A Gazeta do Povo deixou há tempos de ser apenas o tradicional jornal de Curitiba.
Sob o comando de Guilherme Cunha Pereira, o veículo abandonou o impresso, buscou uma audiência nacional no campo conservador e hoje tem a maior parte de seus 140 mil assinantes fora do Paraná.
Esta aposta ganhou ainda mais importância para a família no ano passado, quando Guilherme e sua irmã Ana Amélia venderam sua participação na RPC, a afiliada da Globo no Paraná, para a família Lemanski, que já era sócia do negócio.
Agora o foco de Guilherme está essencialmente na Gazeta – que chegou ao breakeven este ano depois de anos recebendo aportes dos controladores.

Mas agora, o empresário também decidiu assumir uma exposição que antes evitava: ser o rosto das opiniões do jornal.
Com editoriais combativos publicados no Instagram da Gazeta, Guilherme está liderando uma cruzada contra “a hipertrofia do Judiciário” e abusos do Supremo Tribunal Federal, especialmente de Alexandre de Moraes.
Num vídeo ontem à tarde, o publisher celebrou o afastamento do diretor-geral da PF, reclamou da “apatia cúmplice e covarde” de Davi Alcolumbre, o presidente do Senado, e disse que Moraes “se deslumbrou e lambuzou com a riqueza”.
Pediu que todas as entidades e associações de classe se manifestem neste momento, e se dirigiu a Edson Fachin, o presidente do STF
“Até quando, presidente Fachin, Vossa Excelência manterá em expectativa todo um País? Até quando adiará uma decisão que pode recolocar o Brasil no atalho para o retorno à normalidade democrática, e abrir espaço para eleições em um clima distendido, de paz e esperança?
Reconheçamos todos o gesto de sexta-feira: o senhor de fato retirou do inquérito das fakes news o pedido que Alexandre de Moraes tinha feito para investigar André Mendonça. Foi muito correto e muito valioso. Mas não é hora, antes de mais nada, de suspender qualquer questionamento sobre a conduta do ministro André Mendonça?
Diante de um pedido sem fundamento, um pedido inepto, não é verdade que qualquer juiz decente rechaça liminarmente o pedido?
E o que o senhor fez? Trazendo a matéria para a própria presidência da Corte, determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifestasse em cinco dias úteis sobre a admissibilidade e a regularidade do procedimento adotado por Alexandre de Moraes.
O senhor não percebe o quanto é indigno de Vossa Excelência ter determinado diligências a partir de uma acusação completamente arbitrária? Feita de um modo canhestro num instrumento – o inquérito das fake news – completamente inapropriado?
Se o senhor quer sinalizar aos brasileiros que ainda se pode ter alguma esperança no Supremo, não é hora de encerrar essa pseudoinvestigação contra Mendonça e de colocar todas as energias onde elas de fato devem estar?”
Abaixo, trechos da conversa de Guilherme com o Brazil Journal.
O senhor já vinha fazendo críticas duras ao STF há algum tempo. Diante do que aconteceu nos últimos dias, qual é a sua leitura do momento atual?
Eu não tenho dúvida de que para o País é fundamental o afastamento do Alexandre de Moraes agora. É insustentável a permanência dele ali.
Tanto pelas implicações que isso tem de fragilização de um dos Poderes do Estado, quanto porque não afastá-lo sinalizaria que não existe uma tentativa de reequilibrar a desordem institucional que está estabelecida.
Então, o afastamento é fundamental. Se o plenário decidisse pelo afastamento de Alexandre de Moraes enquanto se iniciam as investigações, eu acho que isso seria uma tranquilização do País.
Claro que essa é a solução ideal, mas isso também não retira a necessidade da abertura de um processo de impeachment contra ele.
Acredita que o clima na sociedade já existe para que isso aconteça?
Os vários veículos de comunicação, por assim dizer, despertaram para a inconveniência da permanência de Alexandre de Moraes – acho que já há uma unanimidade sobre isso, ou pelo menos sobre a necessidade de uma apuração.
Mas eles só acordaram depois da descoberta dos eventuais desvios de conduta, conflitos de interesse e tráfico de influência por parte do ministro.
Só que, para mim, muito mais grave do que isso são os abusos sistemáticos, o atropelo à Constituição que ele vem perpetrando há anos.
Mas na sua opinião, o problema se resolveria com a saída de Alexandre de Moraes?
Não. Eu continuo achando que seria preciso ampliar o impeachment, porque não se trata só dele. Acho que houve abuso de autoridade de vários ministros.
Por isso sou favorável, em primeiro lugar, a uma “CPI do abuso de autoridade”, para que fique muito claro quem de fato tomou decisões abusivas.
E essa CPI poderia resultar no impeachment de outros ministros?
Sim. No momento oportuno, deveria haver a abertura do impeachment daqueles ministros em relação aos quais fique patente o abuso de autoridade.
Para mim, mais grave do que a questão de, eventualmente, crime de corrupção é o abuso de autoridade. Porque ele atinge o coração da ordem institucional.
Mas aí não haveria o risco de trocar um desequilíbrio por outro, deixando o Executivo e o Legislativo acima do Judiciário? O próximo Presidente, por exemplo, poderá indicar, pelo menos, quatro ministros.

Eu continuo acreditando no modelo democrático.
Dos vários modelos de nomeação de ministros do Supremo, pessoalmente não tenho dúvida de que o melhor é confiar na lógica democrática: Executivo e Legislativo, os dois eleitos democraticamente, participando da escolha.
É um erro imaginar que existe um desenho institucional absolutamente perfeito que vai eliminar todas as fragilidades humanas.
Você precisa de um desenho institucional equilibrado e, ao mesmo tempo, de uma cultura democrática sólida.
O modelo geral brasileiro, com algumas disfunções, não é ruim. O que está ocorrendo é muito mais a apatia e a omissão sistemática do Legislativo.
Eu pensaria, por exemplo, num mandato de 12 a 16 anos para ministros e numa limitação maior das possibilidades de decisões monocráticas.
Mas e se o Presidente Lula for reeleito e indicar esses novos ministros?
Eu continuo acreditando no modelo democrático.
Se ele for eleito e houver no Senado senadores que efetivamente representem a população brasileira, cabe ao Senado conter eventuais excessos e indicações completamente desqualificadas do Presidente.
Isso forçaria o Presidente a chegar a algum equilíbrio.
Eu acredito fielmente no modelo democrático.
Então, hoje, a sua principal preocupação não é com uma disputa entre direita e esquerda, e sim com o Judiciário?
Perfeito. O grande tema hoje, ao meu ver, é o desequilíbrio institucional, a ruptura da ordem democrática e a hipertrofia do Judiciário.
O atual Supremo extrapolou todas as medidas de razoabilidade. Feriu o princípio do devido processo legal, feriu o Estado de Direito e está sistematicamente fragilizando a liberdade de expressão.
E o que está ocorrendo é uma omissão sistemática, conivente e cúmplice do Legislativo.
Como o senhor descreveria a saúde da democracia brasileira hoje?
Eu não acho que tenha havido a morte da democracia ou da ordem institucional, mas uma suspensão. Felizmente, as possibilidades de reação ainda estão presentes e não foram eliminadas.
O Congresso pode, com toda tranquilidade, reassumir seus poderes e recolocar o Judiciário nos trilhos.
O senhor acredita que uma CPI e impeachments pacificariam o País, em vez de colocar mais fogo na polarização?
Eu tenho certeza. Por isso sou até mais favorável à CPI antes do impeachment: a CPI jogaria luz.
Acho que as pessoas olham para o conjunto de vozes que foram caladas e para o volume de violações do devido processo legal e diriam: “Como é que eu não me dei conta?”
Fomos aceitando o inaceitável porque havia uma tensão, um receio, uma aversão ao Bolsonaro.
Há muitas pessoas, principalmente à direita, que falam em um golpe – como aconteceu no 8 de janeiro. Esse tipo de discurso não atrapalha também a discussão sobre os excessos do Judiciário?
Acho que sim, e isso gera uma tensão adicional.
Eu vejo muitas pessoas, tanto na esquerda quanto na direita – neste momento até um pouco mais algumas à direita – descrentes da democracia, como se pudesse haver outro mecanismo, como se uma autocracia pudesse ser mais efetiva. Não é.
Com relação aos manifestantes do 8 de janeiro, acho que é preciso fazer uma separação. Muitos deles, quando defendiam a aplicação do artigo 142, não defendiam propriamente uma ruptura constitucional. Entendiam que o artigo 142 previa uma solução para impasses.
(Glossário: O artigo 142 diz que as Forças Armadas existem para defender o País e garantir os Poderes constitucionais e, quando acionada por um deles, a lei a ordem – mas não dá aos militares o poder de uma intervenção).
Havia outros que tinham, sim, o entendimento de que era necessário um golpe. Por isso, acho que é preciso tecnicamente separar.
A interpretação do artigo 142 como uma autorização para esse tipo de intervenção é completamente equivocada, 100% equivocada. Mas havia pessoas que a defendiam como uma interpretação da própria Constituição.
Quais foram os abusos de autoridade nos julgamentos do 8 de janeiro?
O volume de irregularidades e atropelos ao devido processo legal foi total.
Nenhum deles tinha foro privilegiado. O procedimento normal seria começar na primeira instância e dar voz e espaço para a defesa de cada um.
Houve condenações coletivas e faltou individualização das condutas. A meu ver, não houve em momento algum a caracterização de golpe daquele conjunto de pessoas.
Talvez houvesse alguns com essa intenção, mas aquele conjunto não caracterizava propriamente um golpe.
O senhor defende a liberdade de expressão. Existe um limite quando ela entra em conflito com os direitos de minorias?
Não sou absolutista. Sou 100% favorável à criminalização da injúria. Injuriou, insultou, destratou, discriminou alguém no emprego: isso tem que ser criminalizado.
Também entendo que uma sociedade democrática pode criminalizar determinadas ideias. É o caso do racismo.
Mas existe um princípio que, para mim, não pode ser ultrapassado: a crítica a comportamentos não pode ser criminalizada.
Mas a Gazeta já se posicionou contra a inclusão da homofobia na Lei do Racismo, por exemplo, e homossexualidade não é comportamento, é uma orientação.
Um religioso que se manifesta contra as uniões homossexuais está manifestando uma posição moral. Você pode discordar dela, mas isso não deveria ser criminalizado. Agora, injuriou, insultou, destratou ou discriminou? Não tenho dúvida de que deve ser punido.
A Gazeta do Povo é frequentemente classificada como “de direita” e, às vezes, de “extrema-direita”. Como você avalia esses rótulos?
Na verdade, essa distinção entre direita e esquerda não me agrada totalmente, porque ela não traduz propriamente a riqueza de uma visão que acho mais matizada.
A Gazeta, por exemplo, defende o princípio da subsidiariedade, que admite uma intervenção do Estado quando necessária, quando a iniciativa privada não é capaz de atender.
Então, não me parece que a visão que defendemos seja simplesmente enquadrável nessa dicotomia. Mas, provavelmente, tecnicamente seria de direita. E no contexto atual da polarização, prefiro estar enquadrado como de “direita” ou “centro-direita” do que propriamente com a visão de esquerda.
Muitas vezes esse rótulo é aplicado por defendermos posições que, dentro de uma agenda democrática, são absolutamente razoáveis.
Acredito que, quando essa fase de polarização for superada, a sociedade vai conseguir distinguir melhor o posicionamento dos vários veículos.
Espero que as pessoas percebam a Gazeta como um veículo que tem profundo respeito pela liberdade, pela democracia, que acredita no País e que está aberto ao diálogo.
Tenho certeza de que vai chegar um momento em que mesmo quem discorda das nossas posições vai enxergar que elas não são radicais ou extremistas. Pelo contrário: acreditamos que as melhores soluções surgem justamente do debate aberto e justo.
O senhor ainda é otimista com o Brasil depois de todo esse diagnóstico?
Eu vejo a cultura brasileira como predominantemente aberta aos valores democráticos. Acho que um retorno mínimo à normalidade vai realimentar a esperança e o desejo de batalhar por uma democracia verdadeira.
O Brasil pode ser um exemplo para o mundo. Podemos fazer uma revolução democrática sólida. Talvez pareça uma visão um pouco ufanista, mas acredito nisso de verdade.
E essa reconstrução pode ser feita por pessoas de esquerda também?
Pode. Sempre existiram pessoas de esquerda realmente democratas. O que eu lamento neste momento é que boa parte da esquerda ainda não tenha percebido que a sua posição de esquerda não significa cumplicidade com um abuso de poder.











