Ao longo da última década, a energia deixou de ser apenas um insumo econômico para se tornar a principal variável na competição entre as nações.

O que antes era tratado como política setorial passou a ocupar o centro da estratégia geopolítica, industrial e tecnológica.

A transição energética – necessária e inevitável – foi conduzida de forma desbalanceada, frequentemente ignorando diferenças estruturais entre países ricos e emergentes. O excesso de apostas nas fontes renováveis intermitentes, sem a infraestrutura de respaldo adequada, produziu um efeito paradoxal: em nome da transição, o mundo retornou aos fósseis em busca de potência, confiabilidade e segurança.

A guerra da Ucrânia expôs essa fragilidade. A dependência energética deixou de ser um tema abstrato e passou a ser percebida como risco existencial. Em um ambiente geopolítico mais nacionalista, menos cooperativo e mais fragmentado, iniciou-se uma corrida explícita por soberania energética. Energia barata, estável e previsível voltou a ser sinônimo de autonomia política, estabilidade social e competitividade industrial.

Este cenário se torna ainda mais complexo com a ascensão acelerada da inteligência artificial. A corrida pela dominância em AI está pressionando exponencialmente a demanda por energia. Data centers, computação em larga escala e infraestrutura digital criaram um novo grande consumidor global capaz de absorver energia a qualquer custo.

O resultado é um dilema político: inflação energética para a população em geral, enquanto grandes consumidores seguem comprando, financiados por balanços quase infinitos. A consequência natural desse desequilíbrio é uma maior instabilidade política e institucional em escala globalizada.

É nesse contexto que o Brasil surge como um caso singular. Poucos países no mundo combinam, em escala continental, acesso relevante a fontes fósseis, hidráulicas e renováveis. Em períodos de alta volatilidade, a diversificação não é apenas desejável, é decisiva. Uma matriz plural funciona como um portfólio bem construído: reduz risco, suaviza ciclos e amplia a competitividade estrutural.

O Brasil tem, portanto, a possibilidade real de emergir como uma ilha de estabilidade energética em um mundo instável. Mas isso exige um pré-requisito claro: um planejamento integrado e centralizado, porém técnico e independente, orientado pelo longo prazo. Um país continental não pode operar sua matriz energética como um mosaico de decisões fragmentadas. Eficiência sistêmica não nasce da soma de boas intenções setoriais, mas da coerência do todo.

Nos últimos anos, o País passou a operar sua política energética a partir de um arranjo institucional difuso, no qual planejamento, regulação, operação e formulação de políticas públicas estão distribuídos entre diferentes instâncias – Executivo, Legislativo, Judiciário e órgãos técnicos – sem um mecanismo robusto de coordenação estratégica de longo prazo.

Embora cada ator desempenhe um papel legítimo, a ausência de uma governança integrada entre instituições como a ANEEL, a EPE, o ONS e a ANP tem dificultado a construção de uma visão sistêmica para o setor.

O resultado é um processo decisório excessivamente reativo, sujeito a pressões conjunturais e ciclos políticos curtos, no qual a energia deixa de ser tratada como política de Estado e passa a responder a incentivos fragmentados, frequentemente desalinhados do melhor resultado coletivo no longo prazo. Energia virou arena política de curto prazo.

Um planejamento moderno precisa partir das vocações reais do País. Isso implica reconhecer que desenvolvimento econômico e geografia energética devem andar juntos. O Brasil precisa migrar parte relevante do seu modelo de desenvolvimento industrial para regiões com oferta estruturalmente mais competitiva de energia, e o Nordeste é o exemplo mais evidente.

Do ponto de vista social e econômico, é mais eficiente levar indústrias até onde a energia está do que transportá-la por milhares de quilômetros até centros de consumo tradicionais. Essa lógica reduz investimentos pesados em transmissão, diminui perdas sistêmicas e gera maior valor agregado local: empregos qualificados, renda, inovação e adensamento produtivo fora do eixo Sul-Sudeste. Energia barata deve ser a alavanca de desenvolvimento regional.

Historicamente, nosso planejamento energético foi excessivamente dependente dos ciclos de investimento da Eletrobras e da Petrobras, o que naturalmente alinhou a estratégia nacional aos objetivos dessas companhias. O efeito colateral foi uma dependência industrial elevada de variáveis exógenas: exposição concentrada ao Brent, uma indústria petroquímica estruturada em torno da nafta – e não de derivados de gás natural – e uma matriz elétrica sensível aos ciclos hidrológicos.

Grande parte desses riscos seria mitigável com uma visão integrada. O Brasil possui enorme potencial para o desenvolvimento petroquímico a partir do gás natural doméstico, com menor volatilidade de custos, maior previsibilidade e forte efeito multiplicador industrial. A diversificação não é apenas de fontes, mas também de infraestrutura e usos finais da energia.

Os impactos da competitividade energética sobre a economia tendem a se ampliar de forma significativa nesta década, enquanto o espaço para erros se estreita. Energia cara, instável ou mal planejada corrói produtividade, amplia desigualdades e limita o crescimento. Tomadores de decisão da política energética nacional em diversas instâncias precisam de estabilidade, previsibilidade e independência de fato e de direito, para executar ciclos longos de planejamento, protegidos de interesses difusos e pressões de curto prazo.

Estamos diante de uma janela rara: o Brasil possui recursos, diversidade energética e escala. O que falta é governança. A discussão sobre independência do planejamento energético não é ideológica — é estratégica. E é urgente, se quisermos finalmente transformar nossas vocações naturais em protagonismo econômico duradouro.

 

Luiz Felipe Coutinho é CEO da Origem Energia.