São raros os produtos industriais em que os chineses não são autossuficientes. Os jatos comerciais são um deles.
Mas a estatal China Commercial Aircraft, conhecida como Comac, está empenhada em mudar essa história.
O jato C919, um bimotor narrow body com capacidade para até 174 passageiros, acaba de fazer seu primeiro voo comercial internacional.
A aeronave, operada pela Air China decolou de Beijing na tarde da quarta-feira e duas horas depois pousou em Ulaanbaatar, na Mongólia.
Por enquanto, o C919 não possui certificação das duas principais agências de aviação do mundo, a americana FAA e a europeia EASA. Mas a sua estreia internacional, depois de anos de atraso, significa que Airbus e Boeing poderão ver seu duopólio ameaçado nesse mercado.
Na categoria dos jatos narrow-body, com configuração de corredor único e três assentos em cada lado, as aeronaves dominantes são as da família A320, da Airbus, e 737, da Boeing.
Desde maio, a China vem retardando a aprovação de entregas da Airbus, e, de acordo com a Bloomberg, isso acontece porque as autoridades europeias estão demorando para certificar os novos jatos da Comac.
O modelo também depende largamente de tecnologia importada, o que significa que a autossuficiência chinesa nessa área ainda poderá levar anos.
Os motores, por exemplo, são fabricados pela CFM International, uma joint venture da GE Aerospace com a francesa Safran Aircraft Engines.
De acordo com a CNBC, a Comac colocou no mercado 32 jatos C919 no ano passado – um terço do total de aeronaves que a Airbus entregou na China no mesmo período.
Com a guerra tarifária de Donald Trump, Beijing vem reduzindo suas importações da Boeing. As aéreas chinesas já representaram mais de 20% das vendas da fabricante americana; agora, são perto de 5%.
Os chineses são os principais clientes da Airbus, com a expectativa de aquisição de mais de 9.000 aeronaves nas próximas duas décadas.
Beijing controla as três maiores companhias aéreas do país, que juntas respondem por metade da capacidade doméstica. Isso dá à Comac uma base sólida de compradores.
Mas o analista Rob Morris disse à CNBC que “o ritmo de desenvolvimento e produção da Comac ainda é lento demais” para ameaçar as duas líderes.
“Não basta desenvolver, fabricar e entregar a aeronave. A fabricante precisa oferecer suporte em operação 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante todo o ano, para garantir que a confiabilidade do C919 se equipare à dos modelos A320 e 737, que são bem conhecidos e consolidados,” disse Morris. “Isso leva tempo.”
No segmento de jatos regionais hoje dominado pela Embraer, o C909 da Comac vem acelerando vendas, impulsionado pelo incentivo do governo chinês.
De acordo com a empresa estatal chinesa, foram entregues 186 jatos dessa família desde a sua estreia comercial em junho de 2016, ainda com o nome de ARJ21. O avião tem share de 70% na frota de aeronaves regionais.
Fora da China, o jato está em serviço no Laos, na Indonésia e no Vietnã, incluindo rotas internacionais ligando esses países.
A frota em operação da família E2 da Embraer soma 195 aeronaves e há mais de 500 pedidos firmes a serem entregues nos próximos anos.











