A californiana Maris Sidenstecker tinha 14 anos quando, chocada com a brutalidade na matança de baleias, desenhou uma camiseta com o logo Save the Whales e, ao lado da mãe, lançou em 1977 uma campanha que ganhou o mundo.

No Brasil dos anos 80, no embalo da redemocratização e da popularização das ideias ambientalistas, as camisetas também ganharam as ruas – e as baleias foram salvas.

Raramente vistas nas praias brasileiras nos anos 1970, quando as jubartes e as francas ficaram muito perto do risco de extinção, agora as baleias voltaram com tudo.

A presença delas é mais frequente agora, no inverno, quando deixam a Antártica rumo às águas mais quentes ao Norte, para reproduzirem e darem os filhotes à luz – ou seria ao mar?

Elas começam a ser vistas a partir de abril, mas a maior concentração ocorre entre julho e novembro. Ficam nas águas mais rasas e quentes por aproximadamente três meses. Em seguida, com os bebês amamentados e prontos para a viagem de retorno, retornam às águas gélidas do extremo Sul. É lá que acumulam gordura e ganham peso, comendo zooplâncton, principalmente o krill, um minúsculo crustáceo.

Um dos principais berçários da franca é o litoral de Santa Catarina. Neste ano já foram avistadas mais de 50, e o número deverá crescer nas próximas semanas, de acordo com os pesquisadores do projeto ProFranca, do Instituto Australis. O recorde ocorreu em 2018, com o registro da visita de mais de 270 baleias.

“Felizmente, o monitoramento indica um aumento da população de francas nos últimos anos”, disse a bióloga Karina Groch, diretora do ProFRANCA. “Mas a franca, ao contrário da jubarte, ainda é uma espécie ameaçada de extinção.”

Por séculos, as francas e as jubartes foram impiedosamente caçadas no litoral brasileiro. Comuns em toda a costa, as praias chamadas de Armação e Arpoador receberam esses nomes porque eram o local onde as baleias eram desossadas e retalhadas.

Em águas rasas (próximas à costa), onde se concentraram no período de reprodução, as fêmeas eram presas fáceis. O grande interesse comercial, desde o século 17, estava na extração do óleo, que até o início do século 20 era largamente usado como lubrificante e combustível para os lampiões.

A pesca predatória perdurou até a década de 1960. As francas e as jubartes por pouco não foram dizimadas. Nos anos 1970, eram raras as suas aparições no litoral brasileiro. Até que, a partir dos anos 1980, graças a leis e tratados internacionais de proteção, elas voltaram a ser vistas. Em 1987, uma lei federal deu fim definitivo à caça no país.

Ajudou também na preservação, claro, o uso de derivados de petróleo no lugar do óleo de baleia. Com o trabalho de voluntários e de organizações não-governamentais, as mamães baleias voltaram a ter paz para colocar seus filhotes no mundo.

A população das jubartes vem se recuperando rapidamente e desde 2014 a espécie deixou de ser listada no rol de animais em risco de extinção. Elas se reproduzem mais ao Norte, principalmente nas proximidades do arquipélago de Abrolhos, a 65 quilômetros da costa do Sul da Bahia.

Protegidas, começaram a ocupar novas áreas e já podem ser vistas em Ilhabela, no litoral paulista, e no Rio de Janeiro. Um censo recente indica que existam mais de 20.000 indivíduos da espécie. A população poderá em breve retornar aos níveis do início do século 19, quando, estima-se, havia 30.000 delas nos mares do Hemisfério Sul.

O monitoramento mostra também um avanço na população das francas. O número atual estaria acima de 10.000.

Francas e jubartes têm tamanho semelhante. As fêmeas são maiores e adultas medem em média 16 metros. As francas podem alcançar 50 toneladas, e as jubartes pesam em média 40.

Nas jubartes, também conhecidas como baleias-corcundas, uma das principais características são as enormes nadadeiras peitorais. Suas caudas são únicas para cada indivíduo – e por meio delas os pesquisadores conseguem identificá-las. Nas francas, a identificação é feita pela observação dos padrões das calosidades na cabeça. É a “impressão digital”.

Temporada de observação

Como em outras partes do mundo, o combate à pesca predatória permitiu uma rápida recuperação populacional das baleias que se reproduzem nos mares brasileiros. Agora é a melhor época do ano para vê-las de perto – algumas com o bebê a tiracolo.

Em Santa Catarina, não se pode fazer a observação turística em barcos. Foi a forma encontrada de protegê-las da agressão – ainda que involuntária – dos engraçadinhos que não sabem se comportar (as baleias ficam tão perto que alguns folgados colocam o pé). Empresas organizam expedições por terra, de carro ou até mesmo caminhando em trilhas, passando pelas praias da Ferrugem e do Rosa.

As francas aproximam-se bastante da costa e é possível ouvir o som quando, ao emergirem para respirar, elas expelem o borrifo de água e ar. O jato, numa característica forma em V, passa de 5 metros de altura.

“É possível vê-las a partir de mirantes e pontos estratégicos,” disse Caroline Santos, proprietária da Amo Garopaba Turismo, uma das operadoras que organiza expedições de observação. “O turismo embarcado foi proibido em 2013. Aguardamos os resultados de um estudo de impacto para saber se ele poderá ser retomado.”

Para ver as jubartes, são comuns os passeios de barco a partir de praias no litoral da Bahia e do Espírito Santo. Recentemente, elas começaram a ser vistas com frequência em Ilhabela, de onde partem algumas expedições de observação.

As operadoras de turismo mantêm parceria com o Instituto Baleia Jubarte, que dá o treinamento técnico para que os passeios transcorram sem causar maiores incômodos às baleias e seus filhotes.

“O turismo de observação é uma atividade econômica para o litoral agora no inverno, um período de baixa temporada, e contribui para a conscientização das pessoas e proteção das baleias,” afirmou a bióloga Rafaela Souza, coordenadora de pesquisa do instituto em Ilhabela.

Algumas baleias monitoradas há mais de 20 anos continuam a ser vistas no litoral, num sinal de que a preservação deu resultado. É o caso da franca Mariscal, vista no mês passado ao lado de seu filhote na Praia do Moçambique, em Florianópolis.

Mariscal já havia sido observada pelos pesquisadores brasileiros em 2002 e 2012, e no Uruguai em 2008. Em 2012, saiu profundamente ferida de um acidente com uma embarcação.

Sobreviveu e ganhou um novo apelido: Guerreira.