NOVA YORK — Com seus óculos redondos, cabelo prateado e humor mordaz, David Rubenstein é um dos nomes mais conhecidos no mundo do private equity.

Fundador e chairman do Carlyle, um dos maiores grupos de private equity do mundo, com US$ 220 bilhões sob gestão, Rubenstein doou US$ 10 milhões para a reconstrução do Washington Monument — uma de suas inúmeras colaborações ao que chama de ‘filantropia patriótica’ —  serve como chairman do Smithsonian, a rede que banca 19 museus em Washington; e pagou US$ 21,3 milhões pela Carta Magna dos Estados Unidos, que emprestou para ficar exposta nos Arquivos Nacionais. 10793 95738455 6837 9137 e0a0 de56677cc568

“Sempre falo para as pessoas: deem algo de volta para o seu país, você tem uma obrigação com o lugar em que você vive”, Rubenstein disse a clientes do BTG reunidos aqui para a CEO Conference do banco. 

“As pessoas que fazem isso vivem mais porque elas são mais felizes, e tenho certeza que tem um lugar reservado no paraíso para elas. Ok, vocês podem rir, mas querem correr o risco só para provar que estou errado?”

Entrevistado por André Esteves, Rubenstein falou sobre seu início de carreira, as transformações da indústria de private equity, a próxima recessão americana, a guerra comercial com a China, o Vision Fund do Softbank, e filantropia.

Abaixo, os melhores trechos da conversa:

A evolução do private equity

No começo, não existia o termo private equity, existia o termo ‘leveraged buyout’, mas a palavra ‘leveraged’ começou a se tornar odiada. Então inventaram o termo ‘management buyout’, mas o termo ‘buyout’ começou a ser odiado. Vieram com o termo ‘private equity’, que claramente é odiada por algumas pessoas, então ainda estamos buscando por um nome melhor. 

O famoso negócio da RJR Nabisco feito pela KKR, em 1989 foi 5% equity e 95% debt — e não era atípico, naquela época a relação era de 1% a 5% equity e 95% a 99% debt. Era muito alavancado. E os investidores eram relativamente um grupo pequeno de pessoas: ‘high net worth individuals’ nos Estados Unidos, e fundos de pensão americanos. Não havia muitos grandes fundos soberanos, fundos de pensão globais, a maioria dos investidores era dos Estados Unidos – e em menor proporção, da Europa Ocidental. 

Por causa da alavancagem alta, do crescimento alto e dos preços baixos (seis ou cinco vezes o fluxo de caixa), os retornos ficavam na casa dos 20%. Você podia ter uma taxa de retorno anualizada de 25% ou 30%. 

Mais pessoas chegaram ao mercado para investir e participar desses retornos. Hoje, as taxas de retorno que as pessoas podem esperar de forma realista provavelmente estão na casa de dois dígitos baixos, 13%, 14%, 15%. 

Atualmente, private equity quer dizer mais do que leveraged buyout — significa real estate, distressed debt, venture capital, growth capital. E é um negócio mais global. Os Estados Unidos ainda são o mercado dominante na indústria, mas mercados emergentes, como o Brasil, estão se tornando mais importantes. 

Sobre o Carlyle ficar em Washington

Tem um senador famoso que uma vez disse: “Quando você está sendo chutado da cidade, vá na frente e finja que você está liderando uma manifestação”. Ou seja: tire vantagem da situação em que você está. 

Eu estava em Washington DC, sem experiência financeira. Eu não era um advogado muito bom, e Jimmy Carter, para quem eu trabalhava tinha perdido a reeleição em 1980. Eu não era um grande advogado e decidi fazer alguma coisa diferente. 

Se eu tivesse me mudado para Nova York, as pessoas teriam rido porque eu não tinha nenhum background de investment banking. Mas para aproveitar a situação, o que eu vou fazer? Vou dizer que nós entendemos como o governo afeta negócios mais do que os caras de  Nova York, porque eles não conhecem o governo tão bem quanto a gente conhece. 

E para deixar isso claro, eu trouxe para a minha firma Frank Carlucci, ex-secretário de Defesa e embaixador de Portugal; Jim Baker, ex-secretário de Estado; Dick Darman, ex-chefe da OMB (Office of Management and Budget); John Major, ex-primeiro-ministro do UK; e outra pessoa chamada George Herbert Walker Bush, que foi presidente dos Estados Unidos. 

Por um bom tempo muitas pessoas disseram que o Carlyle era uma firma política. A gente não era, mas naquela época se eu convidasse qualquer um de vocês para almoçar comigo, vocês pensariam em que outra coisa melhor teriam para fazer. Mas eu dizia: “Venha almoçar com Jim Baker”, e as pessoas vinham, e quando Baker terminava o almoço, antes de terminar a sobremesa, eu levantava e falava sobre o Carlyle. Essa técnica funcionou e as pessoas achavam que a gente sabia mais de Washington do que talvez a gente efetivamente sabia. 

Mas o tiro chegou a sair pela culatra depois de um tempo, depois que George W. Bush foi eleito presidente. Ele tinha sido um dos nossos conselheiros e renunciou para concorrer a governador e depois se candidatou a Presidente. Alguém disse pra mim na época: você já tinha imaginado que Bush, quando estava no seu corporate board, ia ser presidente dos Estados Unidos? E eu disse: “Na época, se você me pedisse para nomear 100 milhões de americanos que poderiam ser presidente, ele não estaria nesses 100 milhões.”  

Infelizmente, eu achava que eu estava falando ‘off the records’, mas a frase foi parar na primeira página do Times na semana antes da eleição.

E eu o vi depois da eleição (que ele ganhou) e falei: “Governador, estou muito chateado que essa coisa off the records que o Times pegou”. Ele disse: “Eu não leio o Times, o que eles disseram?”  E eu disse: “Ah, esquece!” 

Softbank e o Vision Fund

Eu fico com inveja que alguém pode levantar um fundo de US$ 100 bilhões e se ele conseguir levantar outro fundo de US$ 100 bilhões, eu vou ficar ainda com mais inveja. É muito difícil saber onde isso vai dar, ele [Masayoshi Son] obviamente fez alguns bons investimentos, alguns ainda não se provaram. Ele é claramente uma pessoa muito talentosa. Quando eu o entrevistei ele disse que em algum ponto chegou a ser a terceiro pessoa mais rica do mundo, mas a bolha de tecnologia estourou em 1999, 2000 e ele perdeu 99% de sua fortuna. Então, ele já deu a volta por cima. O tempo vai dizer se vai funcionar.

O risco de recessão nos Estados Unidos

Sempre há possibilidade de uma recessão acontecer, um evento exógeno que você não pode prever. Mas até este momento, não parece que uma recessão é iminente. A causa mais provável que as pessoas veem para uma recessão nos Estados Unidos é a falta de um acordo com a China. Eu acho que até o fim do ano vamos ter um acordo, não vai ser um acordo perfeito, mas vai acalmar os mercados. 

Com o Fed reduzindo as taxas de juros como eu acho que eles vão fazer, até o fim deste ano, entre agora e a eleição presidencial é pouco provável que tenhamos uma recessão. Nossos presidentes são obcecados com reeleição e recessão porque eles não se reelegem. Gerald Ford, Jimmy Carter, George Bush… Todos eles concorreram durante recessões e eles todos perderam. 

Portanto, o presidente Trump está muito interessado em se certificar de que não teremos uma recessão pelo menos até a eleição, e eu acho que ele tem um boa chance de evitar uma recessão. 

Acordo comercial com a China

O acordo tem três partes. A primeira é que a China vai comprar mais produtos americanos, talvez entre US$ 1,4 trilhão e US$ 2 trilhões em um período de seis anos. Provavelmente isso vai dar certo.  A segunda é a China abrir seu mercado para mais companhias americanas venderem mais lá, com uma proteção de propriedade intelectual e de patentes melhor. Isso também provavelmente vai dar certo. 

A terceira parte é a parte onde eles empacaram. A China tem um programa chamado China 2025, por meio do qual eles vão usar recursos governamentais para liderar inteligência artificial, tecnologia 5G e robótica.  Os Estados Unidos querem ocupar essa posição e eles estão acusando a China de estar usando recursos governamentais de uma forma que não é justa. E a China não está cedendo. 

Mas as outra duas partes do acordo podem ser feitas e o presidente Trump pode dizer: “Olha, eu tenho dois terços do que eu quero e as outras coisas eu vou conseguir se for reeleito”.   Acho que um acordo vai acontecer até o fim do ano porque o presidente reconhece que se você prolongar essa situação por muito tempo pode nos levar a uma recessão.  Estou 100% confiante de que ele entende isso. 

Filantropia

Eu vim de uma família muito pobre. Quando fiquei rico, poderia dar a cada um dos meus filhos US$ 1 bilhão, mas tenho certeza que isso não os faria pessoas melhores – eles podem não concordar.

Se você quer que alguma coisa seja feita, provavelmente você precisa ter alguma ambição. Quando você cresce numa família muito rica, você provavelmente não vai ter tanta ambição. Então eu dei aos meus filhos uma boa educação, os deixei trabalhar muito duro e isso foi melhor para eles. 

Você pode ser enterrado com seu dinheiro como os faraós, mas não há nenhuma evidência de que eles precisam de toda essa riqueza na vida após a morte.  Se você eliminar essa possibilidade, pode fazer o que a maior parte das pessoas faz, que é dar sua para as pessoas depois da morte, colocar no seu testamento. Eu não tinha certeza de que estaria no paraíso para realmente ver onde o dinheiro estava sendo usado, então eu quis doar enquanto eu estou vivo. 

Eu fui um dos signatários originais do Giving Pledge e o grande prazer da minha vida é doar dinheiro e fazê-lo para coisas que eu considero úteis.  Um dos meus projetos foi reconstruir o Washington Monument, e ontem eu fui levado até o topo; depois de o monumento ter ficado fechado por oito anos, agora para ele foi reaberto.

Filantropia patriótica é um dos meus tipos de filantropia. E o que significa? Lembrar as pessoas da história e da herança do nosso país.

Estou fazendo agora o que eu chamo de corrida até a linha final, porque quando você tem 70 anos você não sabe se vai chegar aos 80 ou 90 e todo dia o que eu leio nos jornais são os obituários, para ver quantas pessoas que mais jovens que eu morreram.

Isso me lembra uma história. No fim do anos 1880, um homem saiu de sua cama para a mesa de café da manhã em Estocolmo. Ele abriu o jornal e leu: “Alfred Nobel, o inventor da dinamite morreu”. Era uma coisa do tipo: graças a Deus o homem que matou tantas pessoas não está mais conosco. 

A pessoa que estava na mesa de café da manhã lendo aquele obituário era Alfred Nobel. Ele não tinha morrido. Os jornais erraram, era o irmão dele, Ludwig, que tinha morrido. Mas ele teve a vantagem de ver como seu obituário seria. E não gostou. Então ele disse: o que eu posso fazer para ter um obituário melhor quando eu morrer de fato? Então ele inventou o Prêmio Nobel. 

Todos vocês: se amanhã vocês pudessem ler seu próprio obituário, você estaria feliz com isso? Se você estaria, parabéns. Se você acha que tem alguma coisa que você gostaria que escrevessem que você já não tenha feito, encorajo vocês a tentar pensar em fazer o que vocês estão pensando  e fazer isso agora. No fim você quer ter um obituário do qual que seus filhos, sua esposa, seus pais, se orgulhem e do qual você se orgulharia.

Deem algo de volta para seu país, você tem obrigações. Ache algo que faça seu país um lugar um pouquinho melhor. Tem uma vantagem em fazer isso: primeiro, as pessoas que fazem isso são mais felizes e vivem mais. Além disso, as pessoas que dão dinheiro têm um lugar reservado no paraíso. Ok, vocês podem rir, mas querem correr o risco só para provar que eu estou errado?