Em fevereiro de 2021, em seus primeiros dias de liberdade depois de cumprir a sentença mínima de quatro anos por crimes financeiros, Anna Sorokin mudou o nome com que se apresenta no Instagram.

Antes de ser presa em 2017, sua conta trazia o nome de Anna Delvey. Era assim que ela se apresentava na alta sociedade de Nova York quando fingia ser uma jovem empreendedora alemã, herdeira de uma fortuna milionária em busca de investidores para montar um centro de artes imodestamente chamado Fundação Anna Delvey.

No Instagram, porém, ela não ousou assumir seu sobrenome russo, Sorokin. A conta agora pertence a “Anna Delvey2.0”.

Anna não renunciou, portanto, à identidade falsa com que aplicava seus golpes, apenas a reinventou. Sai de cena a ricaça alemã, entra a celebridade midiática. 

Anna tinha até planos para um reality show, por ora adiados: seis semanas depois de libertada, ela voltou a ser presa, dessa vez pelos serviços de imigração, pois seu visto de permanência nos Estados Unidos havia expirado.

Em entrevista recente ao The New York Times (ainda atrás das grades), Anna disse que contratou um advogado para lutar contra o processo de extradição que pode mandá-la de volta à Alemanha, país onde tem cidadania.

A versão 1.0 de Anna Delvey é a heroína de Inventando Anna (Inventing Anna), a minissérie da Netflix que esteve entre os programas mais populares da plataforma no mês de fevereiro. 

Sua história não é menos que sensacional: nascida na Rússia, em 1991, Anna Sorokin tinha 16 anos quando sua família emigrou para a Alemanha, onde o pai montou uma pequena empresa de refrigeração. Em 2012, ela foi para Paris, onde fez um estágio na revista Purple, especializada em moda e arte, áreas de seu interesse.

No ano seguinte, Anna Delvey desembarcava em Nova York com seu visionário (leia-se: inviável) projeto de um centro de artes com espaços exclusivos para os muito, muito ricos. Para assegurar o aluguel do prédio de seus sonhos, na Park Avenue, ela buscou financiamento em instituições como o Citigroup e o Fortress Investment Group.

Como credencial para um negócio que exigiria, por baixo, US$ 50 milhões, ela apresentava seu fundo fiduciário de € 60 milhões na Suíça. Tratava-se, claro, de uma ficção. 

Mesmo assim, com essa garantia fajuta, Anna conseguiu levantar em torno de US$ 200.000 nos bancos.

Ao lado dessas fraudes de larga escala, a vigarista ainda pendurava contas de dezenas de milhares de dólares nos hotéis que a hospedavam. No capítulo mais tenso da minissérie, Anna leva amigas para uma temporada no exclusivo hotel La Mamounia, no Marrocos, mas acaba deixando a conta de US$ 62.000 para Rachel Williams, uma editora de fotografia da Vanity Fair.
 
Inventando Anna baseia-se, com algumas liberdades dramáticas, na reportagem sobre a falsa herdeira que a jornalista Jessica Pressler publicou na New York em 2018. A narrativa da minissérie segue a investigação jornalística conduzida por uma versão ficcional de Pressler: Vivian Kent (Anna Chlumsky), da revista Manhattan. 

Os dramas pessoais da repórter são a parte menos interessante da série, que só pega fogo quando Julia Garner entra em cena carregando o sotaque germânico e os óculos Celine de Anna Delvey (ou Sorokin). A personalidade megalômana e instável da personagem foi muito bem capturada pela atriz.

Inventando Anna é uma criação de Shonda Rhimes, a poderosa produtora da TV americana e uma rainha do exagero dramático: em seus novelões mais típicos, como Grey’s Anatomy e How to Get Away with Murder, a virada mirabolante de enredo ganha precedência sobre a coerência do roteiro. 

Repleta de elementos na aparência inverossímeis – como tanta gente rica e esperta pôde acreditar em uma jovem de vinte e poucos anos que se dizia herdeira de uma fortuna jamais documentada? –, a história de Anna casou-se bem ao espírito das produções de Shonda. 

A minissérie é um folhetim irresistível, mas muito condescendente com sua protagonista. Deixa a impressão de que Anna Sorokin foi afinal uma boa companhia (e até um bom exemplo) para amigas pobretonas como Deff (Alexis Floyd), a concierge de hotel que aspira a uma carreira no cinema. Também sugere que, ao entrar de penetra no mundo predominantemente masculino das altas finanças, Anna tornou-se um misto de vingadora feminista e justiceira social. 

Tudo isso é bem duvidoso, mas serve para reinventar Anna Delvey em sua versão 2.0.