Pouco antes do IPO em 2021, o Nubank deu a seu fundador, David Vélez, um plano de stock options com dois gatilhos: se o valor de mercado do banco batesse R$ 500 bilhões, David ganharia mais 1% do banco;  se batesse R$ 1 trilhão, ganharia 2%.

Na época, as metas não eram tão distantes: o Nubank fez seu IPO valendo R$ 225 bilhões (ao câmbio atual), muito acima do valor de mercado de R$ 100 bilhões de hoje.

Contabilmente, o valor presente desta opção hoje é de US$ 356 milhões, e tinha que transitar pelo balanço; como o plano era de oito anos, o Nubank tinha que reconhecer um custo de US$ 70 milhões por ano entre 2022 e 2029.

Ontem, David abriu mão do plano. Seu alinhamento com os outros acionistas passa a ser “apenas” os 21% que ele detém do capital do banco.

Há duas consequências imediatas – uma mais tangível, outra mais simbólica.

Analistas terão que atualizar seus modelos para o banco assumindo R$ 380 milhões de custo contábil a menos por ano – o que não é pouco para um banco que deve dar um prejuízo contábil de R$ 150 milhões este ano, e lucro R$ 2,5 bilhões ano que vem (sem o efeito do fim das stock options).

No curtíssimo prazo, o movimento de David de abrir mão das stock options vai piorar o quarto tri contábil, dado que o Nubank terá que reconhecer o vesting antecipado dos US$ 356 milhões e, ao mesmo tempo, aumentar seu PL no mesmo montante para anular o efeito.  (Tudo não-caixa.)

Do lado simbólico, David mostra que não está alheio ao novo zeitgeist que envolve as empresas de tecnologia em particular: uma era de escassez de capital e mais controle de custos.

Alguém poderia dizer que David abriu mão de pouco, já que, com a ação do Nubank hoje a US$ 4,22, a opção estava muito fora do dinheiro.  Mas um investidor comprado no papel discorda: 

“Nunca tinha visto alguém abrir mão de remuneração unilateralmente, ainda mais desse tamanho: se ele entregasse as metas poderia ganhar até R$ 20 bilhões. Me parece que ele está querendo ganhar legitimidade com a equipe para poder tomar as decisões difíceis de longo prazo, controle de despesas e busca mais acelerada por rentabilidade para não ficar à mercê do mercado de capitais.”

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