Fui diagnosticada com câncer de mama em 2009, aos 34 anos. Isso surpreendeu os médicos à época, por eu ainda ser considerada jovem, mas não a mim. 

Venho de uma família em que três mulheres com menos de 40 anos foram acometidas pela doença. Duas com histórias felizes, e uma não. Eu sabia que tinha forte probabilidade de ser pega de surpresa a qualquer momento.

Quando soube que estava doente, pensei que fosse morrer, pelo fato de ter tido o mesmo tipo de câncer de mama que a minha prima que faleceu anos antes. O chamado HER2 positivo atinge 25% das mulheres diagnosticadas com a doença e é um tumor agressivo com evolução rápida e multiplicadora. 

Rodeada de uma família de médicos, do amor do meu marido, dos amigos e sobretudo do meu filho Elias (4 anos à época), dei início ao tratamento de combate ao tumor maligno. Fui operada de urgência quando passava férias no Brasil. [Moro na Europa desde 2002].

Quando acordei na mesa de cirurgia, recebi a notícia de que o meu seio direito teve que ser totalmente retirado. “Um seio com três nódulos situados em diferentes partes e que estavam se comunicando entre eles, não tinha sentido ser preservado”, me disse o mastologista.

Acordei sem seio e não tive coragem de olhar para o buraco criado na pele.

Um susto – porém, ao mesmo tempo, um alívio. “Tinha me livrado da doença,” dizia a mim mesma, tentando me convencer de que o pior já havia passado. A cirurgia, como dizem os médicos, é curativa.

Mas algo me atormentava mais do que tudo. Como falar desta doença grave, da ausência daquele seio, dos medos, do rumo descontrolado que a vida estava tomando, para o meu filho?

Ele já sabia que a mãe dele estava com o peito doente, que tinha ido ao hospital e que estava triste.

“Mas como desmistificar a possibilidade da morte para uma criança? Como falar sobre isso?” me perguntava.

De volta em casa, Elias me abraçou e foi brincar.

Fui ao banheiro e tirei a faixa que envolvia o meu tórax, quando, de supetão, Elias entra ali e lança a pergunta: “Cadê o seu peito, mamãe?”

Arregalou os olhos, colocou a mãozinha em cima da minha pele onde tinha um buraco e perguntou se estava doendo. 

Fiquei desconcertada. Mas contei a verdade.

Ficamos ali, ele e eu.

Chorei ao mesmo tempo que explicava que o câncer que morava no peito da mamãe era muito malvado, por isso o médico achou melhor agir assim. “Mas seu peito vai voltar um dia?” indagou o menininho de quatro anos.

Respondi que sim, que não iria voltar da mesma forma como era antes, mas iria voltar.

“Mas, como?” perguntou o guri. “O médico vai colocar uma bóia de piscina dentro da tua pele e vai assoprar até ficar grande?”

Eu ri. Ele me fazia tão bem com suas perguntas infantis e perspicazes.

No entanto, ele teria que ser paciente. “Para a mamãe se recuperar, tem que comer bastantes frutas, legumes e descansar para ficar boa,” avisei. 

O tratamento de combate contra o tumor aconteceu em Bruxelas, onde eu morava. Foram inúmeras sessões de quimioterapia, tratamentos adjuvantes, fisioterapia e reconstrução mamária.

Fui felizmente acompanhada e apoiada por um psicoterapeuta. Foi ele quem me aconselhou a escrever para externalizar o meu sofrimento.

Todos os dias tinha um ritual. Era como um exercício passado por um professor da época em que eu ia para a escola. Transferi para o papel todas as fases que estava enfrentando. Do diagnóstico à queda do cabelo, até o primeiro banho de mar com o seio reconstruído.

Ao mesmo tempo, fui situando Elias e o inserindo dentro deste contexto particular. E foi a melhor coisa que fiz. Quando meu cabelo caiu totalmente, Elias queria saber por quê. Expliquei que os remédios que eu tomava eram fortes, por isso, a cabeça ficou sem cabelos. Mas era para o bem da mamãe. Ele dizia que queria também raspar a cabeça pra ficar igual a mamãe. Na escola, a professora e os amiguinhos do Elias o receberam com abraços todas as manhãs. Estavam todos unidos e sabiam da fase difícil pela qual ele também passava. Foi um período de muita comoção e união que o ajudou muito a entender a doença – e que a vida é feita de momentos felizes e tristes.

Nesta época, falei sobre meu câncer com a minha amiga Thalita Rebouças, escritora infanto-juvenil, e ela me aconselhou de imediato a transformar o assunto em livro. 

“Essa tua história pode ajudar muitas mulheres que passam pelo mesmo problema. É questão de serviço público,” disse.

Cadê seu peito, mamãe? aborda de forma delicada a mastectomia, a ausência de um seio para uma mãe e um filho que foi amamentado. É um livro para a família, não é um bê-a-bá sobre o câncer: é uma literatura quase poética sobre uma mãe doente e um filho preocupado. 

E as mães adoram isso porque entendem que, na verdade, mentir, inventar, não é o melhor caminho. E que o diálogo franco pode ajudar na cura, ou ajudar a passar por momentos difíceis de maneira mais leve.

Elias entendeu tão bem a doença que chegou a dar conselhos aos amiguinhos que enfrentavam o mesmo problema. Um dia, num ônibus da escola, ele sentou-se ao lado de um menino cuja mãe usava turbantes para esconder a cabeça pelada.

O menino comentou com Elias que ele estava triste porque os os amiguinhos riam da mãe dele que usava lenços esquisitos no cabelo. “Sua mãe está com câncer?” indagou Elias. O menino respondeu, “como é que você sabe?” 

“Minha mãe passou pelo mesmo problema. Não fica triste não. Ela vai ficar bem,” aconselhou, do alto de sua infância.  

Anos mais tarde, em uma feira de livros na Bélgica, Elias me substituiu por alguns minutos em um stand. Uma senhora interessada em livros sobre câncer perguntou do que tratava o livro. Elias falou que era baseado na história dele e de sua mãe, e que falar a verdade para uma criança, seja ela qual for, é o melhor remédio. (Elias vendeu cinco livros.)

Os laços entre mãe e filho foram ainda mais estreitados graças aos momentos difíceis que passamos juntos. Ele tem confiança em mim, se abre comigo, e isso é genial.

“Cadê seu peito, mamãe?” foi traduzido para o francês e inglês, e distribuído a associações dos 27 países da União Europeia pelo coletivo European Cancer Patient Coalition (ECPC) com 450 membros. O livro também foi distribuído a pacientes do Institut Curie, em Paris. No Brasil, a obra está à venda nas livrarias físicas e online, ou diretamente no site da editora Zit.

Ivna Chedier Maluly é jornalista e escritora infantil. É autora de cinco livros: “Memórias de Pedro, o último imperador do Brasil” (Editora Rebuliço), “Cadê seu peito, mamãe?”, “Gabriel e a fraldinha, Maria Luiza e a banheirinha”, todos pela Zit Editora, e “O Samba faz 100 anos”, uma edição independente. Hoje trabalha em Lyon como educadora midiática de crianças e adultos.