A família que controla a Aura Minerals acha que o comunicado do governo de Honduras dizendo que poderia cancelar as concessões de mineração no País vai ser “fogo de palha.”

“Nossa visão é que isso não vai pra frente… A chance é baixíssima,” Paulo Brito Filho, conselheiro da Aura e filho do controlador, disse ao Brazil Journal. “Foi o comunicado de um secretário do Governo mas que por enquanto não tem peso legal nenhum. Para mudar algo, isso teria que passar pelo Congresso.”

O comunicado assinado pelo Ministério das Minas, Energia e Recursos Naturais de Honduras fez as ações da Aura despencarem mais de 15% nos últimos dois dias, com os investidores preocupados com o impacto que uma medida como essa – se levada a cabo – teria nos resultados da empresa. 

A mina de San Andrés, em Honduras, responde por 35% da receita da empresa e 40% do EBITDA

O comunicado vem num momento de mudança de Governo no país.

A presidente Xiomara Castro assumiu o comando em janeiro com um discurso mais de esquerda. Em sua campanha, Xiomara chegou a fazer críticas ao setor de mineração, mas amenizou o tom depois que teve que compor chapa com partidos mais de centro e direita para garantir a eleição. 

Esse tipo de ruído já aconteceu em outros países da América Latina antes. 

Quando o presidente do México, López Obrador, foi eleito, ele entrou com um discurso de rever as concessões, mas acabou não mudando nada. O novo governo do Peru também foi eleito com um discurso semelhante, mas até agora não anunciou nada, assim como o Chile. 

“Eles entram com algumas ideias, mas quando veem as contas e o impacto desses setores na economia, percebem que não é tão fácil assim desligar tudo da tomada,” disse Paulo. “Nosso setor tem até um fator social: trabalhamos em regiões muito inóspitas, onde somos uma das poucas opções de trabalho para a população local.”

O anúncio do governo de Honduras já gerou reação da comunidade local, com os milhares de trabalhadores da empresa e de outras mineradoras se manifestando contra e discutindo o tema com representantes do Governo. 

Apesar do barulho, Paulo diz que a Aura tem um histórico longo de relacionamento com a Honduras e “temos todo interesse em construir uma relação construtiva com esse novo governo. Se for do interesse do governo temos, inclusive, a intenção de estudar novos projetos no país.”

Ainda assim, o anúncio aumentou brutalmente a percepção de risco dos investidores em relação ao ‘case’. 

Mesmo que as minas da Aura no país não sejam expropriadas, há “ferramentas alternativas que o governo pode usar para impactar negativamente a indústria de mineração sem fechá-la,” escreveram os analistas da XP num relatório divulgado hoje.

O governo poderia, por exemplo, “aumentar os royalties de mineração e os impostos ou até criar dificuldades para aprovar ou renovar as licenças ambientais necessárias para operar no país.”

Com o aumento do risco, a XP cortou seu preço-alvo para a Aura pela metade, passando de R$ 95 para R$ 50, e rebaixou sua recomendação de “compra” para “neutro.”

O valuation não precifica uma eventual expropriação da mina – o que tiraria mais R$ 20 do preço-alvo da BDR. 

“Mas como não acreditamos que esse é o cenário mais provável, consideramos um aumento de 10% nos royalties como uma medida mais “soft”,” disseram os analistas. 

Caso esse aumento dos royalties aconteça, o preço-alvo da XP seria reduzido para R$ 44 por BDR – bem próximo do valor que o papel negocia hoje. 

O Itaú BBA disse que ainda é muito cedo para ponderar os potenciais impactos de curto e longo prazo para a companhia, mas notou que a operação de San Andrés é significativa para a Aura e que “discussões negativas com o governo podem aumentar o risco de mudanças na legislação de mineração.”

“Potencialmente, isso pode se traduzir em maiores custos operacionais e impostos maiores,” disseram os analistas. 

Para Paulo, esse risco existe, já que o governo de Honduras tem falado em aumento de impostos para outros setores – por exemplo, o bancário. 

“Podem ocorrer medidas em todos os setores, mas a mineração já é bem tributada no país… Pode ter algo, mas longe de afetar a viabilidade do projeto.”

A polêmica vem num momento operacionalmente positivo para a Aura Minerals. O preço do ouro está perto de US$ 2.000 com a Guerra da Ucrânia e o cobre negocia no all time high.