A Odebrecht está esticando a corda na negociação para vender a Braskem.

A gigante europeia LyondellBasell negocia há meses com a Odebrecht para definir os termos de sua oferta pública pela Braskem.  Em junho, quando as conversas começaram em caráter exclusivo, a ação da Braskem estava em R$ 42; agora negocia ao redor de R$ 60, sua máxima histórica.

A oferta é 70% em dinheiro e 30% em ações da Lyondell, mas a Odebrecht insiste em receber 100% de seu pagamento em ações.

O motivo parece simples:  se o dinheiro entrar no caixa, os credores da Odebrecht vão exigir pagamento, esvaziando o conglomerado baiano.   Mas se conseguir receber tudo em ações, a Odebrecht passará a ter cerca de 10% da Lyondell, tornando-se uma companhia de participações nos mesmos moldes da Bradespar.
 
Na Petrobras, onde a venda da Braskem enfrenta resistência do corporativismo, uma transação em que a própria Petrobras fosse paga em ações é menos mal vista.  Em outras palavras:  os dois vendedores querem a mesma moeda, mas a LyondellBasell não parece disposta a ir além dos 30% de equity na transação. Como a Petrobras fornece nafta para a Braskem, parece óbvio que, se tiver que escolher um sócio no Brasil, a Lyondell preferirá a estatal.
 
Além da insistência da Odebrecht em receber sua parte em ações, a negociação enfrenta outro entrave: a grande operação da Braskem no México, que responde por cerca de 25% do EBITDA da companhia.

Em 2008, o governo mexicano abriu uma licitação internacional para a construção de uma planta de polietileno, a base das indústrias de plástico, cosméticos e construção. Um consórcio da Braskem com a mexicana Idesa ganhou a concorrência e investiu US$ 5,2 bilhões. A contrapartida foi um contrato de fornecimento de 20 anos com a Pemex, que tinha gás em excesso.

Mas de lá para cá, o consumo no México cresceu e a Pemex passou a ter que importar o gás. O resultado: hoje, a estatal vende gás ‘barato’ para a planta da Braskem e caro para os mexicanos.  Três executivos da Pemex já foram presos em conexão com o contrato, e a discrepância chamou a atenção dos políticos. O presidente-eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, que toma posse em 1 de dezembro, prometeu rever o contrato quando assumir o Governo.

Nas conversas sobre a Braskem, a LyondellBasell tem pedido garantias em relação ao que acontecer no México, mas a Odebrecht responde que o contrato é “100% seguro”,  e que o novo governo não irá rompê-lo.

A Lazard, que assessora a Odebrecht, já propôs inúmeras estruturas alternativas para acomodar as preocupações de ambas as partes, mas ainda não houve acordo. O assessor jurídico é o Mattos Filho.

A LyondellBasell está sendo assessorada pelo Morgan Stanley, JP Morgan e por Gordon Dyal, um ex-banqueiro da Goldman Sachs.  O Pinheiro Neto trabalha na parte jurídica.

O impasse nas negociações vem num momento de instabilidade na cúpula da Odebrecht. No início de junho, Newton de Souza — um veterano da Odebrecht desde a compra da Copene nos anos 90 e que segurou a companhia quando Marcelo Odebrecht foi preso — renunciou a seu assento no conselho depois de um embate com Marcelo Odebrecht, que começou quando este foi para a prisão domiciliar.  Há menos de duas semanas, outro executivo sênior — Maurício Ferro, o vice-presidente jurídico — renunciou após se tornar réu num processo que o acusa de corrupção.

A Braskem é, na definição de um banqueiro, “o ativo que mantém a Odebrecht de pé”. O conglomerado é dono de 33% da Braskem, mas as ações foram dadas em garantia a todos os credores, que incluem Itaú, Bradesco, Banco do Brasil.

Até o momento, a LyondellBasell é a única compradora.  Se a negociação não sair, a ação perderá valor e o colateral dos bancos valerá menos.

A Lyondell vale US$ 44 bilhões na Bolsa; a Braskem, cerca de US$ 11 bi.
 
A dívida da Odebrecht é de R$ 47 bilhões, dos quais R$ 30 bilhões são com bancos públicos: BNDES (R$ 13 bi), BB (R$ 10 bi) e Caixa (R$ 7 bi). Itaú, Bradesco e outros são credores de R$ 17 bilhões.  O grupo não tem caixa.