada para o olival maduro, que deve ter um salto importante à medida que as árvores entrem em plena produção. Fabio espera que na terceira safra a receita já cubra as despesas anuais e passe a gerar margem.
Implantar o olival – que ocupa uma área que era pasto – foi relativamente simples. Depois da preparação convencional do solo, o problema mais persistente apareceu em escala diminuta: as formigas. “Foi só um constante cuidado com formiga,” disse Fabio. Formiga é um saco.”
As perdas conduziram o casal ao replantio de cerca de 10% das árvores. (Depois que o olival se estabelece, o manejo tende a ficar menos exigente: envolve poda antes do inverno e vigilância periódica.)
Paula costuma atribuir parte do sucesso à falta de experiência. “Quando você não sabe fazer, segue tudo rigorosamente. Foi exatamente o que fizemos.” A disciplina é uma importante herança da vida corporativa dos dois.
A tranquilidade do azeite é uma mudança de ritmo para uma executiva que passou duas décadas no Pão de Açúcar, onde teve que lidar com a briga de Abílio com seu sócio francês. Depois, ficou cinco anos à frente da comunicação da JBS no período que coincidiu com a delação dos irmãos Batista.
Fabio, um zootecnista que trabalha há 40 anos com pecuária de corte e produção de gado, tem uma trajetória construída sobretudo na relação com fazendas e produtores. Há 11 anos na JBS, começou na área de compra de gado e relacionamento com fazendeiros, e há dois anos migrou para a sustentabilidade.
Ambos gostam de comer bem e têm dotes na cozinha. Ela faz um pudim dos deuses; ele, um aconchegante macarrão com ovo. Embora a especialidade de Fabio seja uma receita doméstica e “ridiculamente simples”, ele usa só o suprassumo dos ingredientes. Também tem um entusiasmo particular pelo fogo: tem dois fogões a lenha no sítio, onde deve passar cada vez mais tempo.
Ao que tudo indica, de lá também sairão bons espumantes. O casal acaba de plantar vermentino e chardonnay para produzir um pét-nat, um espumante de método mais natural que preserva as borras da fermentação. “Se tudo der certo, no ano que vem já teremos alguma coisa para experimentar,” disse Paula.











