A Cambuci, a empresa listada na Bolsa que é dona da marca Penalty, acaba de anunciar o melhor ano de sua história – com recordes de receita, EBITDA e lucro – e disse que vai entrar em novas categorias como corrida e skate. A companhia também planeja aumentar seu conselho de administração de três para cinco membros.

A empresa viu sua receita crescer 53% para R$ 240 milhões no ano passado, um nível 11% acima de 2019, o último ano pré-pandemia. 

O EBITDA foi de R$ 43,3 milhões – com margem de 18,5% – e o lucro líquido chegou a R$ 27,8 milhões. 

Com o resultado recorde, a empresa planeja aprovar na próxima assembleia uma remuneração aos acionistas “relevante”, o chairman Roberto Estefano disse ao Brazil Journal

A Cambuci espera manter o ritmo de crescimento neste ano, quando Estefano estima uma alta de 40% na receita. Como as despesas não devem crescer na mesma velocidade, a expectativa do chairman é que o EBITDA cresça ainda mais.

O crescimento na Cambuci vem na esteira de uma reestruturação do portfólio feita ao longo de 2020. Com as quadras e escolinhas de esporte fechadas pela pandemia, as vendas minguaram, e a Cambuci agiu rápido para simplificar seu portfólio e desenvolver novos produtos. 

A empresa cortou 30% de seus SKUs, eliminando itens de baixo giro e baixa rentabilidade. Na outra ponta, lançou novos produtos com mais tecnologia embarcada e entrou em novas categorias como beach tennis e calçados para pedalar.

“Quando o mercado voltou estávamos com uma coleção nova, então o giro da mercadoria foi muito bom no segundo semestre,” disse Roberto. “Julho começou a melhorar e melhorou muito rápido.”

Roberto espera que essa tendência positiva se acentue ainda mais este ano.

“Vamos ter a volta das escolas, a abertura de clubes e quadras de aluguel, e temos um ano de eleição em que as prefeituras e estados estão com caixa e vão investir em infraestrutura, incluindo esportes,” disse ele.

Além de tudo isso, a “pandemia mostrou para as pessoas a necessidade de ter uma atividade esportiva mais forte.”

Nesse cenário, a Cambuci quer crescer com seu portfólio atual, mas também está se preparando para entrar em mais categorias dentro do universo de esportes individuais – até a pandemia, o foco da empresa era em esportes coletivos, justamente os que mais sofreram.

No segundo semestre, a Cambuci pretende lançar uma marca de roupas e calçados para skate nos moldes da Vans, mas com um price point menor – ou criando uma marca do zero ou adquirindo uma já consolidada. 

A sinergia seria gigantesca.

“Os calçados de skate são vulcanizados, que é um processo de produção que até pouco tempo era usado para fazer as chuteiras de futsal. Com o tempo, essa tecnologia evoluiu, mas ainda temos todo o maquinário para fazer calçados vulcanizados,” disse ele. “O custo pra gente de entrar nessa categoria seria muito baixo.”

Outro plano, este para 2023, é entrar na categoria de tênis para corrida. Para isso, Roberto diz que a empresa deve fechar uma parceria com uma marca global, cuidando de toda a distribuição e vendas no Brasil.  

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Fundada em 1945, a Cambuci começou como uma malharia. Foi só no final dos anos 70 que a família Estefano assumiu o controle e começou a produzir camisas, shorts e meiões para futebol. Inspirada no modelo da Adidas, a empresa aos poucos ampliou seu portfólio em direção a calçados e bolas.

Hoje, a venda de bolas representa 40% do faturamento, seguida por calçados (30%), confecção, meias e acessórios, que respondem pelo restante. 

Roberto diz que a Penalty é uma das poucas marcas do mundo que produzem sua própria bola. “A Nike e Adidas, por exemplo, compram de fábricas na China e colocam a marca,” disse ele. “Temos uma tecnologia de ponta, que permite que nossas bolas sejam das melhores do mercado, aprovadas pela FIFA e por várias federações nacionais.”

A bola S11 da Penalty, por exemplo, é usada nos campeonatos carioca e paulista. 

As vendas da Cambuci são concentradas basicamente em lojas multimarcas. A Penalty fornece para mais de 8 mil clientes que somam 10,5 mil pontos de venda. Nenhum cliente representa mais de 2% do faturamento da empresa, segundo o chairman.

A companhia está se preparando para lançar agora um ecommerce B2B, para facilitar as compras dessas lojas. 

Como a ação da Cambuci tem uma liquidez muito baixa, ela acaba ficando fora do radar de boa parte dos investidores, criando uma assimetria de preço. 

A Cambuci vale cerca de R$ 200 milhões na Bolsa e negocia a um múltiplo EV/EBITDA de cerca de 2,5x para este ano, nas contas de um investidor comprado no papel.

“A Cambuci tem um imóvel em São Roque, perto de onde vai ficar a Villa XP, que sozinho foi avaliado em R$ 60 milhões. Além disso, ela tem créditos tributários de quase R$ 40 milhões. Só isso dá metade do market cap da empresa,” disse esse investidor.

A família Estefano – que tem 60% da companhia – considera vender parte de suas ações no mercado para ajudar a liquidez, disse o chairman. 

Na próxima assembleia, os acionistas devem apreciar uma proposta para ampliar o conselho de três para cinco membros; uma das possibilidades é indicar para uma das cadeiras alguém da Visagio, a consultoria estratégica que recentemente comprou 1% da Cambuci e presta consultoria para a empresa. O nome de um atleta também está sendo cogitado.

A Cambuci tem um endividamento líquido de cerca de R$ 90 milhões, com parte relevante vencendo no curto prazo. Mas a empresa acaba de alongar boa parte dessa dívida ao levantar R$ 50 milhões numa debênture de quatro anos.

Agora só falta mudar o ticker de CAMB3 pra BOLA3.