Luiz Oscar Niemeyer era um jovem carioca, fã de Nara Leão e Wilson Simonal e que adorava assistir aos festivais de música na TV Record.

Eis que um dia, foi apresentado aos Beatles.

Assistiu Help! umas 30 vezes, colecionou discos do grupo e consumiu tudo o que o rock daquela época oferecia: Bob Dylan, The Band, Jimi Hendrix, Joe Cocker e muitos outros. 

Não deu outra: foi trabalhar no ramo do entretenimento, construindo uma trajetória intimamente ligada à profissionalização do showbiz nacional. 

Ajudou na organização de grandes festivais como Rock in Rio e Hollywood Rock; trouxe Paul McCartney, Eric Clapton e Rolling Stones ao País, além de ter sido presidente da gravadora BMG Brasil e produzir musicais como os de Wilson Simonal.

Agora, essa carreira apaixonante está em Memórias do Rock (Editora Francisco Alves; 211 pág, R$ 67) – mais do que uma compilação de casos saborosos, um guia de como o showbiz nacional se aprimorou com o tempo.

No livro, Niemeyer mostra como as desconfianças iniciais em relação aos empresários brasileiros foram desmontadas. Hoje, (no pré-pandemia, claro) o País goza de crédito junto aos promotores internacionais.

Entre uma e outra negociação, Niemeyer recheia a narrativa com curiosidades sobre os artistas com os quais trabalhou. Algumas complicadas, como quando o confisco da poupança de Fernando Collor quase inviabilizou Paul McCartney no Brasil, em 1990 (o roqueiro reduziu seu cachê em US$ 250.000). Já Annie Lennox, da dupla The Eurythmics, por pouco não foi alvejada por um tiro de fuzil quando enquanto dormia no hotel Hilton, em São Paulo. Durante a passagem de Eric Clapton por Brasília, em 1990, alguns meliantes lhe ofereceram cocaína; durante uma briga com a mulher Courtney Love, no Hollywood Rock 1993, Kurt Cobain atravessou a varanda do hotel em que estava hospedado, no Rio, para fugir da fúria de Courtney.

Niemeyer, contudo, nem pensa em parar. Seus próximos projetos são o festival MITA (abreviação de Music Is The Answer), previsto para maio, que irá trazer o grupo Gorillaz como atração principal. E um musical baseado na vida de Tom Jobim, com texto de Nelson Motta e direção de Dennis Carvalho. 

Nesta conversa com o Brazil Journal, ele fala dos motivos que os levaram a escrever o livro e de como o mercado de entretenimento se prepara para o pós-pandemia.

 

O mercado de shows internacionais no país vai melhorar? Por quê?

Certamente. Existe uma demanda reprimida após dois anos de pandemia e o público busca o entretenimento, apesar de estar afetado economicamente. Já os artistas querem e precisam trabalhar pois ficaram esse tempo todo em casa.

O senhor vivenciou várias crises econômicas durante 37 anos de profissão. Como foi passar pela pandemia?

Sem dúvida, essa foi a pior de todas. Em outras ocasiões, havia alternativas para continuarmos trabalhando. Dessa vez ficamos dois anos sem trabalhar, dificultando a vida de toda a cadeia produtiva do entretenimento. Aliás, fomos os primeiros a parar e seremos os últimos a voltar. Que situação difícil…

De que maneira a instabilidade do dólar poderá prejudicar o mercado de shows no país. O que fazer para cobrar um preço justo – mas acessível – em meio a isso?

O dólar tem reflexos diretos e imediatos nos custos de eventos internacionais. O que atrapalha a precificação sempre foi e continua sendo a absurda lei da meia entrada. Somos o único lugar no mundo onde existe essa aberração. Imagina se estudantes, doadores de sangue ou professores pudessem adquirir uma geladeira ou fazer compras num supermercado com 50% de desconto? Seria até mais coerente, porque trata-se de bens de primeira necessidade. Mas, no Brasil, a demagogia dos políticos permite essa aberração. Falo isso porque a defesa dos promotores é aumentar o preço da inteira porque sabem que, além dos estudantes, diversas pessoas se aproveitam dessa situação.  

Memórias do Rock é um caso de amor entre o ser humano e sua profissão. Quando o senhor iniciou no showbiz, pensou que iria passar tanto tempo no mesmo ramo?

Não tive dúvida nenhuma. Bingo!

Uma das principais contribuições de Memórias do Rock foi mostrar ao público como o mercado de shows internacionais no país evoluiu nos últimos anos… O que falta em termos de profissionalização?

Em termos de profissionalização, o Brasil não deve nada a mercados desenvolvidos, mas ainda não temos uma infraestrutura de arenas. É inconcebível, por exemplo, que São Paulo não tenha uma arena de nível internacional, algo que já é comum na cidade do Rio de Janeiro.

Memórias do Rock mostra a relação do senhor com diversas personalidades históricas do showbiz. Algumas dessas relações com os artistas passaram ao campo pessoal, ou seja, vocês viraram amigos?

Não, existe somente respeito e admiração profissional.

Festivais como Rock in Rio adotam uma postura pragmática na escolha de seu cast. Outros, como o Lollapalooza, partem para uma parceria com agências, como a William Morris. Qual o seu critério, visto que concertos como os de Paul Simon, Eric Clapton e Crosby, Stills & Nash renderam aquém do esperado? Vale a pena correr riscos? Como consegue equilibrar a perda?

Faço aquilo que acredito e gosto. Às vezes, pode não funcionar economicamente, mas isso não muda meu humor ou minha rotina. Sempre tem um show mais pra frente que arruma a casa. Fazer música por dinheiro nunca foi a minha praia.

Um dos momentos mais complicados do showbiz nacional é quando acontece um “leilão” entre empresários por conta de uma atração badalada. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os Foo Fighters no Lollapalooza. O senhor já se deparou com esse momento? Qual foi – e é – sua postura em relação a isso?

Eu diria que esse território está cada vez mais delimitado. As relações históricas são importantes e decisivas na hora do artista escolher com quem trabalhar. Por exemplo, nem tento sondar o Iron Maiden porque sei que estou no fim da fila.