Em meio às conversas com o Softbank para se tornar sócio de seu fundo de US$ 5 bilhões para a América Latina, Paulo Passoni foi ao Japão falar com o fundador, Masayoshi Son.
 
Num evento hoje cedo, em comemoração aos 10 anos da gestora de investimentos Brasil Capital, Passoni compartilhou com os convidados alguns insights de sua conversa com Masa. 
 
O primeiro: nos próximos 10 a 15 anos, a economia mundial será completamente transformada pela inteligência artificial.
 
“Hoje, as empresas que dizem que têm isso aqui no Brasil têm zero”, disse Passoni. “E mesmo algumas empresas lá fora que dizem ter isso, têm muito pouco. Todos os modelos de negócio serão mudados pela IA. E estou falando de IA de verdade, e não aquilo que eu chamo de ‘IA de Excel’, em que o cara coloca lá: se x = y então segue que isso é igual a z”.
 
O segundo insight:  ‘a arbitragem de tempo’.
 
Passoni disse que o Softbank tenta criar as condições para o empreendedor crescer seu negócio pensando no longo prazo.
 
“Queremos fazer o que o Masayoshi Son fez com o Jack Ma em 2003, quando ele investiu US$ 22 milhões no Alibaba. Ele disse para o Jack: ‘se você virar a chavinha muito cedo e mostrar que é rentável, vai vir todo mundo canibalizar o seu negócio e você não será o ganhador no longo prazo’.”  (Jack obviamente acatou o conselho, e o Alibaba hoje domina a internet na China depois de queimar bilhões em caixa.)
 
“A gente chama isso de ‘arbitragem de tempo’, e mesmo os investidores do Silicon Valley não estavam fazendo isso, porque as empresas estão sempre buscando a rentabilidade para poder ir para o IPO,” disse Passoni. “Essa pressão acaba quando você tem um sócio disposto a te financiar no longo prazo.”
Deu um exemplo:
 
“Quando o Mercado Livre viu a ameaça da Amazon no Brasil, ele disse: ‘vou ter frete grátis mesmo que o meu EBITDA vá a zero’. Eu realmente admiro muito o Marcos [Galperín, fundador do MELI] por ter tido a coragem de fazer isso. Ele usou toda a credibilidade dele para fazer esse movimento. Primeiro, a ação dele caiu 30% —  depois dobrou!  O Mercado Livre pensou lá na frente e viu que quando a penetração do ecommerce no Brasil for 40% ao invés de 4%, ele vai ser o ganhador.”
 
[A propósito do Mercado Livre, Passoni — um ex-analista da Third Point — disse ainda que “é impossível prever a performance do MELI no curto prazo.  As altas e as quedas de 30% vão te deixar maluco, e você não vai conseguir pegar a porrada quando ela vier.”)
 
Participando do mesmo painel, Florian Hagenbuch, co-fundador da Loft, uma startup que quer injetar eficiência no mercado imobiliário, disse que o Softbank liberta o empreendedor para pensar grande.
 
“Na minha primeira startup eu pensava pequeno. Quando você vem de uma família conservadora como a minha, você pensa em minimizar o downside e não em maximizar o upside. Ter um sócio como o SoftBank ajuda a gente a inverter essa lógica.”
 
Passoni deu o exemplo da OYO, cujo fundador recebeu um investimento de Masa quando tinha 22 anos de idade. Cinco anos depois, a OYO tem mais quartos de hotel que a Marriott, sem ter tido que investir em ‘real estate’. 
 
Alguém pediu uma comparação entre os ambientes de VC/tecnologia no Brasil, EUA e China.
 
Passoni disse que o Brasil é “a China de 10 anos atrás” e, “se for comparar com os Estados Unidos, estamos na década de 80”.
 
“Isso é uma coisa boa, porque todo mundo está subestimando o quanto de disrupção vai haver, porque o investimento foi pífio até agora. Não dá para olhar para os últimos dez anos e usar como base para os próximos dez.”
 
Ele disse que a desigualdade de renda no Brasil faz com que alguns modelos de negócio funcionem melhor aqui do que em países desenvolvidos. E deu como exemplo o Uber, que tem no Brasil seu mercado mais rentável. “Quanto maior a falha de mercado (market failure), maior a oportunidade de investimento.”
 
Florian — que além de empreendedor também investe em startups pelo fundo Canary — disse que o ecossistema de VC no Brasil está começando a permitir que os fundadores pensem grande. 
 
“Antes, o empreendedor brasileiro pensava em dominar o Brasil e tava bom. Agora, começamos a ter startups brasileiras com ambição global e começamos a ver lá no Canary empreendedores dizendo que querem construir empresas globais. Se vão conseguir, é outra coisa, mas já estão pensando assim.”
 
Passoni acredita que as áreas mais receptivas a disrupção são educação, saúde, o setor financeiro, mobilidade urbana e moradia (onde a Loft se encaixa).
 
Um sócio da Brasil Capital pediu que Passoni e Florian dissessem se “comprariam”, “venderiam”, ou “manteriam” as seguintes teses de investimento.
 
O sucesso da Amazon no Brasil. Passoni: mantenho. Florian: compro.  
 
Grandes bancos brasileiros. Passoni: vendo. Florian: vendo.
 
Facebook, Google, Amazon e Apple.  Passoni: compro Google, vendo Facebook, vendo Apple, e Amazon eu sinceramente não sei.  Florian: vendo todas.
 
Investimento em tecnologia: nos Estados Unidos ou na China?   China 2×0 EUA.