A Fundação Antonio e Helena Zerrenner, uma das maiores acionistas da Ambev, acaba de comprar 15,3% das ações ON da Itaúsa, alocando R$ 4,5 bilhões de sua montanha de caixa em busca de maior retorno enquanto luta com a alta dos custos de saúde.

Dona de 10,2% da Ambev, a Fundação recebe cerca de R$ 1,2 bilhão por ano de dividendos da cervejaria, e gasta cerca de R$ 400 milhões/ano cumprindo sua missão:  fornecer educação e saúde aos funcionários da Ambev e seus dependentes, além de atuar em comunidades em que a companhia está presente.

Num leilão na Bolsa agora à tarde, a Petros vendeu 432 milhões milhões de Itaúsa ON à Fundação, que fica sócia das famílias Villela, Setúbal e Moreira Salles num momento em que a própria Itaúsa começa a diversificar seus investimentos. O leilão saiu a R$ 10,50 por ação.

A transação de hoje deve garantir à Fundação um assento no conselho da Itaúsa, que deverá ser ocupado por Victorio De Marchi, o veterano da Antarctica, hoje co-chairman da Ambev e um dos três diretores-executivos da Fundação.

A Itaúsa tem 37,4% do capital total do Itaú Unibanco e o banco representa 90% dos ativos da holding, que recentemente comprou uma participação na Alpargatas e numa rede de gasodutos da Petrobras, além de ser acionista da Itautec e da Duratex.

A Fundação tem sua origem no desejo do casal fundador da Antarctica de destinar seu patrimônio em benefício dos funcionários da companhia. Sem filhos ou sucessores, Antonio e Helena Zerrenner deixaram em testamento a ideia e o escopo da Fundação, criada após a morte de ambos por Walter Belian, que presidiu a Antarctica entre os anos 30 e sua morte em 1975.

Em 1999, a Antarctica fundiu-se com a Brahma criando a Ambev e, ao longo dos 18 anos seguintes, as múltiplas fusões da companhia geraram valor e alavancaram os ativos da Fundação.

Hoje, com um patrimônio de R$ 37 bilhões, a Fundação é o segundo maior ‘endowment’ do Brasil, atrás apenas da Fundação Bradesco, cujo patrimônio é de R$ 55 bilhões.

A Fundação hoje cuida da saúde de 80 mil pessoas.

Outro diretor-executivo da Fundação, Edson De Marchi, disse ao Brazil Journal que a Fundação se viu pressionada a encontrar um ativo com retorno maior dado a alta exponencial dos custos de saúde.

“Temos nos assustado com a velocidade do crescimento dos custos de saúde no Brasil,” disse De Marchi, que além de dirigir a Fundação trabalha na Ambev há 30 anos. “Já há alguns anos o custo tem crescido dois dígitos, e os nossos dividendos não crescem nesta taxa. Não é mais uma questão de se, é uma questão de quando teremos um problema.”

Há três anos, a Fundação começou a investir pesado para aumentar seu know-how de gestão de saúde. Outra medida é diversificar os investimentos, buscando um retorno maior.

“Historicamente, Ambev e Itaú têm nos dado um ‘dividend yield’ de 4% a 5% ao ano; nossa estimativa para a Itaúsa é de um ‘yield’ de 6,8% ano que vem,” disse De Marchi.
 
O interesse pela Itaúsa começou há sete anos, quando a Camargo Correa colocou à venda sua participação na holding.

Ao procurar um ativo para diversificar seus investimentos, a Fundação procurava uma empresa com qualidade de gestão, cultura de governança e rentabilidade, disse De Marchi. A Itaúsa passava no teste, mas a venda do lote da Camargo sairia com ágio, e a Fundação decidiu esperar. 

Enquanto isso, começou a montar uma posição em Itaú Unibanco, esperando o dia em que outro lote relevante de Itaúsa viesse a mercado.  Para um investidor que não se preocupa com a iliquidez do papel, a troca é vantajosa: nos últimos dez anos, a Itaúsa tem negociado a um desconto médio de 21% em relação à soma de seus ativos.

Nos últimos três dias, a Fundação vendeu sua participação no Itaú (60% em ONs e 40% em PNs) para fazer a oferta pelo lote da Petros nesta sexta. O próprio Itaú — que tem um programa de recompra de ações em curso — e a família Moreira Salles deram liquidez à fundação em leilões separados.