A intervenção americana na Venezuela deu à esquerda brasileira a chance de se manter coerente com a sua incoerência.

Hugo Chávez governou a Venezuela por 14 anos, desde sua eleição em 1998 até sua morte em março de 2013. Nicolás Maduro mandou por outros 13 anos.

Um mesmo grupo político evitou a alternância de poder cometendo fraude eleitoral e violência contra os opositores.

Em todo esse período, o Brasil – a maior parte deste tempo com o PT no poder – passou pano para os ditadores.

Chevron Venezuela

Se a maior potência regional (pelo menos no papel) não tivesse ficado “fazendo média” com o regime e houvesse condenado a fraude eleitoral como fizeram os EUA e a União Europeia, talvez a situação não tivesse chegado a este ponto.

Mas o Brasil se encolheu. Por ideologia, amizade entre os líderes ou otras cositas más, o PT e seus governos continuaram apoiando os ditadores de Caracas. Apoiamos uma imoralidade e ficamos a reboque da História.

Agora, em vez de ficar gerando frases de efeito, a diplomacia brasileira deveria produzir uma análise pragmática sobre como o País se encaixa nesta nova ordem.

Hoje, quando os EUA fizeram a intervenção, muitos disseram que “dois erros não fazem um acerto” – mas por que não nos incomodamos tanto com o erro original?

Maduro se manteve no poder sempre com alguma desculpa, algum pretexto. Sempre em nome da democracia – quando, na verdade, seu governo era uma máquina criminosa.

Mas a esquerda liderada pelo PT relativizava tudo e fabricava suas próprias desculpas. Para a esquerda, “ditador ruim” é ditador de direita; os de esquerda sequer merecem esse nome. (Fidel Castro só não é idolatrado hoje nas universidades brasileiras porque já morreu – mas para muita gente, deixou saudade.)

Como é que gente que lutou contra a ditadura militar no Brasil tem estômago para defender a ditadura de um fascista? Como é que gente que temia uma ditadura de Bolsonaro pode passar pano para um Maduro?

Há, sim, a discussão legítima sobre a real motivação dos EUA, a violação de leis internacionais, e o fato de que o presidente eleito Edmundo González deveria ser empossado imediatamente – em vez de um interventor americano. Mas aqui, mais uma vez, convém escolher o realismo em vez da hipocrisia. 

Maravilhosa enquanto conceito, o fato é que a chamada “soberania nacional” não existe de fato. Só é soberano de fato quem tem o poderio militar – como prova o fato de que Maduro foi retirado de seu quarto, dentro de uma suposta fortaleza militar, no meio da noite, sem qualquer reação das forças venezuelanas.

Na ausência de um arsenal nuclear, o melhor que se pode obter de soberania é manter um sistema político aberto e transparente – com alternância de poder – educar o povo, alimentar as pessoas, manter hospitais decentes, sustentar uma diplomacia não ideológica e forças armadas minimamente respeitáveis.  

O mundo ideal não existe – e nos últimos anos isso ficou ainda mais claro.

Isto posto, todos desejamos que a forma tivesse sido outra, mas ainda assim convém aplaudir o resultado final.

O venezuelano médio não acordou hoje preocupado com a soberania nacional nem com a governança da ONU. Ele acordou extasiado que um ditador carniceiro e narcotraficante finalmente teve o que merecia.

A Venezuela e o mundo estão melhores com sua queda – para a qual infelizmente, o Brasil não contribuiu. 

Mas os eventos de hoje oferecem a Brasília a chance de aprender uma outra lição, talvez mais útil: em todo lugar onde a ideologia foi usada para relativizar ou proteger o crime, as coisas agora podem mudar de repente.

Vários governos latinoamericanos – alguns democráticos, outros ditatoriais – já são ligados ao narcotráfico e a outros tipos de crime organizado. Neste sentido, os eventos de hoje trazem alento e esperança para além da Venezuela. 

SAIBA MAIS

UNITED STATES vs. NICOLÁS MADURO