A Península Investimentos — o family office de Abilio Diniz — está abrindo sua gestora de ativos líquidos ao público, dando aos investidores do varejo a chance de apostar na mesma estratégia de multimercados que tem funcionado para o ex-controlador do Grupo Pão de Açúcar.

A O3 Capital, que há sete anos administra as posições mais líquidas da Península, está se tornando um partnership. Antes dona de 100% do negócio, a Península está cedendo metade do capital ao time de gestão.

Seu fundo multimercado — o O3 Retorno Global — começa a ser distribuído esta semana em plataformas como BTG Digital, ModalMais e Warren.

O fundo será oferecido em duas versões. A primeira, para investidores de varejo com um investimento mínimo de R$ 1 mil; e a segunda, restrita a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão em liquidez) e com aporte mínimo de R$ 5 mil. O fundo cobrará 2% de taxa de administração e 20% do que exceder o CDI; o resgate é em D+30. 

Abilio tem R$ 1,5 bilhão investidos no fundo — uma espécie de ‘seed money’ — e se comprometeu a um lockup de três anos. A Península não tem representantes no comitê de investimentos do fundo, que toma decisões de forma independente.

As discussões para separar a gestora do family office já existem há mais de três anos, mas o cenário atual — juros reais negativos e investidores buscando a exposição a risco — impulsionou o movimento, Abilio disse ao Brazil Journal. 

“Além disso, eu sempre quis que as pessoas conseguissem realizar suas ambições junto comigo, sem ter que ir para outros lugares. E para isso, precisávamos trazer mais capital para a gestora,” disse o jovem empresário de 84 anos.

O fundo tem mandato para investir em todas as classes de ativos e regiões, e neste momento está mais alocado em empresas dos EUA e China.

Além dessa alocação geográfica, os principais temas da carteira hoje são energia limpa, dados, tecnologia, commodities e uma seleção do que o fundo considera ‘as melhores empresas do mundo’. 

“Temos empresas globais como Microsoft e Google; ativos ligados à ciclicidade dos EUA, como empresas do setor imobiliário; e ativos que se beneficiam da abertura, como algumas redes de hóteis. Na China, que está menos cíclica, estamos focando em empresas de tech que usam dados de forma intensiva,” diz o gestor do fundo, Daniel Mathias, o “Poli”.

Uma das teses da O3 é o crescimento da demanda por cobre, uma commodity essencial para o processo de eletrificação da economia. Para expressar essa visão, a O3 está comprada no COPX, um ETF que investe em diversas produtoras do metal, incluindo a americana Freeport. 

No tema de ‘clean energy’, a O3 está comprada em ETFs de lítio e de produtores de urânio. “A energia nuclear sofre de um problema de imagem, mas a China tem aumentado muito a produção dessa energia porque ela é a mais renovável e limpa que existe.” 

Para Poli, o resultado disso será um aumento significativo na demanda por urânio num momento em que há escassez na oferta.

O Brasil hoje é uma posição pequena dentro do fundo.

A O3 está começando como uma gestora monoproduto, mas nada impede que lance outros fundos ao longo dos anos, diz Paulo Castilho, que trabalhou anos na área de prime brokerage da Goldman Sachs e desde o final do ano passado é o diretor de relações com investidores da O3. Segundo ele, a gestora poderia, por exemplo, criar um novo produto a partir de uma estratégia específica do multimercado que esteja dando muito certo.

A Península administra cerca de R$ 11 bilhões, incluindo a posição de Abilio no Carrefour Brasil (cerca de R$ 2,3 bi) e os R$ 700 milhões na BRF. O family office tem ainda R$ 4 bi em imóveis. 

Eduardo Rossi, o vice chairman e braço-direito de Abilio na Península, disse que a legislação impede a gestora de publicar sua performance dos últimos sete anos. Segundo ele, a Península sempre alocou capital em muitos fundos externos, e a O3 “teve uma performance melhor, ajustada ao risco, do que todos os outros.”