Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex-economista-chefe do FMI, prevê que o dólar perderá relevância nos mercados internacionais e cederá terreno para a moeda chinesa – que em breve será elevada ao status de reserva internacional de valor.

Autor do livro Our Dollar, Your Problem, o economista fez as previsões em uma entrevista ao influente jornal South China Morning Post, de Hong Kong.

“Os níveis de endividamento exorbitantes e as divisões internas nos EUA estão deixando os investidores internacionais nervosos,” disse Rogoff. “Estamos testemunhando o surgimento gradual de um sistema monetário multipolar, onde o dólar já não reina supremo.”

De acordo com o economista, a transformação tem sido acelerada pelas políticas de Donald Trump.

“Quando aliados e adversários buscam alternativas aos sistemas dependentes do dólar, isso sinaliza uma mudança tectônica nas finanças globais,” disse Rogoff. “Preparem-se para um futuro em que o euro e o yuan compartilhem os holofotes com uma influência monetária americana reduzida.”

Rogoff vem há anos alertando para o enfraquecimento do dólar. Os eventos geopolíticos recentes vão acelerar esse processo, argumentou. E previu que “dentro de cinco anos” a moeda chinesa passará a ser considerada uma moeda internacional de reserva de valor.

No passado recente, Beijing evitou tomar medidas para acelerar esse processo. Agora, contudo, o cenário mudou. Lideranças chinesas apresentaram recentemente a visão estratégica de “possuir uma moeda forte com status de reserva global.”

“O fato de o presidente chinês ter explicitamente defendido que o yuan se torne uma moeda de reserva global é um momento extremamente importante,” disse Rogoff. “Os tecnocratas estarão ansiosos para concretizar isso.”

Para Rogoff, atingir esse objetivo deverá envolver uma abordagem gradual – e não significa necessariamente uma abertura do mercado de capitais. A China poderia, por exemplo, permitir que estrangeiros negociem títulos públicos e atuem por meio de derivativos.

“A China não precisa necessariamente abrir todos os seus mercados para se tornar uma moeda de reserva,” disse ele. “Os EUA impuseram muitas restrições ao investimento estrangeiro durante grande parte das décadas de 1940, 1950, 1960 e até mesmo 1970, e mesmo assim sua moeda permaneceu como moeda de reserva.”

Para o economista, a China deverá seguir iniciativas como aprimorar a capacidade de seu sistema financeiro de fornecer serviços de intermediação para transações internacionais.

“Os investidores estão buscando avidamente maneiras diversificadas de diversificar seus portfólios e reduzir sua dependência excessiva do dólar,” afirmou.

Sobre o futuro das criptomoedas, Rogoff argumentou que elas dificilmente vão substituir o dólar – ou outras moedas fiduciárias soberanas – em sistemas regulamentados.

“Na economia legal, elas nunca substituirão o dólar, a menos que vivamos em um futuro distópico pós-Terceira Guerra Mundial, onde não haja um governo que esteja realmente no poder,” disse o economista. “Um governo seria tolo se permitisse que as criptomoedas substituíssem sua própria moeda, e os governos têm poderes regulatórios e legais mais do que suficientes para impedir a substituição em larga escala de suas moedas por criptomoedas.”