Imagine analisar um dos maiores fundos imobiliários de papel do País, com mais de uma centena de CRIs na carteira.

Para um analista, o trabalho começa com uma longa lista de perguntas: quem é a securitizadora de cada operação? Quem é o devedor por trás dela? Quais CRIs tiveram assembleias de titulares no último ano? O que foi decidido? Há atraso no lastro? Quais operações tiveram fatos relevantes recentes?

Responder tudo isso pode consumir dias.

No início de outubro, o Tomé, um agente de inteligência artificial gratuito e aberto ao público, criado pela Liqi, fez o trabalho em menos de cinco minutos.

Além de responder às perguntas, o Tomé apontou as cinco operações da carteira com mais fatos novos no período – como assembleias, vendas de lastro e reestruturações – e indicou o número do documento de onde saiu cada informação.

Desde julho, quando entrou no ar, o Tomé já respondeu mais de 25 mil perguntas feitas por profissionais de cerca de 150 empresas – incluindo gestoras de crédito, bancos de investimento, securitizadoras e administradores fiduciários.

Por trás do Tomé está a Liqi, uma empresa de infraestrutura para o mercado de capitais que tem Itaú BBA, Oliveira Trust, Galapagos Capital e Pátria Investimentos entre seus sócios.

O nome do agente é uma referência ao apóstolo Tomé, que é o dono da expressão popular “ver para crer”. 

A lógica é parecida: o Tomé só afirma aquilo que leu – e mostra onde encontrou a informação, segundo Daniel Coquieri, CEO da Liqi.

As perguntas feitas ao agente ajudam a dar uma dimensão da complexidade do trabalho.

Uma em cada cinco conversas tem quatro perguntas ou mais, com cada nova questão aprofundando a anterior. Segundo Coquieri, já houve usuário que colou 101 códigos de fundos de uma única vez, enquanto outro enviou 721 CNPJs.

Entre as perguntas reais estão pedidos como identificar todos os fundos que receberam parecer de auditoria com ressalva, abstenção ou opinião adversa – incluindo a frase literal do auditor e quem assinou o documento.

Para responder a esse tipo de questão, o Tomé consulta uma base construída a partir da leitura de uma quantidade de documentos que seria impraticável para um time de analistas.

A base inclui os informes mensais de 6,4 mil FIDCs desde 2013, as demonstrações financeiras de 1,2 mil companhias abertas e mais de 1,4 milhão de arquivos baixados da CVM, da B3 e dos portais das securitizadoras.

São regulamentos, escrituras de emissão, pareceres de auditoria, atas de assembleia, laudos de avaliação e relatórios de rating, entre outros documentos.

Segundo o CEO, foram mais de 9 milhões de páginas lidas e indexadas. Cerca de 2 milhões delas foram analisadas, uma a uma, por inteligência artificial.

O resultado é uma base com mais de 370 milhões de registros sobre mais de 60 mil fundos, emissões e companhias abertas.

Mais importante do que o tamanho da base, diz o CEO, é a profundidade das informações.

O sistema sabe quem administra, gere, custodia e audita os fundos – são 118 mil vínculos entre fundos e 4,5 mil prestadores de serviço.

O Tomé também acompanha, mês a mês desde 2013, dados de inadimplência e subordinação dos FIDCs; as decisões de 88 mil assembleias; as conclusões de 31 mil pareceres de auditoria; os covenants de 3,3 mil regulamentos; e 64 mil notas de rating.

A base ainda reúne a cotação diária de 1,2 mil papéis listados na B3 desde 2019 e a cota diária de 41 mil fundos.

O Tomé também vai além dos informes regulatórios.

Ele lê relatórios gerenciais dos gestores, 121 mil documentos publicados pelas securitizadoras em seus próprios portais, 18 mil relatórios anuais de agentes fiduciários, termos de securitização, escrituras com garantias e devedores, fatos relevantes, laudos de imóveis, editais de leilão, notas explicativas de balanços e normas da CVM.

Depois, cruza essas informações com o que cada papel efetivamente pagou no balcão da B3 – uma base de 867 mil eventos.

Detalhe: tudo é atualizado diariamente. O CEO diz que é justamente no cruzamento das informações que está boa parte do valor da ferramenta. 

“O Tomé mostra o que foi declarado, o que mudou depois e o que não fecha — e entrega a fonte de cada número. Quem tira conclusão é o leitor,” disse Coquieri. “Ele não dá nota, não recomenda. Ele lê.”

Esse tipo de leitura automatizada deve ganhar ainda mais importância a partir de agora.

Em setembro, a CVM anunciou que pretende usar inteligência artificial para supervisionar o mercado 24 horas por dia ainda em 2026.

Na prática, quem reporta informações ao regulador passará a ser cada vez mais lido por máquinas – e quem opera no mercado também deverá precisar delas para acompanhar o volume de dados produzido diariamente.

Um exemplo veio poucos dias depois.

Em 24 de setembro, o Conselho Monetário Nacional proibiu os FIDCs de investir, direta ou indiretamente, a partir de 13 de outubro, em créditos originados de ações judiciais e arbitrais que ainda não tenham decisão definitiva.

A partir de janeiro, os fundos que já carregam esses ativos também terão que precificá-los usando um método verificável, reavaliá-los a cada fato processual relevante e divulgá-los mensalmente, processo a processo.

No dia seguinte à decisão, o Tomé percorreu as carteiras declaradas pelos FIDCs à CVM e encontrou mais de 400 fundos com mais de R$ 60 bilhões em créditos de origem judicial.

Cerca de metade estava ligada a ações judiciais – universo alcançado pela nova regra enquanto não houver decisão definitiva – e metade a precatórios, que em regra já possuem decisão.

Para gestores e administradores desses fundos – e para quem compra crédito estressado em geral –, o desafio dos próximos meses será entender, fundo a fundo, o que existe na carteira, o que o regulamento permite, o que o auditor já apontou sobre a precificação e o que mudou a cada novo documento.

É justamente esse trabalho que o Tomé tenta automatizar.

Hoje, em boa parte do mercado, saber diariamente o que mudou em cada fundo, CRI ou debênture ainda significa colocar uma equipe inteira para ler PDFs.

Segundo Coquieri, o Tomé continua gratuito, com um limite diário de perguntas.

Mas a tecnologia criada para sustentar o agente também acabou gerando outro produto: uma base de dados do mercado de capitais construída não a partir de planilhas compradas de fornecedores, mas da leitura direta dos documentos originais.

Cada registro traz a fonte de onde saiu e, quando a origem é um documento, também a página.

“Pegamos qualquer documento do mercado de capitais, lemos com AI, transformamos em dado estruturado com fonte e série histórica — e deixamos pronto para uso,” disse Coquieri. “É essa base, e o motor de leitura que a construiu, que estamos abrindo para bancos, gestoras e prestadores de serviço.”

A oferta para empresas tem três formatos.

O primeiro são séries de dados via API, para companhias que querem conectar as informações diretamente aos próprios sistemas – incluindo inadimplência, subordinação, prazo da carteira, preços dos papéis, covenants e eventos societários.

O segundo é a leitura de documentos sob demanda.

Segundo o CEO, é a mesma tecnologia capaz de ler uma escritura de centenas de páginas e transformá-la em uma tabela em poucos minutos, mas aplicada aos documentos que cada cliente queira analisar – inclusive arquivos privados, processados em ambiente segregado.

O terceiro são módulos prontos de inteligência de mercado, como monitor de lastro, radar de sinais, “raio X” de obrigações e enquadramento.

O próximo passo, diz o CEO, é criar agentes que acompanhem eventos que precisam acontecer – como pagamentos, assembleias ou a entrega de informes – e avisem quando alguma coisa não fechar.

A própria Liqi já utiliza esse modelo em sua operação, da securitização à área financeira, com 17 agentes de inteligência artificial.

“Nossa aposta é que cada gestora, banco e prestador de serviço vai precisar da própria camada de leitura – e ela já existe, testada por dezenas de milhares de perguntas reais,” disse o CEO.

Para a Liqi, o Tomé é o terceiro capítulo de uma tese que vem sendo construída desde 2021.

A empresa já estruturou mais de R$ 4,6 bilhões em operações tokenizadas, lançou em janeiro a BRLD – seu “real programável” voltado à liquidação institucional – e agora está construindo uma camada de dados para o mercado de capitais.

“Primeiro vieram os ativos. Depois, a moeda. Agora, os dados,” disse o CEO. 

O Tomé está disponível gratuitamente neste link.

A base de dados e as soluções corporativas estão nesta página.

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