A melhor relação risco-retorno do mercado global de crédito são os papéis high yield – mas de curto prazo, com vencimento em até três anos, acredita a Oaktree.

O que atrai a gestora fundada por Howard Marks – e hoje controlada pela Brookfield – são os retornos de 6% a 9% ao ano em dólares, em média, sem a alta volatilidade dos títulos mais longos, que têm oscilado em meio às dúvidas sobre o futuro dos juros em diferentes países. 

“Para conseguir rendimentos minimamente atrativos em títulos com grau de investimento é preciso alongar os prazos, e isso embute um alto risco de mercado agora,” Wayne Dahl, o co-gestor da estratégia de crédito da Oaktree, disse ao Brazil Journal.

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Para Dahl, o maior risco no mercado de crédito é justamente a volatilidade criada pela incerteza sobre a trajetória da inflação e dos juros nos países desenvolvidos.

A Oaktree é uma casa funamentalista e não faz projeções macro, mas Dahl acredita que o Fed só irá elevar os juros como “último recurso”.

O gestor também falou sobre como o mercado de private credit tem sido mal compreendido e sobre oportunidades em países emergentes. 

Veja os principais trechos da conversa:

Onde estão as melhores oportunidades no mercado de crédito atualmente?

Os ativos high yield de curto prazo são os que mais têm entregado valor aos investidores. Vemos isso em diferentes segmentos – nos papéis bancários, nas operações estruturadas, nos títulos de real estate – e em diversas geografias. 

Os rendimentos são interessantes e, ao mesmo tempo, esses ativos estão menos expostos à volatilidade de papéis mais longos, que têm oscilado muito em razão das dúvidas sobre a trajetória dos juros.

Para conseguir rendimentos minimamente atrativos em títulos com grau de investimento, é preciso alongar os prazos, e isso embute um alto risco de mercado agora.

Mas como está a qualidade dos emissores high yield num momento de juros em alta e economias desacelerando?

A qualidade do crédito ainda é boa, de forma geral. Na média, vemos empresas saudáveis e financeiramente disciplinadas. 

Os spreads estão mais apertados, mas os fundamentos justificam essa compressão. 

Além disso, com os juros mais altos, o retorno total – que varia entre 6% e 9% ao ano, em dólares – é interessante e tem atraído inclusive investidores de bolsa em busca de uma volatilidade menor.

Em quais países vocês estão investindo agora?

Investimos majoritariamente em mercados desenvolvidos, e no momento não há uma preferência entre EUA e Europa. 

No primeiro semestre, havia mais oportunidades na Europa. Quando começou o conflito no Irã, o crédito europeu ficou mais estressado, e foi possível rotacionar para alguns desses ativos, mas o mercado já voltou a ficar equilibrado. 

Uma vantagem da Europa é o fato de ter menos exposição ao setor de softwares do que os EUA. Então, no agregado, a qualidade do crédito é um pouco melhor.

Na Ásia, investimos principalmente em bônus conversíveis em ações. É um mercado interessante para ter exposição a temas de IA e diversificar. Mas é uma parte menor da estratégia.

E os demais mercados emergentes?

Investimos nesses mercados de forma seletiva, quando os ativos oferecem um valor relativo melhor do que podemos comprar nos EUA ou na Europa.

Atualmente, vemos oportunidades nesses países principalmente por causa da exposição ao setor de commodities, que pode se beneficiar em meio às restrições de oferta do Oriente Médio. É o caso do Brasil.

O maior problema para uma casa como a Oaktree é a pequena oferta de papéis disponíveis, já que temos muito capital para alocar. 

Howard Marks escreveu recentemente sobre os problemas do private credit. Como operar esse mercado hoje?

É importante destacar que esse mercado é mais amplo que o direct lending (empréstimos feitos diretamente por investidores a empresas, geralmente pequenas e médias), onde estão concentrados muitos dos problemas.

Ainda há oportunidades no private credit, especialmente para gestores que podem colocar isso num portfólio, em meio a ativos mais líquidos e de menor risco.

O investidor precisa lembrar que esse é um mercado com um risco de crédito maior. Ou seja, sempre haverá algum nível de default

Não é preciso ter medo dos defaults, nem entrar em pânico quando acontecem: é preciso se preparar para eles. 

O erro de muitos investidores é achar que podem obter retornos altos sem volatilidade e sem problemas de crédito. Não é possível. É preciso entender o risco que se está correndo, também em termos de falta de liquidez. 

Mas esse mercado veio para ficar, e seus efeitos para a economia são bastante positivos. Ele financia empresas que, no passado, tinham pouco ou nenhum acesso a crédito. 

Às vezes, essas empresas precisam de uma solução mais estratégica para atravessar um período difícil. Sem o private credit, talvez tivessem de passar por uma experiência de default e reestruturação. 

Qual é o maior risco no mercado de crédito?

A incerteza sobre a trajetória da inflação e dos juros, o que gera muita volatilidade. Protegemos o portfólio disso investindo em papéis mais curtos. 

Como você sabe, evitamos fazer projeções macro. Os fundamentos são sempre os fatores que guiam nossas decisões de investimento. 

Dito isso, vale comparar o momento atual a 2022, quando os juros começaram a subir nos EUA e muitos analistas achavam que haveria uma recessão. Isso não aconteceu porque os consumidores ainda contavam com os recursos dos estímulos relacionados à pandemia. 

Além disso, a partir de meados de 2022, houve um aumento nos rendimentos reais. 

Hoje não vejo tanto dinamismo na economia. Um aumento dos juros pesaria mais e podemos ver uma desaceleração – o que deve ser considerado pelo Fed. 

Na minha opinião, o Fed só vai elevar as taxas como último recurso. Mas não decido com base nisso.