A ação da Tenda desabou 25% depois de um quarto trimestre desastroso em que os custos aumentaram R$ 350 milhões por conta da inflação e perda de produtividade. 

O colapso levou junto a MRV, que também foca na baixa renda e reporta na semana que vem; a incorporadora dos Menin caiu 12%.

A Tenda reportou números muito piores do que mercado esperava: prejuízo de R$ 269 milhões; EBITDA ajustado negativo em R$ 217 milhões, e queda de 25% na receita, que ficou em R$ 517 milhões.

A margem bruta também ficou no vermelho, em -11%. 

Analistas de vários bancos disseram que 2021 foi um ano para a Tenda esquecer. 

“Estávamos prevendo que as margens sofreriam, mas a empresa deu uma enorme derrapada nos custos, o que gerou o prejuízo, reduzindo em 20% o seu valor contábil no trimestre,” escreveu o time do BTG. 

Para reverter a situação, o CEO Rodrigo Osmo está se dizendo mais cauteloso nos orçamentos e diz esperar que a margem se recupere para o patamar de 29% até o final do ano.  A empresa está adotando uma estratégia de aumento de preços e revisão dos subsídios do Programa Casa Verde e Amarela. 

A Tenda já havia feito uma revisão no orçamento no 3T21, quando um estouro de R$ 50 milhões fez o lucro cair 91% e ficar em R$ 6,4 milhões. A empresa está dizendo agora que em outubro e novembro, mesmo com alguma estabilização no preço dos insumos, continuou sentindo incrementos nos custos, o que levou a uma profunda reavaliação dos números. 

Segundo a Tenda, do total de R$ 350 milhões de incremento nos custos, 30% foram por conta da perda de produtividade causada pela pandemia; 21% foram atribuídos a uma maior inflação já incorrida em seus projetos; outros 25% à expectativa de inflação mais alta à frente; e 24% à chamada ‘orçamentação de verba’, que é o estouro de custos relacionados a reajustes de infraestrutura e de projetos. No ano fechado de 2021, o aumento de custos foi de R$ 532 milhões.

“Sempre achei a execução da empresa muito boa, mas agora fico com um pé atrás por terem demorado tanto para revisar itens que em teoria já poderiam ter reconhecido o desvio há mais tempo,” disse um analista do buyside, citando a revisão de itens por verba, da produtividade das obras e da alta de material pós pandemia. “Eles já deveriam saber disso antes.” 

Para o Bradesco BBI, o impacto da alta sustentável de custos na companhia sugere que o caminho para a recuperação será gradual ao longo de 2022 e 2023, mesmo considerando que a empresa já está tomando iniciativas para reverter esse quadro. 

Os analistas dizem que ainda não têm visibilidade se a guerra na Ucrânia levará a gargalos adicionais nas cadeias de suprimentos de materiais – como aço e alumínio – que poderiam levar a uma onda de revisão orçamentária. 

Uma fonte próxima à Tenda disse ao Brazil Journal que a discussão dos analistas está deslocada, já que o ponto-chave daqui para frente não é o custo, pois a companhia não controla o preço dos insumos, mas sim a margem. 

“O foco da Tenda agora tem de estar na margem e nas estratégias, que estão sob o seu controle. O ponto é como fazer para passar esse impacto do custo aos preços sem destruir a demanda. Até aqui, a Tenda foi bem-sucedida em repassar preços, mas ainda tem bastante por fazer”, disse a fonte. “A meta e o compromisso da empresa não são com custos, mas com uma margem.”

A Tenda sempre encantou o mercado pela sua execução, e tem como acionistas gestoras como a Polo Capital (15%), Pátria (10,35%), Indie Capital (5,4%), Oceana (5,2%)  e Sharp (5,20%).