A Via cai quase 7% na manhã desta quinta depois da empresa reportar resultados fracos para o quarto trimestre, impactados pela performance das lojas físicas.  

No trimestre que deveria ser o mais forte do ano, a receita líquida da empresa caiu 14% para R$ 8,13 bilhões – 5% abaixo do consenso Bloomberg.  Considerando os níveis de inflação atuais, a queda real foi ainda maior.

O EBITDA ajustado teve alta de 6,7%, e o lucro líquido mergulhou 91% em relação ao ano anterior. 

O CEO Roberto Fulcherberguer conseguiu produzir um resultado operacional melhor que o esperado – com uma redução de 25% no SG&A – mas o contexto geral levou analistas a especular que a empresa pode estar engajada em algum tipo de tradeoff entre crescimento e rentabilidade.

A dona das Casas Bahia e do Ponto – que faz a maior parte de suas vendas em eletroeletrônicos – disse que a queda na receita é reflexo de um cenário macro mais difícil, de uma base de comparação muito forte do 4tri20 e também do fechamento de lojas. 

A empresa abriu 101 lojas e fechou 62 no ano passado. A maioria das lojas foram inauguradas em dezembro, contribuindo pouco para o volume de vendas no trimestre. 

A Via disse que janeiro continuou sendo desafiador por conta da pandemia, mas que a partir da segunda metade de fevereiro começou a ver um maior fluxo de clientes nas ruas, “melhorando de forma significativa em relação a janeiro.” 

O estoque final de processos trabalhistas subiu de 22.275 no fim de 2020 para 23.319 no fim de 2021, contrariando as expectativas de quem esperava que esse número baixasse. 

Na divulgação dos resultados do 3T21, a Via já havia dobrado as provisões para perdas com ações trabalhistas para R$ 2,5 bilhões, o que surpreendeu o mercado, que ainda tem a preocupação de que a empresa possa trazer novas surpresas. 

Um aumento na antecipação de recebíveis também chamou a atenção do mercado. Nas contas de um gestor, a empresa antecipou entre 50% e 60% de seu total de recebíveis no quarto tri, ante 40% no mesmo tri do ano anterior. 

A despesa com antecipação desses recebíveis aumentou no trimestre por conta da alta do CDI. O custo de venda de recebíveis de cartões ficou em R$ 146 milhões e aprofundou o resultado financeiro líquido negativo do 4T21, que ficou em R$ 411 milhões, 60,5% superior ao do 4T20. 

A Via teve uma redução de 7 dias no número de dias do estoque em relação ao 3T21 e um aumento relevante no prazo de pagamento de fornecedores, que passou de 141 para 163 dias na mesma comparação. 

No BTG, o analista Luiz Guanais disse que continua cético com o setor de ecommerce. Além da inflação e da alta de juros, que impacta no custo de capital, há três preocupações principais: a desaceleração do e-commerce local, principalmente para eletrônicos e operadores 1P;  a concorrência de players nacionais e internacionais e preocupações com níveis de margem para os players de e-commerce, dadas as perspectivas competitivas à frente.

Um analista do buyside resumiu assim a situação. “O varejo está muito fora de moda, o varejo de eletrônicos, mais ainda, e a Via, ainda mais. Se vem um resultado minguadinho como esse, mesmo com todos os poréns, ainda que discutíveis, não tem como ficar empolgado.” 

No ano, a Via acumulou prejuízo de R$ 297 milhões, ante um lucro de R$ 1 bi em 2020; a receita líquida de R$ 30,8 bilhões teve alta de 7%;  e o EBITDA ajustado de R$ 2,47 bi, alta de 10%. O GMV total cresceu 15% ara R$ 44,6 bi. 

Apesar dos poréns, os múltiplos atuais continuam fazendo o buyside estudar o case.

“Nesse preço aí, a empresa tá valendo valuation de business de lojinha sem graça,” diz um analista. “Esse cara tem R$ 45 bi de GMV. É relevante e não vai deixar de ser tão cedo. E ninguém sabe vender a crédito que nem ele.”