Scott Galloway, o crítico mais vocal do poder monopolista das Big Techs, acha que o avanço da Amazon no Brasil não é uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’ — e aconselhou o governo brasileiro a “impor barreiras regulatórias gigantescas.” 

“Nos anos 80, os chineses decidiram consolidar o mercado global de aço, foram para os EUA e precificaram o aço abaixo do preço de produção para tentar tirar as empresas do mercado e consolidar o setor. Naquela época chamamos isso de ‘dumping’. Quando a Amazon faz a mesma coisa chamamos de ‘inovação’,” disse Galloway, que também é professor da NYU.

Os comentários foram feitos durante uma live da Verde Asset Management, mediada pelos gestores João Julião, Thiago Harada e Daniel Campion.

“Se a Amazon vier com mais força para o Brasil, eu encorajaria seus reguladores a fazer as perguntas: isso é mesmo competição? Isso é mesmo inovação?”

Segundo Galloway, que tem visitado o Brasil uma vez por ano nos últimos 12 anos (incluindo surf em Floripa), o ecossistema de ecommerce do País sofre com logística e tributação complicadas, e precisamos sim de concorrência.

“Mas você vai ter concorrência às custas de ‘dumping’?” questionou. “Todo mundo quer ser macho e acreditar em competição… Mas esses caras não competem, eles não competem de forma justa.”

Para ele, a regulação das Big Techs — uma discussão crescente nos EUA — provavelmente vai acontecer primeiro em economias como o Brasil e Europa, onde o benefício de ter uma Amazon ou um Facebook é muito menor do que nos Estados Unidos.

“Eles ganham uma fração do upside, mas ficam com todo o downside,” disse Galloway.

“Você não vê universidades ou hospitais no Rio de Janeiro com o nome dos fundadores do Facebook ou do Google. Na minha classe da NYU, o recrutador número um é a Amazon. A Amazon é o recrutador número de alguma universidade no Brasil? Duvido.”

Apesar das críticas duras ao poder monopolista das Big Techs, há onze anos Galloway só investe em quatro ações: Amazon, Apple, Google, Facebook. Seu critério de stockpicking: comprar monopólios não-regulados.

“É por causa [dessas ações] que eu moro de frente pra praia.”

Galloway defendeu que a Amazon precisa ser quebrada em três companhias distintas: uma com o negócio de ecommerce, outra para os negócios de cloud (a AWS), e uma terceira para a parte de fullfilment e logística.

Segundo ele, a empresa desmembrada poderia valer duas vezes mais do que vale hoje, e a AWS sozinha pode se tornar a empresa mais valiosa do mundo em 2025.

“Se a parte mais rentável e com maior crescimento for separada, acho que vai ser uma ação que todos os hedge funds e index funds terão que ter. Vai ser a ação pra você dar pra sua filha no aniversário de 16 anos, ou pro seu filho no bar mitzvah.”

Questionado se as mudanças impostas pela pandemia serão temporárias ou estruturais, o professor da NYU disse que algumas sim; outras, nem tanto.

Ele acha que o ecommerce, o trabalho remoto e o delivery de comida são tendências que vieram pra ficar — com implicações sérias para os restaurantes, mercado imobiliário e varejo físico — enquanto as viagens devem voltar com mais força ainda no pós-pandemia.

Para ele, os jovens vão gastar ainda mais com experiências e viagens, e não devem se retrair dentro de casa com medo do próximo vírus. Um dos principais beneficiados: o Airbnb, que ele acredita fará um dos maiores IPOs dos próximos 12 meses. 

Na live, Galloway lembrou a frase do velho Lênin (esse sim, comunista!) — “há décadas em que nada acontece, e semanas em que décadas acontecem.” Ele acha que estamos vivendo a segunda situação, com a pandemia fazendo o ecommerce avançar 10 anos em oito semanas.

A penetração do ecommerce no varejo americano subiu gradativamente na última década numa média de 1 ponto percentual por ano. De março pra cá, a penetração foi de 18% para 28%. 

“Pulamos 10 anos para o futuro no varejo, com implicações gigantescas para o comportamento do consumidor e as cadeias de abastecimento e logística.”

Passada a crise, ele acha que essa penetração pode cair momentaneamente para 25%, mas que deve voltar rápido.

Sobre a relação (cada vez mais próxima) de Mark Zuckerberg com o governo Trump, Galloway não usou meias palavras.  Para ele, o fundador do Facebook “tem se provado a mais cara — ou talvez mais barata — prostituta da América.”

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