Em um momento em que a indústria de energia eólica vive uma quase total paralisação no Brasil, a Statkraft acaba de anunciar um projeto que tem sido visto por técnicos como um sinal dos novos tempos no setor.
O grupo norueguês vai investir mais de R$ 1 bilhão para construir um parque com 280 megawatts de capacidade em Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul.
O movimento vem após um longo período em que o Nordeste foi o grande foco das empresas elétricas devido a seus ventos alísios, colocados por especialistas entre os melhores do mundo para a geração de energia.
A grande concentração dos projetos eólicos (e solares) na região, no entanto, resultou numa disputa por espaço para conexão à rede de transmissão e em um excesso de geração que exige cortes forçados na produção das usinas, o chamado curtailment.
Além disso, uma mudança aprovada pela Aneel em 2023 aumentou as tarifas de transmissão para usinas instaladas longe das áreas de maior demanda elétrica, onerando os empreendimentos no Norte e Nordeste na comparação com Sul e Sudeste.
“Várias empresas estão migrando para o Sul por causa desses fatores. Por mais que ali não tenha ventos tão excepcionais como o Nordeste, tem as vantagens de uma tarifa de transmissão mais baixa, capacidade disponível para conexão e também menos curtailment,” uma fonte que atua no desenvolvimento de projetos disse ao Brazil Journal.
O Rio Grande do Sul e Santa Catarina receberam vários parques na fase inicial do setor eólico no Brasil, mas depois viram Rio Grande do Norte, Bahia, Piauí, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Maranhão passarem à frente na preferência dos empreendedores.
“De 2015 para cá, não se viabilizou quase nada no Sul, a região ficou apagada em relação ao Nordeste. Agora, essa próxima janela de quatro a cinco anos deve ser de projetos majoritariamente no Rio Grande do Sul,” disse a fonte.
Além da Statkraft, a Casa dos Ventos, do empresário Mario Araripe, um dos poucos grupos do setor que seguem investindo no momento, está desenvolvendo um projeto eólico de até 800 MW no município gaúcho de Dom Pedrito. A Rio Energy, da também norueguesa Equinor, tem um projeto de 228 MW na cidade de Pinheiro Machado.
A estratégia das empresas não difere muito da lógica de um motorista que muda sua rota ao ver informações sobre o congestionamento.
Dados públicos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que em diversas áreas do Nordeste a rede de transmissão não tem nenhuma margem de escoamento disponível para os próximos anos. No Sul, sobra espaço.
Números do curtailment também favorecem o fluxo. Se algumas usinas renováveis na Bahia, Piauí e Ceará têm sofrido cortes de até 30% de sua geração, no Rio Grande do Sul a média é cerca de 1,2%, disse o sócio da plataforma de dados de mercado ePowerBay, André Felber. “Lá não tem muito corte por restrição na rede.”
O presidente da Statkraft no Brasil, Thiago Tomazzoli, disse que “a localização foi um dos fatores considerados na análise” do projeto Gran Sul. “A decisão levou em conta um conjunto de aspectos técnicos, econômicos e comerciais, além das características da região e da complementaridade do nosso portfólio.”
Uma fonte explicou que, pelo lado comercial, uma usina no Rio Grande do Sul também carrega um risco menor de diferença de preços entre regiões no mercado elétrico, um fator que tem sido levado mais em conta na comercialização de energia.
“Se você está gerando no Sul e vendendo a energia para uma indústria no Sul, não precisa fazer um hedge energético. Tem menos exposição financeira ao risco de submercados.”











