Quando foi arrastada pela Rússia para a guerra, há quatro anos, a Ucrânia suplicava às grandes potências do Ocidente por armamentos. 

Mas de lá pra cá, o país fortaleceu sua indústria bélica com o conhecimento acumulado no front – e agora produz alguns dos drones mais desejados do mercado.

EUA, União Europeia e países do Oriente Médio firmaram acordos com a Ucrânia para comprar drones Merops, um modelo kamikaze que vem sendo um dos grandes responsáveis por impedir o avanço russo na Ucrânia, e que também possibilitou ataques ucranianos a mais de 300 quilômetros do front.

“Os sistemas de drones estão sendo testados no campo de batalha e podem ser ajustados com muita rapidez,” Maksym Beznosiuk, um associate fellow do think tank de segurança e defesa GLOBSEC, disse ao Brazil Journal. “O desenvolvimento desses equipamentos agora leva semanas em vez de anos, e acho que isso ajudou tremendamente a Ucrânia a alcançar seu sucesso.” 

Produzido pela Perennial Autonomy, uma empresa apoiada pelo ex-CEO do Google Eric Schmidt e comandada por engenheiros ucranianos, o Merops detona explosivos ao se aproximar de equipamentos inimigos, funcionando como uma alternativa aos mísseis ar-terra por uma fração do valor.

O veículo – que pode viajar a mais de 290 km/h e atingir até 4.880 metros de altitude – é vendido por US$ 10 mil e tem custo de produção de US$ 7 mil.

Para efeito de comparação, um míssil americano Patriot, desenvolvido para abater mísseis balísticos e aeronaves inimigas, custa US$ 4 milhões.

Quando os EUA pararam de enviar ajuda (e mísseis) a Kiev, os drones ucranianos precisaram assumir uma função vital na defesa do país – e estavam prontos, por conta da velocidade de desenvolvimento de empresas privadas e da atuação pró-mercado do Governo Zelensky. 

“[O governo] simplificou o processo de aprovação de novas armas para uso militar, sistemas de aquisição e também facilitou a importação de componentes do exterior ao criar canais diretos com os fabricantes de componentes. Isso ajudou a criar essa demanda doméstica previsível,” disse Beznosiuk.

Com preço baixo e usabilidade comprovada, os Merops estão ajudando a colocar a Ucrânia no mapa dos fornecedores bélicos globais, principalmente em um momento em que diversos conflitos ameaçam os estoques de armamentos das grandes potências.

Os primeiros interessados em comprar os drones ucranianos foram Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes, que têm um inimigo em comum com o país europeu.

Desde o início da guerra do Irã, o trio de aliados dos EUA no Oriente Médio vem sofrendo ataques de drones iranianos do modelo Shahed, também utilizado pela Rússia na guerra contra o país vizinho. Ou seja, um armamento que o Merops já estudou e enfrentou muito.

Em março, o Presidente Volodymyr Zelensky foi ao Oriente Médio fechar um acordo de venda de drones com os países.

Apesar do líder ucraniano não ter divulgado os termos do acordo, ele disse que terá duração de 10 anos em troca de apoio financeiro de nações do Golfo, uma bóia de salvação para o país após o fim do envio de ajuda americana.

O ministério da Defesa do Catar confirmou o acordo, afirmando que ele incluiria a “troca de expertise no combate a mísseis e sistemas aéreos não tripulados”.

Em seguida foi a vez da UE. No início deste mês, Zelensky e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, firmaram uma nova parceria industrial de defesa entre a UE e a Ucrânia, que, segundo a Comissão, será expandida para incluir mísseis antibalísticos até 2028. 

A Comissão afirmou que trabalhará com 19 parceiros do acordo sobre drones, incluindo empresas na UE, como Indra Group, Fincantieri e Quantum Systems, e ucranianas, como a Skyfall Industries, para que os drones ucranianos sejam produzidos em outros países da Europa.

“Esses acordos podem durar até 10 anos e incluem também o compartilhamento de expertise militar ucraniana e treinamento com esses drones. A Ucrânia já tem alguns programas de treinamento com drones, até mesmo academias, em alguns países da Europa,” disse Beznosiuk, que também vê essa aproximação como mais um passo para a Ucrânia entrar para a UE.

Leyen disse que a nova iniciativa eliminaria barreiras burocráticas e estabeleceria padrões comuns, o que facilitaria a realização de joint ventures entre empresas ucranianas e sediadas na UE. Ela disse ainda que o acordo irá adiantar o envio de € 1 bilhão para a Ucrânia, parte de um pacote de ajuda de € 90 bilhões aprovado anteriormente.

Agora é a vez dos EUA, que, apesar de haver interrompido o envio de ajuda à Ucrânia, continua sendo um aliado chave de Kiev. 

A Reuters reportou recentemente que seis empresas ucranianas receberam permissão para exportar cerca de 100 drones cada uma para os EUA, para participar do Drone Dominance Programme, uma competição promovida pelo Departamento de Defesa onde drones de dezenas de fabricantes participam de desafios projetados para simular condições adversas de campo de batalha.

Os vencedores ganham a oportunidade de fechar contratos de fornecimento de drones com Washington.

A primeira edição da competição foi vencida por uma aeronave produzida em conjunto pela gigante ucraniana de drones Skyfall e pela empresa britânica Skycutter.

Os EUA também firmaram acordo para começar a produzir no país barcos-drone projetados e testados em combate pela Ucrânia em um momento em que o país sofre com o fechamento do Estreito de Ormuz. 

Os chamados Magura são fabricados pela empresa ucraniana Uforce, que neste semana assinou um memorando de entendimento com a fabricante americana ReconCraft para a fabricação do armamento. 

O presidente americano Donald Trump disse recentemente que considera permitir que a Ucrânia fabrique mísseis Patriot; e os movimentos de venda de drones por Kiev a Washington podem agilizar esse processo.

“Se esses testes correrem bem, isso pode levar a mais produção conjunta, licenciamento, e também à integração da tecnologia ucraniana na base industrial de defesa dos Estados Unidos, mas ainda estamos no começo do processo,” disse Beznosiuk.

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