Nos últimos anos, a Nestlé comeu o chocolate que o diabo amassou.
A ação da gigante de alimentos, dona de marcas como Nescafé, KitKat e Purana, despencou mais de 40% desde o início de 2022 – com a companhia perdendo cerca de US$ 170 bilhões em valor de mercado na esteira de vendas fracas, aquisições erradas e um turnover de CEOs fora do comum.
Agora, segundo a Barron’s, a Nestlé está finalmente colhendo os frutos de um turnaround que começou em setembro com a entrada de seu terceiro CEO em 13 meses.
Philipp Navratil – um veterano com décadas de companhia – está apostando em ganho de volume com foco nas categorias de café, comidas para pets e snacks, tentando recuperar o brilho de uma companhia que já foi sinônimo de estabilidade (e dividendos).
“Vender mais porções, mais copos, mais porções todos os dias… Isso resolverá a maioria dos nossos problemas do passado,” Navratil disse à Barron’s.
A mensagem parece estar espalhada por toda a empresa. “Pessoas comendo e bebendo mais os nossos produtos é o primeiro passo para a geração de valor nas ações,” disse a CFO Anna Manz, que entrou na companhia em março de 2024 depois de anos na London Stock Exchange.
A principal métrica que a Nestlé usa para medir essa performance é o RIG (real internal growth), que mede como o volume, em vez dos preços, está impulsionando a receita e ajudando nos ganhos de market share.
Dados publicados em abril, relativos aos três meses anteriores, mostraram uma alta de 1,2% no RIG na comparação anual, com crescimento em todas as unidades de negócio, com exceção da de produtos infantis. “O que queremos é crescer mais rápido que nossos competidores,” Navratil disse à revista.
Ao mesmo tempo em que impulsiona o crescimento, o novo CEO tem trabalhado para enxugar a estrutura da companhia.
A estratégia é simplificar o portfólio para focar em café, snacks, nutrição e pet care – quatro segmentos que, na visão de Navratil, podem entregar um crescimento de high-single-digit.
Segundo a Barron’s, a Nestlé está avaliando vender marcas conhecidas, como a água San Pellegrino, e o resto de sua participação na Häagen-Dazs, a fabricante de sorvetes – negócios de baixo crescimento, difíceis de escalar e focados em consumidores de alta renda.
O CEO também tem cortado na carne. Desde que assumiu o cargo, Navratil anunciou um plano de demissão que busca cortar 16 mil funcionários, cerca de 6% de toda a folha. A expectativa é gerar uma economia de US$ 3,8 bilhões até o final de 2027.
Os problemas da Nestlé começaram com a guerra na Ucrânia, que forçou a companhia a ajustar preços devido ao aumento do custo de insumos como combustível e trigo. A Nestlé aumentou seus preços em 8,2% em 2022 e 7,5% em 2023 – defendendo suas margens mas cedendo market share para concorrentes como Oreo, Cadbury e Dr. Pepper.
Com os consumidores pouco dispostos a pagar mais por café e chocolates, o volume de vendas da Nestlé ficou estável em 2022 e chegou a cair em 2023.
Na visão dos investidores, a Nestlé também errou a mão em aquisições, já que muitas delas acabaram se tornando distrações, com a companhia se expandindo para setores fora de seu core business. Alguns exemplos são a compra da Blue Bottle Coffee, da Freshly e da Aimmune Therapeutics.
A Blue Bottle – uma rede de cafeterias – foi adquirida em 2017 por US$ 425 milhões. Em abril, a Nestlé vendeu a rede por cerca de US$ 400 milhões, perdendo dinheiro com o negócio, que Navratil descreveu como “fora de nossas competências.”
Já a biotech Aimmune vendida em setembro de 2023, três anos depois da Nestlé tê-la comprado por US$ 2,6 bilhões.
O caso da Freshly foi ainda pior: a companhia foi adquirida em outubro de 2020 por US$ 950 milhões – e liquidada três anos depois. A aventura no mercado de delivery rendeu ainda um processo contra a Nestlé, já que alguns investidores da Freshly processaram a companhia alegando que ela não pagou o earnout acordado, que poderia chegar a US$ 550 milhões.
Apesar dos avanços recentes, a Nestlé ainda tem desafios relevantes à frente. Um dos principais: convencer os investidores de que ela tem uma estratégia clara para um mundo cada vez mais dominado pelos medicamentos GLP-1 – que tem levado muitos consumidores a perder o apetite para snacks.
O discurso do CEO é que a Nestlé vende “nutrição, não calorias. E as pessoas sempre vão continuar comendo um pedaço de chocolate ou pizza ocasional.”
A ação da Nestlé sobe 4% desde o início do ano, com a companhia valendo US$ 257 bilhões na Bolsa da Suíça.
O papel negocia a 18x o lucro estimado para este ano, um desconto relevante em relação à média dos últimos cinco anos, de 23x.
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