Os ‘investimentos de impacto’ ainda estão engatinhando no Brasil, onde muita gente sempre associou o termo a “coisa de ONGs” ou a investimentos de early stage. 

Além disso, a maioria dos portavozes fala do assunto apenas do ponto de vista das empresas.

Marina Cançado está olhando a coisa do lado do investidor — e tem legitimidade para isso. 

Uma das herdeiras da rede de farmácias Drogal, ela se dedica há anos a disseminar o conceito de ‘impact investing’ entre famílias ultra-ricas brasileiras. Ela é um de apenas  três brasileiros a fazer parte do ‘The Impact’, a iniciativa de Justin Rockefeller — tataraneto do barão do petróleo — para estimular famílias ricas a migrarem seus portfólios para investimentos de impacto. 

Em 2018, Marina coordenou o ‘Legado Para a Juventude Brasileira’, um programa de formação de herdeiros criado por Fernando Henrique Cardoso, e logo depois ajudou a fundar a ‘Agenda para o Brasil do Futuro’, uma entidade que financia causas ligadas à profissionalização da gestão pública.

“Tem um futuro vindo e ele vai afetar os investimentos, os negócios e todos os temas que importam pra nós,” Marina disse ao Brazil Journal. “A questão é: como eu lido com esse movimento e como consigo influenciar e contribuir para que o cenário que eu acho melhor aconteça?”

Esta semana, Marina organizará o Converge Capital Conference, um evento no Rio que reunirá nomes como Gerd Leonhard, um dos futuristas mais renomados do mundo; Grégoire Haenni, diretor de Investimentos do Fundo de Pensão de Genebra e co-fundador do Grupo de Investidores Institucionais para Mudanças Climáticas; além de gestores comprometidos com o tema, como Florian Bartunek, da Constellation, Fabio Alperowitch, da FAMA, e Marcio Correa, da JGP. 

Marina Cançado fala a mesma língua que Marina Feffer, uma das herdeiras da família fundadora da Suzano, que criou recentemente o “Generation Pledge”. O movimento reúne 44 herdeiros de famílias ricas (28 brasileiros e o restante dividido em nove países) que se comprometeram a doar pelo menos 10% da herança nos cinco anos subsequentes ao recebimento. 

“A Marina [Cançado] tem uma jornada profissional com iniciativas de ponta, por exemplo ligadas ao Bolsa Família, e também já fez esse sobrevoo pra entender os mecanismos do mercado financeiro e de como o capital se organiza,” diz Feffer. “Por isso ela consegue fazer muito bem essa ponte entre o futuro e o que precisa acontecer hoje pra gente conseguir chegar lá.”

A estatística mostra que os investimento de impacto são ‘good business’. Nove dos maiores fundos mútuos de ESG (‘environmental, social and governance’) dos Estados Unidos performaram acima do S&P 500 no ano passado; sete deles bateram o benchmark nos últimos cinco anos. 

Nesta conversa com o Brazil Journal, Marina fala de sua interlocução com as famílias e do processo de construção dessa nova mentalidade. 

(A entrevista talvez seja um pouco longa, mas lembre-se, leitor, que na semana passada a Antártica registrou a maior temperatura da história: 18,3 graus Celsius.  Pense nisso: estava mais quente na Antártica do que em Los Angeles. Não dá mais para adiar essa conversa.)

Qual o cenário dos investimentos de impacto no Brasil? Ainda estamos muito atrasados em relação ao resto do mundo?

Muito, tanto na formação de profissionais quanto no entendimento dos conceitos. Mesmo as gestoras de ações que já trabalham com ESG ainda estão engatinhando em entender como isso vai entrar dentro do mecanismo de análise delas. É tudo muito embrionário, coisa de um ano e pouco. Mas embora seja embrionário já conheci muitos casos de empresas que começaram a mudar algumas coisas por conta da pressão desses investidores. Alpargatas mudou a forma de descarte das Havaianas, M. Dias Branco repensou a cadeia inteira de ovos e outros alimentos. É recente, mas já está dando resultado. 

Quais as principais barreiras?

Uma das coisas que mais dificultou o avanço do investimento de impacto no Brasil foi o discurso de que isso é uma coisa do terceiro setor. Virou uma indústria de impacto minúscula, onde eu invisto em early stage e se eu perder tudo bem. Outro argumento é que o mercado brasileiro tem poucas empresas listadas pra conseguir fazer esse tipo de seleção. Não é o que os fundos ESG tem mostrado. Eles têm tido resultados melhores que os fundos tradicionais. E em todos os países em que essa discussão foi para frente ela foi encabeçada pelos players do mercado. 

O que uma família rica precisa fazer para começar a pensar em impacto?

Não tem como pensar em impacto sem olhar para o que pode acontecer nos próximos anos. Sem pensar no futuro. Tem um futuro vindo e ele vai afetar os investimentos e os negócios. A questão é: como eu lido com esse movimento e consigo influenciar e contribuir para o futuro que eu desejo? A partir dessa reflexão surgem muitas outras. Quanto eu preciso de retorno? Qual o estilo de vida que eu quero ter e que seja coerente com esse futuro que eu quero fomentar? 

Muitas vezes a pressão nos gestores para um determinado patamar de retorno é porque você tem famílias cada vez maiores querendo viver padrões de vida cada vez mais elevados num mundo de juros baixos. Essa conta não fecha. Então essa reflexão de como eu quero me posicionar em relação ao futuro é muito mais ampla e complexa. 

O seu trabalho é quase de educar?

É um trabalho de educar, mas mais do que isso. É de fazer a pessoa entender que o dinheiro no fim das contas é um instrumento para a construção de uma determinada realidade. Mas qual realidade eu quero construir? Qual o tipo de negócio que eu quero ter para esse mundo que eu quero viver? Começa com uma reflexão mais filosófica de como quero viver e como meu capital vai servir de ferramenta para construir esse mundo. Porque no final das contas o capital é uma ferramenta de construção desta visão. E isso no final desemboca na política de investimento que a família vai pactuar, respondendo questões como: vamos correr o risco de ter um retorno menor em algum momento para ter um impacto positivo maior? Ou estamos dispostos a nessa classe de ativos testar coisas diferentes, e nessa outra ter mais segurança?

Essa política de investimentos vai se traduzir numa estratégia de transição de portfólio — que é fazer uma análise de cada classe de ativos e ver onde tem oportunidade para um dado nível de risco e retorno com mais impacto socioambiental. 

Eu acho que isso tem que começar pelas famílias com patrimônios de muitos milhões ou bilhões porque elas têm capacidade de mover o mercado e ancorar produtos novos. Depois tem que distribuir pra todo mundo, virar uma XP da vida. Mas tem que começar pelo topo. 

O que está acontecendo de substancial no mundo em termos de investimentos de impacto?

A grande mudança de atitude que eu vi é o impacto e sustentabilidade começarem a ser considerados como transversais no portfólio. Não algo à margem, não uma classe de ativos à parte, mas como dimensões que vão ajudar a precificar um ativo da forma adequada; a mensurar os riscos cada vez mais sistemáticos de um ativo e de um investimento; e a estar mais alinhado com as curvas de retorno e tendências de longo prazo. 

No Brasil, firmou-se a ideia de que investimento com impacto social e ambiental é em startups, empresas early stage e negócios sociais. Mas as coisas mudaram. Em toda classe de ativo — ao investir num fundo de ação, num título, em real estate, alternativos variados — eu posso encontrar uma alternativa de investimento que tenha na equação não só retorno para um determinado nível de risco, mas também um determinado impacto. 

Dadas as urgências dos pontos de inflexão da próxima década, onde a gente investe o dinheiro tem um peso muito grande em determinar os cenários dos próximos anos. 

Quais são esses pontos de inflexão?

Grande parte dos pontos de inflexão estão relacionados às questões climáticas. Não é do dia pra noite que a gente vai fazer a transição para uma economia de baixo carbono ou livre de carbono. Vamos precisar repensar vários elementos que, por exemplo, são usados para fazer um celular. A indústria inteira de mineração terá que se reinventar. As decisões que temos que tomar para garantir um futuro sustentável levam tempo, é uma transição. Não podemos demorar mais ainda pra começar. E isso começa entendendo o que cada indústria precisa fazer para estar num modelo de mais baixo carbono, ou tendendo a ser carbono neutro. 

Do outro lado temos uma nova geração de desigualdades nascendo, que fazem com que o IDH não seja a métrica mais adequada. Hoje não basta dar apenas as condições básicas de vida para as pessoas. Existe uma desigualdade de capacidade de trabalhar no mundo digital que gera um gap ainda mais profundo, e isso traz uma série de consequências para a vida em sociedade, violência, bem estar e desenvolvimento humano.

Um terceiro ponto é que o Brasil não tem possibilidade econômica sustentável em termos financeiros e de competitividade se não souber trabalhar de forma sistemática e sustentável a Amazônia e os ativos naturais. Se pensarmos, a nova geração de desigualdades, questões climáticas e essa transição para uma nova economia de baixo carbono, e a competitividade e a vocação do Brasil no século 21, acho que são três elementos macros de inflexão e que precisam ser super trabalhados. 

Como fazer uma análise de futuros e cenários?

O primeiro pressuposto é que não há um futuro, existem futuros. E o que eu vejo muito, principalmente nessa área de venture capital, private equity e fundos de ações, é que se compra um futuro. “O futuro vai ser vegano”. “O futuro vai ser a inteligência artificial”. Pode ser que seja, mas tem outras possibilidades. E se você não entende o que é de fato um megashift, o que é talvez uma moda, o que pode talvez ser um wild card (uma coisa que surge do nada e muda tudo), você fica com uma visão muito limitada. 

Isso é um desafio para nós como humanidade. Não treinamos o músculo para pensar futuro. Inclusive o espaço no cérebro para pensar futuro e passado fica no mesmo lugar. Temos um exercício de conseguir imaginar o que poderia ser daqui a alguns anos. E acabamos nas análises refletindo muito as limitações da nossa mente, mas que não necessariamente são as limitações da realidade. 

Precisamos imaginar o futuro não para uma indústria ou um setor, mas um cenário mais sistêmico. Porque uma coisa afeta a outra. O que eu quero fazer é trazer isso de uma forma que possa ser utilizada para os investimentos. Nossa capacidade de visualizar possibilidades de futuro afeta diretamente as nossas decisões de investimentos.

ARQUIVO BJ

 

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