Ver um filho formado em medicina no Brasil é um “sonho grande” para a maioria das famílias brasileiras. Depois de aprovado numa universidade, são seis anos de dedicação integral aos estudos, e se a instituição for privada, mensalidades de R$ 8 mil em média. 

Enxergando essa dificuldade, dois colegas do tempo de GV criaram a Alume, uma startup de financiamento estudantil destinado exclusivamente a “bons alunos” de medicina.

“É um tipo de crédito para a pessoa física diferente de tudo que existe no Brasil. O tíquete médio é mais alto e o prazo, mais longo”, diz Felipe Weinfeld, um ex-sales trader do Credit Suisse e ex-RI da Geru. 

A Alume está cavando seu espaço no nicho mais premium do mercado de educação, onde a relação candidato/vaga é brutal (850 mil candidatos para 35 mil vagas anuais), o tíquete é quase pornográfico, e continua subindo. 

Felipe concebeu a Alume há três anos junto com Pedro Silveira, um ex-analista da Tarpon. No ano seguinte, ganhou um prêmio do Insead para startups apresentando o projeto do negócio. Usaram os recursos e capital próprio para contratar equipe, afinando o modelo proprietário de análise e concessão de crédito. 

O time hoje conta com o diretor de risco de crédito, Arquimedes Salles, que foi o No. 1 da Luizacred, e diretor de produtos financeiros na Marisa e na Kroton. Um médico, Lucas Furtado, faz o relacionamento com a garotada que pega os empréstimos. 

Em meados do ano passado, a Alume captou R$ 10 milhões numa colocação privada de debêntures, com taxa pré-fixada de 10% e vencimento em 75 meses. Agora, levantou mais R$ 24 milhões a CDI + 6% junto a investidores institucionais e family offices. 

Esta segunda emissão teve uma certificação de ‘social bond’ do SITAWI Finanças do Bem, uma OSCIP que foca no desenvolvimento de soluções financeiras para impacto social.  “Eles analisaram nossa carteira e o tipo de cliente atendido e identificaram o viés social do nosso negócio”, diz Weinfeld. “Atendemos as regiões Norte e Nordeste, onde o indicador de médicos por mil habitantes é inferior a 2, e financiamos alunos que vieram de escolas públicas.”

Segundo ele, o projeto de democratizar a medicina no Brasil, ainda mais em tempos de pandemia, atraiu os investidores. Em meados do ano passado, a Alume passou a ser incubada pela Eretz.bio, o braço de inovação do Hospital Israelita Albert Einstein. 

A Alume financia os alunos a partir do terceiro semestre. “À medida que, com o tempo, agregarmos mais dados ao nosso modelo, acredito que vai ser possível atender esse aluno antes disso. Hoje chegamos a financiar 80% do curso”, disse Felipe. 

O crédito vem em dois formatos: pagamentos de mensalidade ou auxílio de custo de vida — para moradia, transporte e alimentação para alunos que estão na universidade pública mas, pela dedicação aos estudos, não podem trabalhar. 

“O desenho do financiamento é caso a caso. A ideia é que a família pague um pedaço da mensalidade, um valor que caiba em seu bolso, e financiamos o restante para que o estudante comece a pagar depois de formado e já trabalhando”, disse Felipe.

Um financiamento para os dois últimos anos do curso pode ficar entre R$ 100 mil e R$ 160 mil. Já o tíquete médio para auxílio  custo de vida é de R$  50 mil — com um prazo de carência. Os financiamentos saem com taxa a partir de 1,35% ao mês. O modelo de análise acompanha tanto o perfil da instituição de ensino quanto do aluno.

Até agora, a Alume tem R$ 20 milhões comprometidos (a maior parte alocados) com estudantes de medicina em mais de 140 instituições de ensino no Brasil.