O ano era 2016. O Brasil estava em crise, o crédito secou no mercado e, pra piorar, o preço do milho disparou. A tempestade perfeita atingiu em cheio as empresas produtoras de frango.
Foi nesse cenário que a GT Foods (hoje rebatizada GTF) teve de interromper abruptamente uma trajetória de crescimento sustentado em expansão orgânica e aquisições.
Dona da marca Canção Alimentos, a empresa das famílias Gonçalves e Tortola, de Maringá, no Paraná, surpreendeu o mercado e entrou em recuperação judicial naquele ano.
Na época, a GT tinha cerca de 11 mil funcionários e estava entre as dez maiores exportadoras de frango do País.

“A empresa nunca tinha tido um ano negativo, sempre teve margens positivas, mas o cenário econômico e o aumento do preço das commodities agrícolas, que dobrou em três meses, levou a empresa que crescia alavancada à falta de liquidez,” disse ao Brazil Journal Rafael Tortola, CEO da GTF e membro da segunda geração da família, que agora comanda a empresa.
Passados quase dez anos, a empresa vive hoje o momento de reconstruir sua “bancabilidade”. O processo da recuperação judicial foi encerrado em 2020 e durou menos de quatro anos — um grande feito em um País onde a maioria das empresas que passam por uma RJ não conseguem dar a volta por cima.
“Saímos de quase R$ 1 bilhão de dívida, com alavancagem de quase nove vezes, para uma dívida líquida de zero no final de 2024,” disse Vinícius Gonçalves, o CFO da companhia e primo de Rafael.
Em julho, a empresa emitiu um CRA de R$ 375 milhões, coordenado pelo Bradesco BBI; a alta demanda permitiu aumentar o montante original em 25%.
Parte dos recursos está sendo usada para quitar débitos com o próprio banco – o maior credor da companhia no processo de RJ – e alongar o perfil da dívida. O restante vai para investimento.

Com capacidade de abate de 630 mil aves por dia, a GTF planeja investir R$ 300 milhões só em 2026 para ampliar sua capacidade de produção. A meta: chegar a 1 milhão de aves abatidas por dia até 2030.
Para isso, a empresa já planeja outro CRA e negocia um financiamento de R$ 250 milhões com a Finep para sua expansão fabril.
A GTF fechou 2025 com faturamento de R$ 4,5 bilhões — quase três vezes a receita do momento da RJ. Se mantiver o crescimento médio de 15% ao ano, a empresa de Maringá deve chegar em 2030 a R$ 10 bilhões de faturamento.
Criada em 1992 pelo avô e os pais de Rafael e Vinícius, a GTF tem 85% dos negócios focados no frango, o que inclui a criação de matrizes, fábricas de ração, abate e comercialização – junto com o rebranding da companhia, a GTF contratou o jogador Neymar Jr para ser embaixador da marca Canção.
O rosto do jogador está estampado em boa parte das embalagens da divisão de pratos prontos, que inclui empanados de frango e snacks como batatinhas, polenta e pão de queijo. A companhia estima lançar 20 novos SKUs este ano.
“Esperamos que a divisão de pratos prontos chegue a 20% do faturamento total até 2030,” disse Tortola, que deve levar algumas linhas de pratos prontos também para o mercado externo (que responde por 20% do negócio hoje).
A GTF costuma ser comparada com a São Salvador Alimentos (SSA), de Goiás. De porte semelhante e com atuação regional, ambas empresas têm apostado nas novas gerações das famílias fundadoras para cuidar do negócio, buscam no mercado recursos para saltos ainda mais ambiciosos e costumam ser apontadas como candidatas a um IPO.
A SSA chegou perto de uma abertura de capital de R$ 1 bilhão em 2021, mas cancelou a oferta quando o cenário macro inverteu.
“Acho que o IPO é um caminho natural para a nossa empresa e pode ser uma opção para os próximos anos. Mas hoje temos zero alavancagem e acreditamos que podemos continuar crescendo sem ter que ir para o mercado de capitais,” disse Tortola.
Aos olhos do mercado, porém, a SSA deve sair na frente da GTF quando a janela de IPOs reabrir, pois a governança da empresa de Goiás está mais madura. De acordo com um analista, também não haveria demanda dos investidores por duas empresas do mesmo segmento, em estágio semelhante.
Enquanto o IPO não vem, a GTF quer ser mais que uma produtora de frangos. A empresa está investindo na maior fazenda de tilápia do Brasil, em Terra Rica, também no Paraná.
Serão 200 hectares de lâmina d’água, que vão demandar R$ 120 milhões em investimentos nos próximos cinco anos. Hoje já estão em operação 45 hectares.
“O mercado de pescado tem crescido muito no Brasil. Falamos que é o frango da água, porque é um produto que está cada vez mais acessível ao consumidor brasileiro,” disse Tortola.
Além da atuação no setor de alimentos, o grupo passou também a ter uma divisão de amidos modificados quando assumiu em 2015 os ativos da massa falida da catarinense Lorenz. A marca fabrica produtos como maltodextrina, dextrina e amido modificado que são utilizados em diferentes processos industriais, do setor de alimentos ao químico.
Hoje essa divisão representa 10% do faturamento do grupo. “Somos o maior esmagador de raiz de mandioca do Brasil,” disse o CEO.






