O momento pede coordenação de esforços. Políticas de defesa e estímulos econômicos serão pouco efetivos se ações de saúde estruturadas não forem conduzidas tempestivamente. Os sinais emitidos nessa direção são preocupantes.

O Brasil já teve situações difíceis e houve organização para sair da crise rapidamente. Um exemplo foi o racionamento de energia em 2001, com reações relativamente rápidas do governo e comunicação clara à sociedade, que, como resposta, cooperou. Naquele momento, FHC determinou a criação de um grupo de trabalho interministerial para gerenciar e unificar as ações do governo no programa de racionamento. Pedro Parente foi escalado para coordenar a equipe. Tornou-se o “ministro da apagão”.
 
A crise agora poderá ser grave. Conforme a doença atingir as classes mais populares, a situação ficará crítica.
 
O Ministério da Saúde, com seus alertas, tem sido a surpresa positiva em um governo pouco efetivo. No entanto, sequer a guerra de informação — a primeira delas — foi vencida.
 
A imprensa tem ajudado, mas faltam campanhas em massa com orientação sobre hábitos, situações de risco a serem evitadas e a conduta em caso de suspeita de contaminação. Informar, para as pessoas se cuidarem e cooperarem, e não entrarem em pânico.
 
O comportamento do presidente Bolsonaro, que está no grupo de risco, enfraquece o trabalho do ministro Mandetta.
 
Está bastante claro que as ações não estão coordenadas. Enquanto o Ministério da Saúde não recomenda paralisação das escolas de ensino básico, governadores e prefeitos, premidos a dar respostas à sociedade, se apressam em anunciar o fechamento. O Ministério teme que as crianças — menos impactadas pela doença – sejam cuidadas por avós ou fiquem simplesmente descuidadas. Não seria melhor, por ora, fazer mudanças na rotina das escolas em vez de retirar as crianças?
 
Ainda que as necessidades sejam diferentes de região para região –  a maior preocupação agora são os centros urbanos no sudeste — e exijam decisões locais diferenciadas, a falta de coordenação das diversas instâncias reduz a efetividade das medidas e causa confusão na batalha da comunicação.
 
O governo — até o time econômico — demorou a ouvir o ministro da Saúde. Quando o PIB de 2019 foi divulgado, por exemplo, ficou-se a discutir picuinhas, enquanto o tsunami se aproximava.
 
Há um trabalho essencial a ser feito para garantir recursos para a saúde rapidamente, lembrando que gastos em situação de emergência não entram na regra do teto. Mudar a meta fiscal este ano seria bastante compreensível. O cuidado é não liberar recursos para políticas equivocadas e que abram espaço para oportunismo. É necessário um plano de ação, estabelecendo prioridades e sem descuidar de como estaremos depois que passar a crise, como alertou Ana Paula Vescovi.
 
Não faz sentido  estimular a demanda agora, nem seria eficaz. A demanda seguirá deprimida diante das incertezas e da menor circulação de pessoas. Melhor guardar munição para o futuro.
 
É preciso haver estratégia para garantir liquidez e o crédito na economia para empresas e indivíduos mais impactados. Como garantir a capilaridade dos programas? E os 40% de pessoas na informalidade? E os desempregados? Talvez a liberação do 13º salário do INSS e antecipação de abono salarial não devessem ser prioridades no momento.
 
O esforço dos ministérios precisa ser coordenado para definir o que fazer com os recursos a serem liberados. Será necessário também o dialogo com o Judiciário e órgãos de controle para destravar amarras à implementação das políticas.
 
Como garantir, por exemplo, o aumento tempestivo da oferta de exames do coronavírus que tenham resultado rápido, como apontou Fernando Reinach? Como aumentar a oferta de UTIs? Como evitar que as pessoas não se dirijam ao hospital desnecessariamente? É possível convocar estudantes de medicina para reforçar a saúde pública?
 
No momento, o mais difícil é saber o que fazer com os recursos e garantir a efetividade das políticas. Não são poucos os casos de desperdício, inclusive na saúde, como equipamentos sofisticados em locais sem técnicos aptos a operá-los ou oferta de ambulâncias onde não era necessário.
 
Quanto melhor for o plano de ação, menor a necessidade de confinamento em massa e menor o impacto na economia.
 
O momento pede urgência e coordenação de esforços. 
 
Zeina Latif é consultora econômica.