A interlocução política para a construção de um candidato de centro capaz de derrotar Lula e Bolsonaro está interditada, e está na hora de começar a derrubar as barreiras.

O diagnóstico é do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e hoje sócio do Banco BTG Pactual, Nelson Jobim. 

Numa exposição de cerca de 30 minutos para clientes do banco hoje em São Paulo, Jobim disse:  “Temos que desobstruir o diálogo de centro, e isso significa conversar com todo mundo.  A quem interessa que o diálogo não aconteça?  Aos dois candidatos polarizados.”

 
O evento do BTG comemorava os 10 anos do Absoluto, uma família de fundos de R$ 5 bilhões em ações que historicamente performa acima do Ibovespa.  Mas, na plateia repleta de investidores e empresários, a ansiedade com o quadro eleitoral de 2018 era palpável.
 
Falando por último, Jobim não botou panos quentes.
“Estamos dividindo o voto de centro,” disse.  “Lula tem 34%, Bolsonaro tem 19%, e os outros 47% vão se dividindo entre Geraldo Alckmin, Marina Silva, e as possíveis candidaturas de Henrique Meirelles, Joaquim Barbosa, Manuela d’Ávila, Paulo Rabello de Castro, e algum nome do DEM.”

Jobim disse que a candidatura de João Dionísio Amoedo pelo Partido Novo “consolida o partido, mas racha o centro”, e criticou João Dória por sua “tentativa de furar a fila, algo que não se faz em política.”  Jobim notou o esvaziamento rápido de Dória, mas disse que o prefeito “ainda pode ser atraído por algum partido.” 

Para o ex-deputado constituinte, ex-ministro do STF e ex-ministro da Defesa de Lula, a polarização atual e a fragmentação do centro podem levar o Brasil a uma situação análoga à da eleição para prefeito do Rio de Janeiro, na qual Marcelo Freixo e Marcelo Crivella se enfrentaram no segundo turno — e o último venceu.

Jobim deu nome à dificuldade de se construir uma candidatura de centro.

“Há uma variável nova no processo político brasileiro — o ódio,” disse o peemedebista histórico, que participou da transição democrática.  “Na época do Doutor Ulysses [Guimarães], e eu aprendi isso com ele, a gente dizia que ‘em política, até o ódio é combinado’. E era mesmo.  Armava-se a briga, e esse teatro era examinado.  A política é a tentativa de definir o que todos querem e os parâmetros de como vamos chegar lá.  Hoje tem dissenso em tudo — e não tem diálogo nenhum.”

O centro precisa ter seu candidato para ir para o segundo turno, mas não espere definições antes de 2 de abril, o prazo final para as filiações partidárias. A outra data crítica no calendário eleitoral é o prazo que vai de 20 de julho a 5 de agosto, período no qual todos os grandes partidos realizarão suas convenções para escolher seus candidatos. 

Para Jobim, “a mídia está estimulando a obstrução do diálogo. Qualquer tipo de conversa é criticada pela mídia.  Qualquer entendimento político passou a ser demonizado.”  E citou a manchete de um jornal de hoje que dizia que Temer quer “obrigar a base” a votar a reforma da Previdência.  “Uma manchete dessas é feita para impedir o diálogo, porque no momento em que eu digo que alguém está sendo forçado a algo, é mais um motivo para não fazê-lo.”

“Para o PT, é importante a polarização com Bolsonaro. Ele precisa que Bolsonaro cresça, pois todo o voto contra o Bolsonaro vai para ele, e vice versa.”

Sobre Bolsonaro, Jobim disse que “a volta da autoridade é uma absoluta necessidade do País, mas não neste modelo.”

 
Para ele, o grande desafio de 2018 será “quebrar a espinha dorsal” das corporações que dominam o Estado.  “Fala-se muito em defender as conquistas sociais.  Mas ‘conquista social’, do ponto de vista das corporações, é trabalhar menos e ganhar mais,” disse.

Jobim alertou para as consequências de Lula ser impedido de concorrer.  “Não me agrada nada retirar da corrida o candidato que está grande, porque isso pode gerar um problema de legitimidade para o próximo Governo.  Imaginem o discurso de vitimização que será feito!”

Para ele, toda a movimentação recente de Lula sugere que o PT está pronto para a hipótese de Lula não poder concorrer.  Neste caso, Lula apontaria algum outro candidato para um ‘voto de protesto’ por parte de seus eleitores, que diriam: “Voto em A porque não me deixaram votar em B.  Voto neste aqui porque ‘a elite’ impediu Lula de concorrer.”

Jobim disse apostar que os entendimentos em direção a uma candidatura hegemônica de centro vão acontecer eventualmente, “não por lucidez, mas por instinto de sobrevivência.” E parafraseou Nietzsche:  “O pior para a verdade não são as mentiras; o pior para a verdade são as convicções.”
 
Ele disse que as conversas terão que passar pelo PMDB, PSDB e pelo PSD, já que o candidato de centro precisará somar o tempo de televisão e os recursos de cada um. “A conversa com o PMDB não é exclusivamente com as lideranças nacionais… passa pelas lideranças regionais também, porque o PMDB é uma confederação.”
 
Mas Jobim disse que o centro não conseguirá se aglutinar se a sociedade fizer um ‘juizo moralista da interlocução’.  “Se eu falar, ‘não converso com aquele ali porque ele é bandido’, aí a coisa não funciona… A interlocução política é com quem está aí e ponto.”

Jobim sugeriu ainda não estar convencido de que o uso de caixa 2 em campanhas vai acabar — mesmo depois da Lava Jato.  

“Sabemos bem que a necessidade derruba a proibição.  Imaginem só que, 15 dias antes do fim da campanha, o tesoureiro de um candidato diga e ele: ‘acabou o dinheiro, não temos mais recursos.’  Vocês acham que termina a campanha? A tendência será dizer: ‘Vamos dar um jeito e depois a gente resolve.’…”

E, num sinal de que seu vaticínio está fincado na realidade, Jobim disse que um empresário seu amigo foi procurado por um candidato que lhe propôs o seguinte:  o empresário daria um aumento de 30% a seus funcionários, e eles, como pessoas físicas, fariam doações à campanha.

“Eu disse a ele, ‘você está louco?  Não se meta com isso!’  Mas o pior de tudo é que ele parecia achar a proposta interessante.”