O mercado de sapatos femininos é dividido em dois extremos nos EUA: os produtos que custam perto de US$ 100, com baixa qualidade, e os sapatos acima de US$ 600, que tem qualidade mas são inacessíveis para a maior parte das pessoas.

Essa foi a leitura do casal Ricardo e Marina Larroudé, que fundou a marca Larroudé há seis anos justamente para tentar preencher esse gap.

“Vimos esse ‘white space’ no mercado e decidimos fazer algo com um perfil de luxo acessível e um approach digital, focado principalmente no D2C,” Ricardo disse ao Brazil Journal.

04 08 Ricardo Larroude ok

A decisão de empreender veio num momento de virada na vida dos dois, que moram nos Estados Unidos há mais de 20 anos. Era o início da pandemia, e Marina havia acabado de ser demitida da Arezzo, onde trabalhou por um ano.

Ricardo, por sua vez, estava na Ambev há três anos, depois de uma carreira em investment banking. “Começamos a pensar numa forma de juntar a minha experiência de finanças com a experiência dela de criação para construir um negócio nosso,” disse ele. 

A aposta parece ter dado certo. A Larroudé faturou mais de US$ 50 milhões ano passado, tem cerca de 700 funcionários e seus sapatos são usados por celebridades como Taylor Swift, Selena Gómez, e uma das filhas de Beyoncé. 

No mês passado, o run rate já bateu US$ 100 milhões, e a meta para este ano é faturar US$ 120 milhões com um EBITDA de US$ 3 milhões. 

O segredo do sucesso, segundo Ricardo, foi o posicionamento acertado e a qualidade dos produtos. Ele diz que a Larroudé trabalha só com couro puro, design autoral e um portfólio amplo, que vai de sandálias a botas, de sapatilhas ao salto alto.

O foco é nos sapatos femininos, mas a marca já lançou um tênis unissex, o George, e tem planos de entrar em sapatos masculinos, começando pelos de couro e mocassins.

A criação dos produtos é liderada por Marina, que está à frente de uma equipe de 20 designers. A marca também trabalha com outros diretores criativos, que fazem projetos esporádicos com a marca.

04 08 Marina Larroude ok

“Criamos um lugar onde essas pessoas conseguem criar de verdade. Elas vêm para dentro, criam algumas coleções, e aqueles que são bons mantemos,” disse o CEO. 

Os sapatos são vendidos basicamente pelo ecommerce da marca, que responde por 90% do faturamento. Os 10% restantes vêm de lojas multimarcas como a Saks e a Bloomingdale’s. 

Apesar de operar majoritariamente nos Estados Unidos, a fábrica da Larroudé fica no Rio Grande do Sul, ocupando um espaço de mais de 10 mil metros quadrados no polo calçadista da região. 

A Larroudé também vende seus produtos no Brasil, que responde por um quarto do faturamento. Diferente do que acontece na maior parte dos casos, por aqui os sapatos são mais baratos do que nos EUA. Enquanto nos EUA, o preço gira em torno de US$ 300 a US$ 400, no Brasil eles saem por R$ 600 a R$ 1 mil.

“Como temos a fábrica no Brasil, não tem nenhuma tarifa de importação e a logística é mais barata. Também fazemos mais promoções no Brasil, enquanto nos EUA tentamos manter sempre o preço mais estável,” disse o CEO. 

Desde que foi fundada, a Larroudé captou apenas US$ 7 milhões com investidores-anjo, como José Olympio Pereira, Martin Escobari, Ricardo Salman e os fundadores da VTEX, Mariano Gomide e Geraldo Thomaz. 

Agora, a companhia está se preparando para uma nova rodada de até US$ 50 milhões para dar o próximo passo em sua expansão. O plano é chegar a um faturamento de US$ 400 milhões a US$ 500 milhões nos próximos cinco anos, o que já permitiria à empresa pensar num IPO.

Essa expansão passa pela entrada em novos mercados e pela abertura de lojas físicas. O plano da Larroudé é entrar no México e Colômbia e, futuramente, na Europa, um mercado muito mais fragmentado e competitivo. 

Ricardo disse que o plano é abrir poucas lojas, com o perfil de lojas conceito. “Queremos que as lojas tragam alguma experiência, parecido com o que a Kith faz, mas adaptado para o nosso público,” disse ele. “É impossível colocar a experiência do site nas lojas, porque sapatos são muitos SKUs, com tamanhos e cores diferentes. Para fazer isso teríamos que fabricar muita coisa sem saber se vai vender, o que não faz sentido.”

Os recursos da rodada serão usados para ampliar o número de fábricas para sustentar o crescimento da marca, e para verticalizar outros elos da cadeia de suprimentos, como na parte do couro e do metal. Outro investimento será em centros de devolução para os produtos, no Brasil e nos EUA.

As conversas para a captação já começaram, e o foco tem sido principalmente family offices e gestoras. O pitch é que a Larroudé está unindo o melhor de vários mundos. “Somos uma mistura da Tory Burch [uma marca de luxo acessível americana] com a Prada, mas somos digitais como a Shein,” disse o fundador.