O mercado de tiqueteiras — a venda de ingressos para shows, festas e cinema — sempre foi um dos mais pulverizados do Brasil.
 
Mas nos últimos dois anos, o fundador da Ingresse, Gabriel Benarrós, transformou sua empresa numa máquina de aquisições, levantando R$ 40 milhões em três rodadas de capital e adquirindo três concorrentes.
 
Resultado: pela primeira vez, o mercado passa por movimentos tectônicos de consolidação, e pode acabar dividido entre três empresas: a Ingresso.com (monopolista em cinema); a Ingresse (especializada em entretenimento ao vivo), e a Sympla/IngressoRápido, controladas pela Movile e em processo de fusão. 
 
Agora, a Ingresse está no meio de sua quarta rodada de capital (Series D), para o que se deve ser, por enquanto, seu movimento final no tabuleiro. Com pelo menos duas aquisições já engatilhadas e a necessidade de investir em tecnologia, a Ingresse quer levantar entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões.
 
Benarrós quer fazer da Ingresse uma plataforma de entretenimento que o usuário usa para descobrir as festas  (com sugestões baseadas em eventos que o consumidor frequentou anteriormente), comprar os ingressos e pagar pela cerveja que vai beber lá. “Você vai ter que escolher entre a gente e a Netflix: ou fica em casa vendo uma boa série ou vai pra rua conhecer gente,” diz Benarrós.  Os dados coletados pela Ingresse também ajudam os produtores de eventos a conhecer melhor o cliente, saber o que funcionou ou não (ajudando a melhorar a experiência) e a conversar com patrocinadores tendo dados na mão.
 
A venda de ingressos online é um mercado ainda verde. Apenas 10% de todos os ingressos no Brasil são vendidos pela internet. Mas a Ingresse tem um engajamento bem maior que a média: de cada 10 ingressos vendidos pela empresa, quatro são vendidos online e seis na bilheteria ou ponto de venda.
 
Em 2018, a Ingresse movimentou R$ 900 milhões em ingressos, o chamado GMV. O número ainda é uma fração do mercado total de ingressos online e offline, estimado em R$ 55 bilhões por ano. 
 
Metade do GMV da empresa vem por meio de parceiros para quem a Ingresse lincencia seu software — como o FoodPass, uma plataforma que vende eventos gastronômicos. Esse serviço de ‘white label’ — ou ‘ticketing as a service’ — complementa o crescimento por aquisições e é central para a estratégia da empresa. 
 
Num mercado em que o usuário costuma xingar as taxas de conveniência exorbitantes dos aplicativos, a Ingresse também busca se diferenciar pelo preço. Sua taxa de conveniência é de cerca de 10% — abaixo dos cerca de 20% cobrados no mercado. Para as vendas offline, a taxa de administração cobrada é de cerca de 3%. (O ‘take rate’ médio da empresa é uma média entre essas duas taxas.) 
 
Segundo Benarrós, a geração de caixa da Ingresse já é positiva em alguns meses, mas a empresa não deve chegar ao breakeven este ano.
 
Só no ano passado, a Ingresse fez três aquisições focando no público millennial, que faz compras recorrentes e interage pelo mobile: a BlackTag (GMV de R$ 20m), líder no Brasil em eventos universitarios; a PixelTicket — focada em shows de rock (GMV de R$ 20m); e a IngressoCerto (GMV de R$ 70m), empresa líder no Rio de Janeiro, e a mais parecida com a Ingresse: vende ingressos para festas, concertos e shows. Os quatro fundadores da IngressoCerto devem se tornar executivos da Ingresse. 
 

O maior concorrente da Ingresse é o Ingresso Rápido, que existe há 19 anos e domina os teatros, onde o tíquete médio é mais alto, mas a base de usuários supostamente tem um grau de maturidade maior. “Sempre escolhemos o usuário com a vida mais longa e mais engajamento: festivais, shows, ano novo, Carnaval,” diz o fundador. 

Benarrós estudava economia comportamental em Stanford quando cofundou a Ingresse com seu sócio, Marcelo Bissuh, o chefe de produto da empresa.


“Em vez de vender algo material — uma jaqueta, uma mochila — eu queria desenvolver um produto que trouxesse experiências para as pessoas,” diz Benarrós. “Quando você fica velho, você não vai pensar na jaqueta, vai pensar naquela vez que esteve no Burning Man, no Lollapalooza… Muitos eventos são momentos transformadores, são os picos na tua vida.” 

 
Ainda em Stanford, Benarrós recebeu R$ 2,5 milhões em capital semente e, nos anos seguintes, fez uma rodada por ano, junto a investidores como Qualcomm, eBricks, Ambev, Confrapar, MercadoLivre, DGF e FJ Labs, do empreendedor e agora VC Fabrice Grinda.
 
O maior risco de uma tiqueteira é a fraude online — ainda mais no Brasil, um País que parece colocar toda sua energia em inventar novos tipos de esquema. Tipicamente, o fraudador compra ingressos na plataforma usando um cartão clonado e os revende por canais não oficiais, como o Facebook ou mesmo na porta do evento. Dias depois, o dono (legítimo) do cartão de crédito recebe uma fatura acusando a compra e pede um estorno à administradora.
 
Nos seus primeiros anos, a Ingresse apanhou muito dos fraudadores, até que resolveu parar de usar soluções de terceiros e desenvolver seu próprio sistema antifraude. Benarrós diz que hoje a perda é mínima, mas não abre os números.