Quando vendeu sua empresa de cannabis medicinal para uma gigante canadense listada em Toronto, Marco Algorta colocou alguns milhões de dólares no bolso — mas continuou obcecado pela medicina alternativa.

No ano passado, em meio à pandemia, decidiu empreender de novo — mas trocou a maconha por outras substâncias. 

Seu novo negócio é a Bienstar, uma clínica de saúde mental especializada nos chamados tratamentos psicodélicos.

Nesta abordagem, os psiquiatras usam substâncias como MDMA (mais conhecido como ecstasy), o LSD, quetamina, ibogaína e psilocibina (o nome científico dos cogumelos alucinógenos) para tratar distúrbios como depressão, ansiedade e dependência química. 

Agora, a Bienstar acaba de levantar US$ 1,2 milhão para colocar as três primeiras clínicas de pé — duas delas no Brasil e a terceira na Argentina.

O cheque veio da Novamind, uma empresa listada em Toronto que opera com quatro clínicas psicodélicas no estado americano de Iowa, e do fundo Plaza Ventures, que também investe na Novamind, além de family and friends. 

A Bienstar não será a primeira no Brasil a usar substâncias psicodélicas em tratamentos mentais. 

Grandes clínicas psiquiátricas como a Psiquiatria Paulista já usam a quetamina há anos no tratamento da depressão refratária (a depressão que não responde aos tratamentos clássicos). 

“Mas nenhum deles se reconhece como uma clínica psicodélica, até porque ainda existe muito preconceito,” Marco disse ao Brazil Journal. “Queremos sair do armário e mostrar que somos mesmo psicodélicos.” 

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Com exceção da quetamina e da ibogaína, nenhuma das outras substâncias psicodélicas foi aprovada pelos órgãos regulatórios para o uso medicinal — nem no Brasil, nem em nenhum lugar do mundo — mas o processo avança a passos largos.

A MAPS (acrônimo para Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies), uma empresa de biotech fundada na década de 70, está na Fase 3 de um estudo clínico com o MDMA para usá-lo no tratamento da depressão.

Já a Compass Pathways, outra biotech americana, está fazendo um estudo clínico com o psilocibina, também já na Fase 3. 

A previsão de Marco é que o uso medicinal do MDMA já terá sido aprovado pelo FDA no final deste ano, e que a aprovação para a psilocibina saia em 2023. 

Conforme o FDA aprovar o uso medicinal, Marco acredita que a Anvisa também deve começar a olhar com mais atenção a regulação dos psicodélicos. 

No Brasil, já há um protocolo da Anvisa que permite o uso da quetamina para o tratamento de depressão refratária, e da ibogaína para a dependência. Num primeiro momento, a Bienstar vai focar justamente no tratamento com essas duas substâncias.

[A ibogaína é uma substância retirada de uma planta africana chamada iboga, ainda usada em rituais espirituais na África e América Central.]

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Para abrir suas clínicas, o plano de Marco é adquirir pequenos consultórios de psiquiatras ou de outros profissionais de saúde especializados em ministrar a quetamina — e que hoje fazem o tratamento dentro de hospitais.

“Vamos comprar essas operações e aos poucos tirar esses médicos do âmbito hospitalar e levá-los para dentro de nossas clínicas, o que vai permitir que a gente já capture uma base de clientes,” disse o fundador. “Optamos por esse caminho em vez de já comprar uma clínica porque a maioria das clínicas que existem hoje não tem a infraestrutura adequada para o tratamento psicodélico.”

Segundo ele, as clínicas psicodélicas precisam ter um espaço que transmita “absoluta segurança” ao paciente, com uma estética agradável e que o deixe confortável durante a experiência. 

“Não dá pra ter um carrinho médico passando no corredor.”

Nessa frente, o principal benchmark da Bienstar é a Field Trip Mental Health, uma empresa americana que já vale US$ 400 milhões na Bolsa e cujas clínicas são, segundo Marco, “simplesmente maravilhosas.”