A CSN surpreendeu o mercado ao anunciar um agressivo programa de venda de ativos para diminuir sua alavancagem.

Benjamin Steinbruch, o controlador da empresa, disse ao Brazil Journal que demorou “até demais” para tomar essa decisão, que visa diminuir a alavancagem da companhia dos atuais 3,5x para cerca de 1x EBITDA.

“Chega uma hora em que você precisa fazer o que é racional e nós insistimos até o fim, mas chegou o momento de mudar a forma de pensar,” disse Steinbruch.

Segundo ele, o atual nível de juros e a necessidade de investir na modernização da CSN obriga a empresa a tomar essa decisão. 

Apesar de se dizer “aberto a tudo,” Benjamin diz que vai tentar manter o controle da maior parte dos ativos.

“Eventualmente, [podemos perder o controle] no cimento. Mas quando você vai ao mercado com um programa desse tamanho precisa estar aberto a tudo,” disse. “O mais importante para nós, de uma forma ou de outra, é fazer essa desalavancagem no menor tempo possível.”

No mercado, ainda há muito ceticismo sobre essa velocidade.

11316 0015e4e9 733e b0b5 4dc0 29514c7b81f4

“Me chama a atenção a empresa estar falando de desinvestir, mas quem vai comprar? Benjamin nunca vendeu nada integralmente. Vai vender agora?” disse um gestor com uma pequena posição em CSN.

Benjamin, que cinco anos atrás dizia não querer mais viver alavancado, afirmou agora que a empresa está no mercado de maneira agressiva, e que a ideia é vender os ativos ainda este ano. 

Steinbruch disse que em um segundo momento a CSN também deve colocar à venda parte da Transnordestina, um de seus principais ativos de infraestrutura. 

“Não faz sentido trazer esse ativo agora porque, com as dúvidas do mercado sobre o término da obra, o valor presente fica muito menor,” disse.

Segundo ele, esse movimento é uma forma da CSN “se adaptar à realidade de desindustrialização do País.” O empresário disse que esperava uma reação mais forte do governo, em especial contra o aço chinês, “mas ela não veio.”

“Então, você não pode ficar esperando indefinidamente. Precisa agir,” disse.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

A CSN anunciou um programa agressivo de venda de ativos com o objetivo de resolver de vez a alavancagem. Por que tomar essa decisão agora?

Porque a gente vinha esperando há muito tempo para tomar uma decisão dessa magnitude. Sempre acreditamos em crescer, em agregar bons ativos, em investir. Mas os juros desproporcionais estão penalizando justamente quem investiu e quis crescer, enquanto quem ficou líquido se beneficia desses juros distorcidos. Isso faz a gente repensar toda a estratégia.

Além disso, acho que demorei até demais para tomar essa decisão. Os juros vão continuar altos e o governo não tomou medidas fortes para organizar melhor as importações. Então você sofre com juros elevados, com importação desenfreada e um ciclo industrial longo, que exige capital de giro elevado e previsibilidade de custos e preços – algo que hoje não existe.

Então essa opção estava na mesa há algum tempo?

Sim. Chega uma hora em que você precisa fazer o que é racional. Nós insistimos até o fim. Talvez sejamos dos últimos capitães da indústria que vivem o dia a dia industrial, que acreditam em geração de emprego, crescimento e investimento. Mas chegou o momento de mudar a forma de pensar.

Saíram notícias de quem vocês estavam dispostos a vender até 100% da siderurgia. Isso procede?

Não. O que acontece é que toda a siderurgia brasileira está num ciclo muito difícil. São plantas construídas nas décadas de 50, 60 e 70, que precisam de uma renovação brutal de tecnologia e equipamentos para serem competitivas e, ao mesmo tempo, atender às normas ambientais.

Hoje existe tecnologia que praticamente obriga a indústria a produzir atendendo a essas normas. Antes não existia. Então as empresas precisam passar por duas reformas profundas: uma de competitividade e outra ambiental. Isso exige investimentos enormes.

Não haveria outras formas de financiamento?

Tirando o BNDES, não há nenhuma fonte de financiamento compatível com a realidade da indústria. E mesmo o BNDES, apesar do excelente trabalho e da visão correta de que a indústria não pode acabar, consegue atender talvez 10% da necessidade do setor.

O resultado é uma indústria cada vez mais obsoleta e fora dos padrões ambientais modernos. Daqui a pouco quem não atende essas normas não consegue vender, financiar nem fazer parcerias. Fica fora do jogo.

Quando você fala em buscar parceiros, o que exatamente isso significa?

Significa buscar parceiros com tecnologia e equipamentos. Pode ser em troca de participação, sim. O importante é trazer o que a gente precisa para modernizar a siderurgia, reduzir custos, aumentar produtividade e atender o meio ambiente. Não estamos falando em perder o controle como regra.

O que estamos buscando é investimento que nos permita modernizar, reduzir custos, ganhar produtividade e atender às normas ambientais. Isso passa por parceria estratégica, por tecnologia e por equipamentos.

Mas a família seguirá como controladora?

Sim.

Em quais ativos a CSN pode perder o controle?

Eventualmente, no cimento. Nos demais, a nossa preferência é manter o controle. Mas quando você vai ao mercado com um programa desse tamanho, você não sabe o que vem. Então você precisa estar aberto a tudo. O mais importante para nós, de uma forma ou de outra, é fazer essa desalavancagem no menor tempo possível.

Olhando para o futuro da CSN como um todo, quais são os principais pilares?

A CSN precisa se adaptar à realidade de desindustrialização do País. Nós acumulamos ativos de alta qualidade e diversificados. Infraestrutura e logística – ferrovias e portos – são ativos muito demandados, com previsibilidade de receitas e margens melhores.

Energia também é essencial para qualquer retomada de crescimento, e precisa ser limpa. O Brasil tem grande potencial nisso. E a mineração é um setor em que o Brasil é competitivo, com reservas, logística integrada e baixo custo. Queremos, inclusive, aumentar investimentos nessa área.

Hoje, quais seriam as joias da coroa da CSN?

Infraestrutura e logística, junto com energia. A mineração já mostrou que é uma joia da coroa e tem enorme potencial, mas ainda sofre mais com ciclos de mercado. Já ferrovia, porto e energia têm menos volatilidade.

E qual o futuro da siderurgia no Brasil?

Para sobreviver, a siderurgia precisa se modernizar. O governo teve boa vontade, especialmente o MDIC, mas está tudo muito atrasado. O Brasil é talvez o único país totalmente aberto a importações descontroladas – e ao mesmo tempo praticamente impedido de exportar.

Não se trata de protecionismo, mas de igualdade de condições. Se não podemos exportar, não podemos deixar que importem livremente.

Sobre o programa de venda de ativos: vocês acreditam que este processo desalavancagem pode ser concluído ainda este ano?

Sim. Estamos muito agressivos. Já começamos o ano com R$ 3,35 bilhões da venda da participação na MRS para a CSN Mineração. Vamos fazer o restante o mais rápido possível. 

A Transnordestina entra nesse pacote?

Não no primeiro. Nós temos dois pacotes de infraestrutura e logística. O primeiro é o pacote do Sudeste, que já está em andamento, e envolve a MRS, o TECOM, o TECAR e a Tora. Esses ativos fazem parte da primeira fase do plano de desalavancagem e estão dentro do montante de R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões que anunciamos.

O segundo pacote é o do Nordeste. A Transnordestina, especificamente, nós vamos entregar no fim de 2027. 

Não faz sentido trazer esse ativo agora porque, com as dúvidas do mercado sobre o término da obra, o valor presente fica muito menor. Se você espera de seis a oito meses, com o avanço físico e a proximidade da entrega, a valorização é quase plena. Por isso, esse segundo pacote deve ser trabalhado num segundo momento, mas é tão relevante quanto o primeiro.

Olhando para trás, houve erro de cálculo ou os juros surpreenderam?

Os juros impactaram a economia como um todo. Fora o agronegócio e commodities, poucas empresas são competitivas hoje. Juros reais de 11% não existem em nenhum lugar do mundo. Isso destrói a economia.

A gente esperava uma reação mais forte do governo. Mas ela não veio. Então você não pode ficar esperando indefinidamente. Precisa agir.

O mercado também questiona a sua sucessão. Como você vê isso?

Eu não quero sair. Estamos cada vez mais estruturados. Estamos separando os negócios por produto, com gestores específicos. A sucessão vem daí, naturalmente.

Acredito muito numa mistura de família com profissionais. Com tantos negócios e executivos, a sucessão será uma seleção natural, feita com serenidade e tempo.