A Hypera pegou o mercado de surpresa ao anunciar um aumento de capital privado de até R$ 1,5 bilhão para reduzir seu endividamento e reforçar sua estrutura de capital. 

Segundo a companhia, a operação vai ampliar sua capacidade de investimento em “oportunidades de crescimento orgânico e inorgânico,” além de “melhorar a eficiência operacional e financeira”.

A companhia vai emitir até 70,588 milhões de novas ações a R$ 21,25 – um desconto de 10,7% sobre o preço médio ponderado por volume dos últimos 30 pregões e de 17% sobre o fechamento do papel ontem, antes do anúncio.

Com o desconto, a empresa deseja “incentivar a subscrição das novas ações,” disse uma fonte próxima à companhia. 

O bloco de controle – que reúne 53% do capital e é formado pelo fundador João Alves de Queiroz Filho, o “Júnior”, com 27,3%; pela holding mexicana Maiorem (14,7%) e pelo Grupo Votorantim (11%) – se comprometeu a exercer seu direito de preferência e a participar de um eventual rateio de sobras.

João Alves de Queiroz Filho

Ao mesmo tempo, a Votorantim disse que pode colocar até R$ 1 bilhão na operação, aumentando sua participação na empresa.

Para que a Votorantim alcance todo esse valor, os demais acionistas do bloco de controle teriam que abrir mão de parte de seu direito de preferência – com 42% da empresa, Júnior e Maiorem precisam colocar, juntos, R$ 630 milhões para não serem diluídos. 

No final da transação, a ideia é que a Votorantim cresça no capital e fique com uma participação mais próxima à do Júnior, uma fonte próxima à Votorantim disse ao Brazil Journal.

“O anúncio foi uma surpresa, mas os controladores deram um firme para a fatia deles e a parte que vai para o mercado não é tão relevante,” disse um gestor que acompanha o papel. “Mas pode pesar um pouco para a ação.”

A operação representa um aumento de cerca de 11% da base acionária da companhia. 

O anúncio (e o próprio timing) do aumento de capital deve alimentar a especulação de que a Hypera está interessada na Medley – mas este não parece ser o caso. Fontes próximas àquele processo, que está sendo conduzido pelo Lazard, dizem que hoje EMS e Aché são as favoritas para levar o ativo. As ofertas vinculantes serão submetidas em meados de março.

Uma fonte com acesso a Júnior disse que a empresa está simplesmente buscando mais flexibilidade. “A Hypera não tem uma alavancagem absurda, mas ela segurava um pouco novos investimentos. A companhia convive com esse ciclo de Selic alta, que está durando mais que o esperado, e entendeu que precisava de mais flexibilidade para atravessar o ano eleitoral e seus impactos na macroeconomia.” 

A Hypera fechou o terceiro tri com endividamento líquido de R$ 7,3 bilhões, ou 2,4x o EBITDA anualizado do trimestre.

A empresa fez um grande ajuste em seu capital de giro nos últimos anos: vendeu menos, de forma proposital, para reduzir os estoques dos clientes e, com isso, reportou um EBITDA menor. No terceiro tri, a geração de caixa foi de R$ 660 milhões. 

O resultado do quarto tri vai ser reportado em 12 de março. 

Para os analistas do Citi, o desconto oferecido e a baixa visibilidade da destinação dos recursos “poderá gerar alguma volatilidade nas ações”, o que pode ser parcialmente amortecido pelo direito de preferência e a expectativa de que a empresa encontre “oportunidades inorgânicas”. O Citi estima diluição entre 8% e 10% para o acionista que não aderir à operação. 

O acordo de acionistas da Hypera foi assinado em julho do ano passado para blindar a empresa de ofertas hostis, e tem duração de 10 anos. Em outubro de 2024, a Hypera rejeitou uma oferta não solicitada da EMS, de Carlos Sanchez.