Pouco antes de Waldemar de Farias fazer uma apresentação na Rádio Nacional (Rio de Janeiro), na década de 1940, o locutor Afrânio Rodrigues implicou com o nome do candidato a astro do canto. “Parece caixeiro viajante, não fica legal”, ralhou.

Rodrigues resolveu então criar um nome artístico para o rapaz – rebatizado, ali mesmo, como Roberto Luna, a revelação do momento.

E foi com esta alcunha que o cantor, que morreu semana passada aos 92 anos, deixou sua marca como uma das vozes mais marcantes da boemia paulistana, o último de uma linhagem de intérpretes de emoções à flor da pele cujos maiores nomes foram Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto.

Embora fosse conhecido por um repertório de sambas-canções e boleros – e pelas apresentações em casas noturnas quando estas fervilhavam num mundo pré-netflix – o cantor protagonizou diversos momentos importantes da música popular brasileira.

Luna foi intérprete de composições de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Dolores Duran.  Gente como Jacob do Bandolim e César de Farias (pai de Paulinho da Viola) estiveram entre os músicos de sua banda de apoio, e Luna participou até de um clássico do cinema brasileiro – O Bandido da Luz Vermelha, a produção de 1968 do cineasta Rogério Sganzerla. “Fiz o papel de um pseudo Lucho Gatica,” disse ele, numa das suas últimas aparições na televisão.

Luna emprestou seu vozeirão estoura-peito a canções derramadas, muitas delas sob medida para serem ouvidas no fim da noite, com um balde de whisky como companhia e sem a presença de facas no jogo de talheres – para que o cliente mal amado não cortasse os pulsos.

“Se eu soubesse/ Naquele dia o que sei agora/ Eu não seria esse ser que chora/ Eu não teria perdido você”, desabafa em Castigo, de Dolores Duran, que gravou em 1958.

Criatura da noite, Luna foi amigo de Madame Satã – o transformista que perambulou pela Lapa no auge da boemia carioca – e roubou uma moça cubana das mãos de Nelson Gonçalves. “Ele foi fazer uma excursão pelo Nordeste e a deixou sob os meus cuidados,” despistou.

Roberto Luna nasceu em Serraria, na Paraíba, em 1º de dezembro de 1929, mas pouco depois sua família se mudou para Campina Grande. Em 2 de janeiro de 1945, eles desembarcaram no porto do Rio de Janeiro vindos de Recife (na mesma viagem veio Severino Araújo e a Orquestra Tabajara, mas Luna não teve contato com os músicos).

Luna trabalhou como vendedor de aparelho de rádio e auxiliar de escritório ao mesmo tempo em que atuava como cantor de serenatas em Nova Iguaçu, onde a família foi morar. Foi naquela cidade que conheceu o compositor Assis Valente, que o apresentou ao mundo do teatro de revista. Inicialmente, Luna tinha como função datilografar o texto dos espetáculos, mas em pouco tempo passou para a atuação e o canto – estudou com o diretor polonês de teatro Ziembinski e atuou em chanchadas da Atlântida.

Naquele período, atuava como cantor da noite, até que em 1952 emplacou em disco o bolero Por Quanto Tempo, de Marino Pinto e Don Al Bibi. Três anos depois, outro sucesso: o samba-canção Molambo, de Jaime Florence e Augusto Meira.

O cantor mudou-se para São Paulo nos anos 1950, onde continuou gravando discos e se apresentando em programas de rádio e casas noturnas. Estas se tornaram seu habitat definitivo até que o estilo derramado de interpretação deu lugar a um canto mais contido. Saiu de cena na década de 70, mas retornou aos holofotes brevemente nos anos 90, quando seus discos foram relançados em CD.

Roberto Luna ganhou muito dinheiro – e fez questão de gastar como bem entendeu. “Nunca liguei muito para isso, nem quanto eu ganhei. Faria tudo outra vez.” Nos últimos anos, morava no Palacete dos Artistas, uma espécie de retiro de veteranos do showbiz.

Como nos versos épicos de Cauby, Roberto Luna “cantooou, cantooou” e “todo cabaré o aplaudiu de pé quando chegou ao fim.” Agora, garçom, por favor uma saideira em homenagem ao mestre Luna e seu melhor bolero na vitrola.