A Guararapes, dona das Lojas Riachuelo, planeja indicar Nicola Calicchio para seu conselho, incumbindo o executivo com uma missão ambiciosa: ajudar a empresa a se posicionar como a “Magalu da moda.”

Além do assento no board, o ex-head da McKinsey no Brasil e ex-chief strategy officer do Softbank Latin America Fund também vai liderar um novo comitê de transformação digital composto por ele, os três acionistas controladores, o CEO e o CTO. 

A indicação de Nicola – que precisa ser aprovada pelos acionistas na assembleia marcada para o final de abril – vem num momento em que a Guararapes considera ter dentro de casa todas as peças do xadrez para montar um superapp de moda.

Numa conversa com o Brazil Journal, o chairman da companhia, Flavio Rocha, refletiu sobre as vantagens competitivas dos varejistas locais num momento em que os players asiáticos começam a acelerar sua expansão no Brasil. 

“A gente tem um data lake muito profundo, construído ao longo de décadas, e isso os chineses não têm. A gente sabe fazer crédito, e eles não. A gente tem lojas físicas, que é central para um modelo de omnicanalidade, e eles também não têm isso,” disse Flávio. “O que eles têm, e nós temos que aprender, é a visão de plataforma.” 

Flávio disse que está lendo e sendo influenciado por Kai-Fu Lee, o autor de “AI Superpowers” e “AI 2041: Ten visions for our future”, tentando entender como aplicar inteligência artificial e machine learning ao negócio fundado por seu pai.

“Hoje, nós varejistas agimos inercialmente naquele espaço que o Isaac Peres nos dá, aqueles dois mil metros quadrados da loja, mas não existe mais essa limitação física, não tem porquê..”

Flávio diz que os grandes varejistas de vestuário [Riachuelo, Renner e C&A]  são como “três macaquinhos – cada um com 3% de market share – que querem se transformar num gorila de 30%, mas você não vai virar esse gorila organicamente… É hora de construir pontes, fazer M&As.”

“O Nicola vem com esse desafio de construir essas pontes, voltar a empresa para fora, sair do incremental para o exponencial,” disse ele. “Já temos as peças de xadrez, agora é aprender a jogar.”

Para Nicola, a Riachuelo tem a oportunidade de ocupar um espaço ainda vazio no setor: criar um ecossistema de moda com uma oferta ampla de marcas, “uma espécie de Magalu da moda”. 

“Do lado da oferta, nenhum marketplace horizontal consegue dominar o setor, porque a moda precisa de criação, de coleções, de curadoria, e esses marketplaces não são bons nisso,” disse ele. “Já do lado demanda, o consumidor separa as suas compras entre produtos básicos e os de indulgência. Ele não quer entrar no mesmo app para fazer as duas coisas. Ninguém gosta de ir ao supermercado comprar lingerie.”

Parte da visão já começou a sair do papel.

Nos últimos dois anos, a Riachuelo investiu R$ 600 milhões em tecnologia. O mobile checkout [que permite que o vendedor feche a venda em qualquer lugar da loja com um tablet] já está presente em todas as lojas, e até o final do ano o self-checkout deve ser implementado em toda a rede. 

Para Flávio, a hora de ‘jogar xadrez’ é agora. Para destravar valor da empresa, o chairman disse que todas as alternativas que sempre foram demandas do mercado estão sobre a mesa – da venda de imóveis a um follow-on para aumentar a liquidez do papel.

“O cenário concorrencial mudou completamente porque o varejo está se globalizando,” disse Flávio. “Antigamente, varejo era um dono de loja olhando o concorrente do outro lado da rua e trocando umas flechadas… Hoje, o cara manda um míssil lá de Guangzhou e acerta em Marília.”