A Solfácil chegou aos R$ 2 bilhões em faturamento espalhando painéis solares pelos telhados do Brasil.
A empresa foi um dos maiores beneficiários da política de subsídios à geração distribuída aprovada pelo Congresso, e que continua até hoje.
Mas agora – em meio às discussões sobre o fim desses subsídios e preços variáveis ao longo do dia, com tarifas respondendo a oferta e demanda – a Solfácil está pivotando para uma nova estratégia, apostando na venda de baterias para GD e na comercialização de energia.
A empresa acaba de lançar um modelo de battery-as-a-service, e prepara sua entrada no mercado livre nos próximos meses.
O fundador e CEO Fábio Carrara tem uma ambição (ousada) com a nova estratégia: transformar a Solfácil na maior empresa de energia do Brasil em uma década.

(Sim, maior que a Axia…)
“Nós não nos posicionamos mais como uma empresa de geração distribuída, mas como uma empresa de energia mais amplamente,” Carrara disse ao Brazil Journal. “Por isso o otimismo.”
Fundada em 2018 para financiar sistemas solares, a Solfácil fez três grandes rodadas de equity, levantando cerca de US$ 180 milhões com investidores como Valor Capital, QED e Softbank.
A ideia era ser o “banco da energia solar” – e, com os subsídios, o negócio explodiu. Para dar conta da demanda, a companhia passou a acessar o mercado de capitais e captou mais de R$ 10 bilhões em dívida.
Mas ao entender o potencial do mercado, a Solfácil percebeu que poderia ser mais que uma simples financiadora e entrou na distribuição de equipamentos, que já representa metade da sua receita.
Hoje a empresa trabalha com uma rede de cerca de 10 mil integradores e diz ter viabilizado mais de 3 GW de capacidade solar no País. Os números não são públicos, mas Carrara diz que a empresa já é lucrativa.
Toda essa capacidade de geração distribuída, no entanto, acabou causando o chamado ‘espiral da morte’ no setor: o curtailment. (O cliente da Solfácil não é afetado pelo curtailment porque a energia que ele gera não é visualizada pelo ONS.)
Dependendo da demanda, diversas usinas eólicas e solares espalhadas pelo País precisam ser desligadas ou ter sua produção reduzida em alguns momentos para evitar um excesso de geração na rede elétrica que poderia desestabilizar o sistema e causar blecautes.
É este descasamento que a Solfácil quer resolver com as baterias.
“Você vai conseguir estocar a energia do dia, quando a energia é mais barata, e descarregar à noite – além de reduzir custos de demanda e funcionar como backup em caso de apagão,” disse Carrara.
No modelo battery-as-a-service, o cliente não compra a bateria. A Solfácil instala e opera o equipamento e cobra pelo serviço.
O foco inicial são clientes comerciais e industriais de média tensão, para os quais as diferenças tarifárias ao longo do dia já permitem fazer essa arbitragem. A Solfácil diz que a economia pode variar de 10% a 30%, dependendo da região e da distribuidora.
O produto passou por um soft launch nos últimos dois meses e agora está sendo lançado oficialmente.
A aposta também oferece uma saída para uma indústria que cresceu com forte apoio regulatório e agora enfrenta questionamentos cada vez maiores.
A geração distribuída ultrapassou 50 GW no País, e boa parte dessa capacidade não pode ser comandada diretamente pelo ONS – que não consegue desligar milhões de pequenos sistemas instalados em telhados.
Além do problema operacional, há uma discussão sobre quem paga pela infraestrutura da rede.
Durante anos, os incentivos à GD permitiram que os consumidores compensassem a energia injetada no sistema sem arcar integralmente com determinados custos de uso da rede – uma conta que acaba distribuída entre os demais consumidores.
A Lei 14.300 iniciou uma transição gradual desse modelo, reduzindo ao longo dos próximos anos parte desses benefícios para novos sistemas.
Para Carrara, isso não significa o fim da descentralização.
“Quando colocamos solar e bateria juntos, esse mercado vai continuar crescendo, mas o mix vai mudar,” disse.
Ele acha que cada vez mais sistemas solares já nascerão acompanhados de baterias, e que haverá também um mercado relevante de baterias stand-alone, inclusive em residências sem geração própria.
A outra peça fundamental da estratégia será a comercializadora, que a Solfácil deve começar a operar nos próximos meses.
A ideia da empresa, no longo prazo, é vender uma espécie de assinatura de energia: o consumidor compra eletricidade da Solfácil e a companhia pode instalar e administrar painéis e baterias para reduzir o custo daquele cliente.
Por isso, Carrara estima que, em cinco anos, quase metade da receita da Solfácil possa vir da comercialização de energia.
Além disso, a companhia também começou a financiar carros elétricos, inicialmente para motoristas de aplicativo, buscando conectar o veículo ao mesmo ecossistema de geração, armazenamento e consumo.
“A empresa de energia do futuro vai ser construída em torno do cliente, e não de uma usina centralizada,” disse Carrara.











