Uma vacina experimental de mRNA, desenvolvida pela Moderna em parceria com a Merck, reduziu o risco de recorrência e progressão do melanoma em pacientes de alto risco, segundo resultados divulgados nesta quarta-feira.

As ações da Moderna dispararam e chegaram a ser negociadas a US$ 161,32 depois do anúncio, uma vertiginosa alta intradiária de 158%. Os papéis da Merck subiam 12%.

A vacina de mRNA da Moderna, combinada com a imunoterapia Keytruda, da Merck, foi produzida sob medida a partir da análise das mutações encontradas nos próprios tumores dos pacientes.

O ensaio clínico envolveu 1.137 pacientes de alto risco, com melanoma nos estágios IIB a IV, que haviam sido submetidos à remoção cirúrgica do tumor.

Embora o estudo ainda esteja em andamento, os resultados preliminares indicam que o tratamento, chamado intismeran, atingiu os dois objetivos principais do ensaio: reduzir o risco de recorrência do câncer e de disseminação da doença para outras partes do corpo.

“É a primeira vez que uma terapia de mRNA demonstra benefício contra o câncer. E, pela primeira vez, uma terapia desenvolvida especificamente a partir da assinatura genética individual do paciente – de seus neoantígenos – demonstrou benefício clínico. Isso é extremamente importante para esse campo de estudo,” David Berman, o diretor de desenvolvimento da Moderna, disse ao comentar os resultados.

De acordo com Stéphane Bancel, CEO da Moderna, a farmacêutica deve apresentar os dados às autoridades regulatórias o mais rápido possível. “Esperamos que o tratamento esteja disponível para os pacientes em 2027.”

No ensaio clínico, os pacientes foram divididos aleatoriamente para receber até nove doses de Keytruda combinadas à vacina personalizada ou apenas Keytruda, durante aproximadamente um ano. O imunoterápico da Merck é um dos tratamentos padrão para o melanoma.

As empresas divulgaram, em janeiro, resultados de um estudo de fase intermediária que apontou uma redução de 49% no risco de recorrência da doença ou morte após cinco anos de acompanhamento.

A nova vacina ilustra que a Moderna vem diversificando seu portfólio para além da vacina contra a Covid-19. A empresa recebeu, em julho, a aprovação do FDA para uma vacina contra a gripe e está desenvolvendo vacinas experimentais para doenças como norovírus e doença de Lyme.

Desde o fim do boom das vacinas contra a Covid-19, a companhia enfrenta uma forte queda de receita. O faturamento, que chegou a US$ 19,3 bilhões em 2022, recuou para US$ 1,94 bilhão em 2025.

Analistas apontam que a vacina experimental contra o câncer pode se tornar uma das principais apostas para recolocar a empresa em uma trajetória de crescimento.

Em julho, o Barclays estimou que o medicamento poderia gerar cerca de US$ 3 bilhões em vendas anuais para o tratamento do melanoma até 2035. Analistas do J.P. Morgan consideram que o lançamento do intismeran pode ser um elemento fundamental para que a Moderna volte a ser lucrativa. 

O melanoma é a forma mais letal de câncer de pele. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 9.360 novos casos por ano no Brasil. Nos Estados Unidos, são cerca de 1,5 milhão de pessoas convivendo com a doença.

A Merck vale cerca de US$ 365 bilhões na Bolsa. 

A Moderna mais que dobrou de tamanho, para cerca de US$ 49 bilhões.