No setor elétrico brasileiro, volta e meia repetimos velhos erros como se fossem grandes descobertas. O mais recente é a definição dos preços‑teto para o próximo leilão de capacidade, em março.
Em vez desses preços refletirem a conjuntura internacional — na qual turbinas, motores e equipamentos essenciais estão em patamares recordes — os tetos foram fixados como se o Brasil tivesse acesso a uma prateleira exclusiva, com desconto, ignorada pelo resto do planeta.
Com isso, criou-se o primeiro teto de preços aspiracional da nossa história – uma obra de ficção regulatória onde se prefere acreditar que a planilha manda mais que a realidade.
O mundo caminha para uma transformação energética sem precedentes. A demanda global por máquinas cresce, os fabricantes operam no limite e os preços sobem impulsionados por gargalos logísticos, pressão cambial, disputa geopolítica e transição para novas tecnologias.
Enquanto isso, aqui acreditamos que é possível contratar usinas modernas a valores que não compram nem peças de reposição em muitos mercados maduros.
Mais curioso ainda é que o Ministério de Minas e Energia parece ter ignorado completamente o custo de manter a infraestrutura de suprimento de gás para quando essas térmicas forem acionadas pelo ONS. Não estamos falando de um detalhe: são projetos volumosos de produção, terminais de importação de GNL, contratos firmes de suprimento, gasodutos dedicados e toda uma cadeia que precisa estar disponível 24/7, independentemente do fator de despacho.
Garantir gás firme para térmicas de capacidade não é barato — e fingir que esse custo não existe não o elimina, apenas o empurra para algum operador ou investidor que, logicamente, não aparecerá para um leilão cujo desenho ignora a base física necessária para o fornecimento do combustível.
A lógica que sustenta os tetos atuais parece partir de uma premissa curiosa: se o Brasil simplesmente declarar que as máquinas são mais baratas, o mercado internacional, comovido, obedecerá. Infelizmente, não funciona assim.
Equipamentos de geração são ativos globais. Concorremos com EUA, Europa, Índia, Oriente Médio e Ásia — todos pagando mais, comprando mais e planejando mais.
A postura adotada ao se fixar esses preços-tetos é um convite ao fracasso. Nenhum investidor sério conseguirá fechar a conta com custos defasados artificialmente. Nenhum fornecedor irá preferir o Brasil se outros países topam pagar o preço real.
E nenhuma política energética sobrevive quando, na base do planejamento, existe o hábito recorrente de negar o cenário mundial em nome de tabelas domésticas — agora somado à ilusão de que infraestrutura de gás cai do céu ou se mantém sozinha.
Fixar tetos tão baixos não traz eficiência; traz vazio. Não atrai competição; afugenta. Não reduz custos; apenas transfere o problema para o futuro, quando a conta chega, sempre mais cara.
O País precisa de segurança energética, previsibilidade regulatória e capacidade instalada firme — e nada disso se materializa quando insistimos em ignorar as forças mais básicas da economia.
O resultado é facilmente antecipável. Em vez de contratar usinas, contratamos ilusões. Em vez de reforçar confiabilidade, reforçamos incerteza. Enfim, seguindo essa trajetória, o desfecho técnico não é mistério para ninguém do setor: o Brasil não está definindo um preço‑teto — está definindo, com precisão milimétrica, a data provável do próximo apagão ou de um novo leilão emergencial, cujos preços – aí sim – serão cinco vezes mais caros que os preços tetos fixados para o leilão de março.
Adriano Pires é sócio-diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e apresenta o videocast POWER, no Brazil Journal.











