Logo logo alguém vai dar a Roberto Lee a medalha de “fundador serial de corretoras”.

Na primeira metade dos anos 2000, ele fundou a WinTrade, a primeira grande operação de varejo para pessoas físicas depois da Ágora.  Em 2012, lançou a Clear, comprada pela XP quando tinha apenas um ano e meio de vida.

Um ano atrás, Roberto mudou a família para Miami para estruturar a Avenue Securities, criada para facilitar o acesso de investidores latinoamericanos – especialmente brasileiros – às ações e títulos de renda fixa listados em bolsas americanas. 

Ainda hoje, corretoras de grandes bancos brasileiros exigem um saldo mínimo entre US$ 200 mil e US$ 500 mil para abrir uma conta de corretagem nos EUA.  E o processo de abertura da conta pode levar até 15 dias úteis.

Na Avenue, o processo dura 7 minutos, e a burocracia é zero — graças ao trabalho que Roberto fez para interpretar e facilitar o cumprimento de toda a legislação americana.

Enquanto a XP e seus concorrentes ganham com a migração dos clientes dos grandes bancos para as plataformas independentes no Brasil, Roberto acha que o mercado local é pequeno para absorver todo o capital que terá que ser realocado.

“A geografia engana a gente: são 200 milhões de pessoas e um país enorme, mas na hora de alocar o dinheiro falta ativo, e a renda variável do planeta Terra acontece aqui nos EUA,” ele disse ao Brazil Journal.

“A diversificação geográfica de investimentos ainda não aconteceu na América Latina como um todo, mas no Brasil em particular a concentração da poupança no mercado interno beira os 100%, e isso é muito perigoso.  Quando o dólar vai de R$ 2 para R$ 4, a sociedade toda perde competitividade.  O empresário na França continua importando máquinas, mas o do Brasil tem que parar. A vida do brasileiro é muito dolarizada, e a gente se sente cada vez mais pobre.”

Desde que entrou em operação em junho, a Avenue já abriu 55 mil contas — 85% delas de brasileiros.  O número é significativo:  de acordo com dados do Banco Central, 58 mil brasileiros declaram ter ativos no exterior.  (O pico de abertura de contas: as vésperas do IPO da XP, em dezembro.)

A Avenue acaba de receber sua terceira rodada de investimentos — a primeira institucional — liderada pela e.Bricks Ventures.  A corretora foi avaliada em R$ 245 milhões.  

A rodada anterior, em novembro de 2018, avaliara a empresa em R$ 100 milhões e atraiu executivos com experiência na gestão de instituições financeiras, como Paulo Lemann e Patrick O’Grady (ex-Pollux), Alexandre Aoude (ex-Itaú); Carlos Ambrosio, atual presidente da Anbima e fundador da Claritas; Christian Klotz, da Brasil Capital; e Marco Kheirallah, ex-BTG e ex-CFO da PDG.  

A nova rodada trouxe dois ex-Garantia — Ricardo de Paulo e Guilherme Amaral — e André Algranti, o ex-CEO da XP nos EUA, que se juntou à Avenue como investidor e executivo.

A queima de caixa está se reduzindo.  Roberto disse que em dezembro, um mês tradicionalmente forte de remessas ao exterior, a Avenue já operou no breakeven, e espera um breakeven consistente a partir de abril.

No ano passado, a corretora conseguiu na SEC a licença de Registered Investment Advisor, o que permite que ela preste assessoria financeira, sugira investimentos e mantenha carteiras administradas.  

A nova rodada permitirá que a empresa expanda sua gama de serviços ainda este ano.   “Em vez de só facilitar investimentos, queremos que o cliente possa acessar todo o sistema financeiro americano, com conta corrente e cartão de débito,” diz Roberto.

Mas o brasileiro vai investir no exterior com o dólar a R$ 4,40?  

“A gente descobriu que isso tem menos a ver com o preço do dólar do que com o humor,” diz Roberto.  “Quando as pessoas ficam com medo da coisa piorar, elas remetem.  Hoje, depois do Carnaval, com a Bolsa em queda no Brasil, foi um dos nossos melhores dias.”