Neste episódio de The Business of Life, do Brazil Journal, Nilton Bonder entrevista a cientista Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisadora da UFRJ responsável pela terapia experimental com polilaminina, que pode reverter lesões na medula espinhal.
Chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, Tatiana fala sobre sua trajetória, as descobertas no laboratório e a recente aprovação, pela Anvisa, de uma nova fase de pesquisas com o medicamento — que, segundo ela, surgiu por acaso.
Nascida em Vila Isabel e moradora de Laranjeiras desde os 5 anos, Tatiana é graduada em Ciências Biológicas pela própria UFRJ, onde também concluiu mestrado e doutorado. É filha de Luiz Sergio Coelho de Sampaio (1933-2003), que foi superintendente técnico da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, vp da Embratel e fundador do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec).
Após dois pós-doutorados – em Illinois, nos EUA, e em Erlangen-Nuremberg, na Alemanha – Tatiana retornou ao País. “Eu só pensava em ser cientista. Estudar neurobiologia sempre foi uma coisa fascinante pra mim.”
A polilaminina é produto da polimerização da laminina, proteína que, durante a gestação, funciona como “trilho” para o crescimento dos axônios – prolongamentos dos neurônios, responsáveis por transmitir impulsos nervosos. ”São fios mesmo, como fios de eletricidade. A única diferença é que o fio é vivo. Então, ele pode crescer,” diz.
A primeira descoberta aconteceu entre 1997 e 1998, durante um experimento de rotina. Após um misstep – ela trocou o tampão de diluição da laminina por outro, de pH ácido –, conseguiu converter a laminina em uma estrutura estável, semelhante à existente no organismo. Assim, detectou “um fenômeno biofísico muito extraordinário, que tinha de ser investigado”. “Fui estudar.”
A polilaminina é injetada na medula avariada, em doses pequenas, em até três dias após a lesão completa. Após testes em ratos e cães, o estudo clínico em humanos começou em 2016. A primeira paciente faleceu por pneumonia — evento não relacionado ao medicamento. O segundo paciente, Bruno Drummond, que havia sido considerado tetraplégico após um acidente de carro, apresentou recuperação significativa a partir do terceiro mês.
Desde o início dos testes em humanos, Tatiana conta que enfrentou resistência na comunidade científica — inclusive no Hospital Universitário da UFRJ. “Até hoje, eles acham que é cloroquina. Mas está tudo bem,” diz. Com estudos de pequena escala, mantidos com voluntários, os resultados iniciais indicaram que, dos oito pacientes, seis apresentaram algum grau de recuperação.
Os números ainda são limitados — e a pesquisadora evita extrapolações. Quando Nilton menciona a possibilidade de um prêmio Nobel, Tatiana diz que “não é hora”. “O que mais me interessa é que funcione, claro. Se funcionar, o resto é consequência.”
O caminho de Tatiana expõe os entraves estruturais da pesquisa no Brasil, como os 12 anos necessários para conseguir a patente da substância, e a dificuldade crônica para receber os insumos. “Uma das consequências positivas no meu trabalho até aqui é o fato de que é um case que está dando visibilidade à pesquisa no Brasil.”
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