PORTO ALEGRE – O acaso sempre foi generoso com Luis Fernando Verissimo.
Ele o levou aos Estados Unidos (onde viu Charlie Parker e Dizzy Gillespie em ação), colocou Lúcia em sua vida (quando ele já pensava em desistir da curta e fracassada temporada no Rio de Janeiro) e o trouxe de volta a Porto Alegre para morar na casa dos pais, que também acabou servindo de lar para seus filhos e netos.
O mesmo acaso o levou para o jornalismo e – não satisfeito – fez com que o cronista titular trocasse de jornal e Luis Fernando Verissimo assumisse a vaga. O acaso só não o transformou no maior cronista brasileiro. Isso foi resultado de trabalho, talento, inteligência, cultura e genialidade. Tudo o que ele tinha de sobra.
“Comecei a trabalhar na Zero Hora no início de 1967. Fazia literalmente de tudo. Até horóscopo e a seção Programinha, sobre os bares. Às vezes inventava um bar,” contou em 2019 ao lembrar seu primeiro – e tardio, já tinha mais de 30 anos – contato com a imprensa diária.
Pelas próximas cinco décadas, Verissimo se consolidaria como o maior cronista brasileiro – o que não é pouco num país que já teve Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Rubem Braga, José Carlos Oliveira, Paulo Mendes Campos, Antonio Callado e Antônio Maria – este último, segundo o próprio Verissimo, sua maior influência.
Brasileiro na escolha dos temas e dos personagens, Verissimo era um norte-americano na escrita, herdeiro de uma tradição que incluía S.J. Perelman, Robert Benchley, Art Buchwald e até um pouco do contemporâneo Woody Allen.
Falava pouco e explicava que seu silêncio era por falta de oportunidade – “Não sou quieto, sou é muito interrompido” – mas desconfio que seu mutismo fosse parte por opção, parte por falta de tempo: ele desenhava, tocava sax, lia muito, via filmes, ouvia discos e escrevia mais ainda, produzindo não apenas para os jornais, mas também para anúncios publicitários, programas televisivos e roteiros de cinema.
Assim, o que Verissimo queria dizer estava tudo ali, em suas crônicas, muitas vezes de maneira confessional, como quando falava dos pais, da mulher, dos filhos, dos netos, dos amigos, da política, do Brasil e das paixões pelo jazz, pelo Internacional e pelos pudins de laranja.
“Que ironia, não é, Márcio?” Lúcia comentou comigo em uma das últimas visitas que fiz à família, em maio do ano passado. “O Luis Fernando, que tão bem fez uso das palavras, hoje vive num mundo quase de silêncio.”
O triste e conformado lamento mostrava como vinha sendo o cotidiano dos Verissimo desde quando Luis Fernando sofreu um AVC isquêmico em meados de janeiro de 2021, agravado em seguida pelo mal de Parkinson e, nos últimos dias, por uma pneumonia, que o levou no dia 11 para um hospital, onde morreu na madrugada de sábado aos 88 anos.
Em seu obituário, a revista Piauí disse que Verissimo foi “uma das maiores e mais duradouras unanimidades” do País, no tempo em que elas ainda existiam.
Verissimo “atravessou uma ditadura, dois impeachments e o fanatismo futebolístico gaúcho sem nunca esconder de que lado estava. Era lido por metalúrgicos, sociólogos (mesmo os contrariados) e até por gremistas,” disse a revista.
Sua marca eram frases cômicas e ao mesmo tempo profundas que faziam o leitor refletir.
“Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.”
“A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra.”
“O futuro era muito melhor antigamente.”
“O mundo não é ruim, só está mal frequentado.”
Nos últimos meses, ainda mais recolhido do que o normal – tanto pela pandemia quanto pela enchente que atingiu Porto Alegre – Verissimo não saía de casa: passava a maior parte do tempo numa poltrona vendo TV, acompanhando o noticiário e assistindo jogos.
A casa – adquirida por seu pai, o escritor Erico Verissimo, há quase oito décadas e desde então o lar de três gerações da família – é a maior casa pequena do mundo. Vista de fora, numa rua central do Bairro Petrópolis, parece uma casa normal, com a varanda e as aberturas num estilo espanhol. Por dentro, cresce e se amplia, ganhando novas peças para os lados, para os fundos e até para baixo.
Uma das salas era ocupada pela imensa biblioteca, herdada do pai e ampliada por ele, e passou a ser visitada com menor frequência.
Ultimamente, Luis Fernando gostava de folhear livros com fotos e desenhos, embora recentemente estivesse com o Ulysses, de James Joyce, nas mãos. “Só falta ele, nessa etapa da vida, ler esse livro. E ainda por cima nos explicar,” espantava-se Lucia.
Por tantos anos, explicar o Brasil, o mundo e tudo que estava ao seu redor pela perspectiva de um observador atento foi o que Verissimo fez de melhor.
Desde sua estreia em livro com O Popular (1973), ele se comportou como o personagem da crônica que dá nome à obra: um tipo urbano, sem domicílio certo e cujo habitat natural era a margem dos acontecimentos. Seu maior talento era o de ver os maiores absurdos e traduzi-los de maneira natural e com imensa objetividade
Verissimo criou personagens que fizeram o leitor não apenas rir mas também se reconhecer nas figuras e nos temas – fosse o charme tosco e agressivo de alguém que precisava desempenhar uma atividade em que a sensibilidade é essencial, como o Analista de Bagé, ou o cinismo fracassado de Ed Mort, o deslumbramento da ravissante Dorinha, ou a ingenuidade comovente da Velhinha de Taubaté, a última pessoa no Brasil a acreditar no general Figueiredo, o derradeiro ditador.
Em uma crônica, Verissimo escreveu que “um dos prazeres de continuar vivo é que você nunca está longe de encontrar um novo prazer. Ou descobrir um novo prazer que, por alguma razão, lhe tenha escapado”.
“Depois de um certo tempo de vida, você pode concluir que já experimentou tudo o que havia para experimentar no mundo, dentro dos limites da higiene e do código penal.”
A longevidade garantiu a ele homenagens em vida. Como o pai, nunca demonstrou o menor interesse em pertencer à Academia Brasileira de Letras. Sabia que a imortalidade já lhe estava reservada de outra forma.
Nos últimos tempos, mesmo antes do AVC, Verissimo diminuiu as entrevistas que costumava conceder com grande frequência. Das poucas que se permitiu, optou por responder as perguntas por escrito, enviando e-mail aos repórteres. Sinto-me lisonjeado por ter tido este privilégio, o de trocar ideias com ele.
Em uma das últimas entrevistas que fiz com ele, no final de 2019, ele lamentou: “Meus amigos estão morrendo e eu estou cada vez com menos interlocutores”.
A queixa veio acompanhada de uma reflexão: “Penso muito na morte,” admitiu, para em seguida brincar. “Mas já nem leio mais os obituários com medo de encontrar meu nome.” Foi então que emendei a última pergunta: Mas o que pensa da morte? “Talvez em ser poupado.” Infelizmente, não foi.