Na semana passada, o BTG Pactual tornou-se um dos 21 bancos escolhidos para participar do IPO da SpaceX.

A notícia – uma vitória para a franquia de ECM do banco – foi o final de um processo que começou meses atrás. 

Quando ficou claro que haveria uma abertura de capital, André Esteves e executivos do banco procuraram o C-Level da empresa de Elon Musk.  

“Não foi uma cold call, obviamente. Se fosse, não teria funcionado. Já havia uma relação mais antiga entre o banco e a empresa e entre o Esteves e o Musk,” um executivo próximo a Esteves disse ao Brazil Journal.

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Os dois já haviam se encontrado em eventos internacionais e se aproximaram durante e após a visita de Musk ao Brasil em 2022, quando o empresário foi recebido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Esteves integrou o grupo de empresários que participaram do encontro. 

No fim de 2025, houve uma primeira reunião virtual entre o BTG e o C-Level da SpaceX.

Na conversa, Esteves, Guilherme Paes, que comanda o banco de investimentos, Fabio Nazari, o head de equity capital markets, e outros executivos do BTG falaram sobre o histórico do banco e como ele poderia ajudar a distribuir as ações da SpaceX entre clientes institucionais e do wealth na América Latina.  

Nas demais reuniões, todas online, Esteves e os executivos detalharam as operações internacionais das quais o banco participou.

Uma delas foi o IPO de um closed-end fund da Pershing Square na Euronext, em 2014. O BTG foi o distribuidor exclusivo na região e colocou US$ 200 milhões de uma oferta total de US$ 3 bilhões. 

Este ano, o banco está atuando no IPO da gestora de Bill Ackman e de um de seus fundos.

Fora isso, o banco participou dos IPOs da espanhola Cellnex Telecom e do correio italiano, ambos em 2015, construindo um goodwill com algumas empresas globais e mostrando aos clientes o acesso do banco a essas operações. 

O BTG também tentou mostrar aos executivos da SpaceX a importância de ter um “ponto de contato institucional” na América Latina.

Foi o que o BTG buscou no seu private placement em 2010, quando captou US$ 1,8 bilhão com investidores que poderiam abrir portas para o banco no futuro – entre eles, os fundos soberanos de Abu Dhabi, Cingapura e China, o fundo de pensão canadense Ontario Teachers Pension Plan e as famílias Rothschild e Agnelli. 

A reunião de kickoff com a empresa foi na segunda-feira à noite. Segundo a Reuters, o plano é fazer o roadshow em junho e distribuir até 30% das ações para o varejo, acima do percentual típico de 5% a 10%. 

A SpaceX também pretende fazer um evento para 1,5 mil investidores pessoas físicas, apostando que os milhões de seguidores de Musk são compradores em potencial das ações.

A empresa – que além da operação de lançamento de foguetes é dona da xAI, da Starlink e da rede social X –  deve captar cerca de US$ 75 bilhões e busca um valuation de cerca de US$ 2 trilhões.

Os números da SpaceX ainda não são públicos, mas segundo o The Information a empresa faturou US$ 16 bilhões e gerou um free cash flow de US$ 2 bilhões no ano passado, principalmente graças à Starlink.

Os recursos do IPO vão financiar projetos ambiciosos, como o desenvolvimento de novos foguetes, data centers de AI no espaço e uma base na Lua, além de alimentar a queima de caixa da xAI, que se fundiu com a SpaceX recentemente.

“Eles não estão precificando a SpaceX com base nos fundamentos. Estão precificando com base na escassez de oferta e na demanda: existe apenas uma SpaceX,” o analista Aakash Gupta disse no X. “Nunca haverá outro monopólio de foguetes com 10 milhões de assinantes de banda larga, US$ 24,4 bilhões em contratos governamentais e 165 lançamentos orbitais no ano passado.”

“O negócio da Starlink, por si só, já está gerando receita recorrente estável de telecomunicações em escala de monopólio. Ele é o alicerce. Mas o prêmio acima de US$ 1 trilhão é pura opcionalidade: Starship, o sistema de defesa antimísseis Golden Dome, a infraestrutura de IA orbital… Os investidores estão pagando por futuros que ainda não têm receita.”

Além de dar ao varejo uma fatia maior do IPO, Musk tem um outro aliado para fazer a oferta decolar neste valuation esticado.

A Nasdaq acaba de alterar suas regras para permitir que empresas com valor de mercado elevado possam fazer parte do Nasdaq 100 depois de apenas 15 dias de negociação – antes da mudança, este prazo era de três meses.

Como há uma série de ETFs que acompanham esse índice, fazer parte dele gera uma demanda adicional (e obrigatória) pelas ações.