E agora, quem comprará o petróleo russo?
 
Se a história serve de guia, não faltarão interessados dispostos a driblar sanções e negociar com o regime de Putin e suas empresas de óleo e gás, como bem narra e exemplifica à exaustão um livro recém-lançado nos Estados Unidos, “The World for Sale: Money, Power and  the Traders Who Barter the Earth’s Resources” (Cornerstone Digital, 411 páginas, ainda não disponível em português), dos jornalistas Javier Blas e Jack Farchy.
 
Blas e Farchy cobrem há duas décadas os setores de commodities e energia. Conhecem pelo avesso as empresas e os principais personagens desses mercados. Atualmente na Bloomberg, trabalharam antes no Financial Times. 
 
No livro, os autores contam como as grandes tradings internacionais de produtos minerais e agrícolas realizaram negócios bilionários e cada vez mais ousados ao longo das últimas décadas, não raro passando por cima de questões éticas e operando nos limites da lei.
 
Uma parte significativa do comércio de commodities é feita por um número relativamente pequeno de empresas, tradings gigantescas em suas áreas de atuação. São companhias controladas por um pequeno grupo de pessoas, em geral seus fundadores e sócios, gente que soube construir influência nos centros de poder.
 
Quase todas de capital fechado, boa parte delas com escritórios em Genebra, operam sem as amarras regulatórias de empresas listadas. 
 
“A maioria das pessoas nem se dá ao trabalho de pensar a respeito da facilidade com a qual enchemos o tanque de nossos carros, compramos aparelhos celulares ou bebemos uma xícara de café”, escrevem os autores. “Mas, por trás de praticamente tudo aquilo que consumimos, existe um comércio frenético de recursos naturais. E por trás desse comércio, trabalhando em seus escritórios em cidades pacatas na Suíça ou na Nova Inglaterra, existem os traders de commodities.”
 
A “mão invisível” de Adam Smith é uma metáfora para as forças que operam o mercado – mas sem a mão visível dos negociantes não haveria comércio. Para que a soja colhida na fazenda em Sorriso, no Mato Grosso, desembarque num porto chinês é necessário que haja um intermediador. As empresas de trading cumprem uma função essencial: arbitrando os preços, contribuem para dar eficiência ao mercado e impedir que haja desequilíbrios entre oferta e demanda.
 
Graças a elas também há maior liquidez nas transações spot – as entregas de mercadorias físicas, não a negociação dos derivativos financeiros dos mercados futuros.
 
Muitos traders, no entanto, não se intimidam diante de embargos ou sanções. Para eles, essas barreiras são na verdade oportunidades de negócios bilionários.
 
Por uma comissão generosa e uma boa margem de lucro, eles se prontificam a arrumar maneiras de circunscrever as restrições comerciais e financiar transações com párias internacionais. Foi assim na África do Sul do apartheid, na Cuba de Fidel Castro e no Iraque de Saddam Hussein. Tem sido assim nas ditaduras africanas, no Irã, na Venezuela e, mais recentemente, na Rússia.
 
O livro foi escrito antes da invasão da Ucrânia, mas há paralelos de sobra com a situação atual. Em 2014, depois da ocupação da Crimeia, os países ocidentais impuseram sanções à Rússia e a empresas, entre elas Rosneft, a maior petroleira do país.
 
As grandes tradings de petróleo, como Glencore, Vitol e Trafigura, blindadas pelas suas estruturas societárias e protegidas com suas sedes em paraísos financeiros, nem se abalaram. 
 
Fizeram filas para fechar negócios com os russos – e a preços melhores. Elas ajudaram a financiar as operações da Rosneft e outras companhias, e assim deram fôlego a Putin.
 
A propósito, a Shell, em sua controversa compra de petróleo russo na semana passada, fechou a compra com a Trafigura. 
 
Fundada há quase três décadas pelo francês Claude Dauphin (morto de câncer em 2015), a trading tem sede em Singapura, mas seu hub de operações é Genebra. 
 
Entre as companhias fechadas, é a maior negociante de minérios do mundo e a segunda maior de petróleo.
  
“A lot of skeletons” é, muito apropriadamente, o título do último capítulo do livro. Os arquivos das tradings armazenam pilhas e pilhas de esqueletos. Apesar das diversas denúncias de corrupção e acusações de evasão fiscal, elas têm sobrevivido e mantêm poder – não sem alguns contratempos.
 
March Rich, que fez carreira como trader da Philipp Brothers até fundar sua própria companhia – a Glencore – chegou a ser chamado de “rei do petróleo” nos anos 1970.
 
Em 1983, precisou renunciar à cidadania americana e fugir dos Estados Unidos para não ser preso, acusado de fraudes. Refugiou-se na Suíça, país que, até recentemente, permitia que os gastos com corrupção fossem deduzidos do Imposto de Renda das empresas como “gastos operacionais.” 
 
Rich perdeu prestígio mas seguiu ativo. Em 2001, recebeu o perdão presidencial de Bill Clinton em seu último dia de mandato, para choque da comunidade internacional. (A ex-mulher de Rich era uma grande doadora do Partido Democrata.)
 
De uns tempos para cá, o cerco regulatório tem se fechado contra a corrupção internacional, particularmente quando os negócios são feitos em dólares, graças às novas leis americanas contra lavagem de dinheiro e financiamento de atividades ilícitas. Um caso exemplar envolve mais uma vez a Trafigura.
 
Desde os anos 1970, o principal fornecedor de crédito para os traders de commodities tem sido o BNP Paribas. Em 2014, o banco se declarou culpado em um processo nos Estados Unidos por ter violado sanções contra Cuba, Sudão e Irã. Aceitou pagar uma multa de US$ 9 bilhões. A Trafigura não foi citada no caso, mas era ela a empresa por trás de alguns dos negócios. O BNP Paribas cortou relações com a trading desde então. 
 
“O episódio marcou o início do fim da era na qual os traders circulavam impunemente ao redor do mundo, fazendo negócios com nações corruptas e governos párias”, dizem Blas e Farchy. 
 
Outro exemplo recente citado no livro é um processo envolvendo a Petrobras. A Vitol, a Trafigura e a Glencore teriam pago US$ 31 milhões em subornos para executivos da estatal brasileira entre 2011 e 2014. 
 
Será o fim dos traders? Sim e não, afirmam os autores. 
 
As empresas terão que lidar com regras mais pesadas. Agora, até a Suíça, onde são feitas 80% das transações de commodities russas, promete impor sanções a Putin e seus compadres. Mas os traders vão se adaptar e continuarão farejando negócios de ocasião. Talvez a maior ameaça para eles, segundo alguns executivos, venha na verdade de seu principal cliente dos últimos anos: a China. 
 
Os chineses estão investindo na formação de suas próprias tradings, como a Cofco, no agronegócio, e poderão desenvolver um sistema financeiro alternativo ao dominado pelo dólar. Querem, cada vez mais, ficar com os lucros para si e assegurar o acesso a commodities minerais e agrícolas. 
 
A fuga de empresas ocidentais da Rússia demonstra que, dessa vez, as sanções parecem ser mais efetivas. Sobretudo porque a Rússia foi ejetada do sistema Swift de transferências bancárias e teve as suas reservas internacionais congeladas.
    
Mas certamente haverá países e traders interessados em lançar uma bóia de salvação para Putin. Num mundo em conflito e faminto por recursos naturais, “crise” mais uma vez será sinônimo de “oportunidade”.