“Dê-me uma alavanca longa o suficiente e um ponto de apoio, e moverei o mundo”, teria dito o matemático grego Arquimedes, no século 3 a.C., explicando o princípio da alavancagem. 
 
A força aplicada no objeto a ser elevado é proporcional à extensão da alavanca. Com o instrumento, pode-se erguer um peso muito superior ao que seríamos capazes se usássemos apenas as nossas mãos. 
 
Para Naval Ravikant, empreendedor, investidor-anjo e guru de milhares de criadores de startups ao redor do mundo, sem alavanca não se cria riqueza – e a verdadeira riqueza é aquele ativo que se multiplica mesmo enquanto estamos dormindo ou de férias. 
 
Não depende de quantas horas trabalhamos, mas daquilo que somos capazes de criar e escalonar. 
 
Naval é cofundador e CEO do AngelList, um site especializado em divulgar startups à procura de investidores, e foi um dos primeiros a apostar em companhias como Twitter e Uber. 
 
Ele tem uma legião de seguidores no Instagram (326 mil) e no Twitter (1,7 milhão), plataformas que utiliza para divulgar pílulas de sabedoria amadurecidas ao longo dos anos.
  
Agora, suas reflexões estão reunidas no livro O Almanaque de Naval Ravikant (Intrínseca; 240 páginas), recém-publicado no Brasil. Quem fez o trabalho de compilação e organização foi Eric Jorgenson, autor que escreve sobre negócios e dá consultoria como estrategista de produtos.

O livro está à venda em sua versão física ou digital, mas também pode ser baixado gratuitamente, em inglês ou português. Naval quis assim.

Jorgenson editou o conteúdo que estava disperso em tuítes, blogs, podcasts e entrevistas, acrescentou contextualizações e assim, concebeu o almanaque.
 
Mais que um almanaque de informações aleatórias, o autor fez,  usando as palavras do próprio Naval, um instrutivo guia com os insights do empreendedor.
 
Naval nasceu em Délhi, em 1974, mas, quando tinha 9 anos, mudou-se para o Queens, em Nova York. Teve uma infância humilde de imigrante. Estudioso, passava horas e horas na biblioteca. 
 
Sua sorte mudou quando foi admitido para fazer o ensino médio na tradicional e prestigiosa Stuyvesant Highschool. Foi seu passaporte para uma universidade da Ivy League. Em Dartmouth, fez economia e ciência da computação.
 
Atualmente, Naval é investidor em “cerca de 200 empresas”, como ele mesmo diz. Em algumas delas, faz parte do conselho. Abrir negócios é o que o move e o faz feliz – o dinheiro flui como consequência. 
 
“Nasci pobre e miserável,” afirma. “Agora estou bem de vida e muito feliz. Eu trabalhei nesses quesitos.” 
 
Para Naval, acumular riqueza depende do desenvolvimento de um conjunto de habilidades. Ele gosta de dizer que, se perdesse todo o dinheiro de uma hora para outra, conseguiria ficar rico novamente em poucos anos.
 
Em uma de suas postagens mais populares no Twitter, Naval escreveu um fio, publicado em 31 de maio de 2008, em que sintetiza os princípios daquilo que aprendeu ao longo de sua jornada de tropeços e sucessos. “Como ficar rico (sem precisar ter sorte)”, anuncia no primeiro tuíte, que já recebeu mais de 195 mil curtidas e mais de 10 mil comentários.

O fio se estende por 40 tuítes. “Dinheiro representa a forma como transferimos tempos e riqueza,” reflete Naval. “Você não ficará rico alugando o seu tempo, como assalariado. É preciso ter uma participação societária – uma parte de um negócio – para obter a liberdade financeira.”
 
A primeira chave do sucesso, argumenta, é desenvolver conhecimentos específicos, aqueles para o qual não será possível treinar facilmente alguém para replicá-lo. “Se a sociedade pode treinar você, vai fazer o mesmo com outra pessoa e substituí-lo.” Em geral, trata-se de um conhecimento altamente técnico ou criativo, que “não pode ser terceirizado ou automatizado”.
 
A segunda chave do sucesso é escalonar esse conhecimento, por meio de obras criativas, projetos de mídia, negócios e até mesmo relacionamentos. Aí entra a analogia com a alavanca de Arquimedes. 
 
“Fortunas exigem alavancagem”, diz Naval. “A alavancagem dos negócios provém de capital, pessoas e produtos sem custo marginal de replicação (programação e mídia).”
 
Naval aconselha que as pessoas estudem microeconomia, teoria dos jogos, psicologia, persuasão e ética, entre outras disciplinas que contribuam para aprimorar a capacidade de discernimento na tomada de decisões. “Não existem métodos de enriquecimento rápido”, diz. “São apenas planos para alguém enriquecer à sua custa.”
 
Segundo Naval, a riqueza virá quando os ativos rendem lucros mesmo quando não estamos trabalhando. Médicos e advogados são profissões bem remuneradas. Mas quando o médico não está atendendo os seus pacientes ele não ganha dinheiro, e o advogado em férias também não recebe nada – a menos que eles sejam sócios de algum negócio.
  
Já um engenheiro de computação pode fazer um programa, botá-lo para rodar e, se tudo der certo, verá a sua ferramenta ganhar escala. Os robôs farão o restante do trabalho. 
 
“Riqueza são ativos que rendem lucros enquanto você dorme”, sintetiza Naval. “A riqueza é a fábrica, os robôs, a produção ágil. A riqueza é o programa de computador que funciona à noite, atendendo outros clientes. A riqueza é até o dinheiro no banco que está sendo reinvestido em outros ativos e em outros negócios.” 
 
A internet expandiu enormemente as oportunidades de alavancagem, e a maioria das pessoas ainda não se deu conta disso. Ao mesmo tempo, títulos acadêmicos importam menos do que a capacidade de aprendizagem contínua, porque a profissão promissora de hoje pode estar ultrapassada em poucos anos.
 
A recompensa virá para quem souber fornecer para a sociedade aquilo que não se pode conseguir em outro lugar.

O pensamento de Naval pode ser resumido em um tuíte: “Aplique conhecimentos específicos com alavancagem e vai acabar conseguindo o que merece”.

A parte difícil de chegar lá pode ser a perseverança. “Todo mundo quer ficar rico da noite para o dia, mas o mundo é um lugar eficiente; o que é imediato não funciona. Temos que investir tempo,” diz Naval. 
 
Sua riqueza pessoal não resultou de uma grande tacada, ou de um ano mágico. Foi o acúmulo gradual de seus negócios e apostas. 
 
“Não sou a pessoa que mais se empenha no trabalho; na verdade, sou preguiçoso,” confessa Naval. “Trabalho quando tenho picos de energia, quando estou realmente motivado com alguma coisa.”
 
É preciso, recomenda ele, compreender a diferença entre status e riqueza. “Riqueza é um jogo de soma não zero, evolucionário. Status é um jogo de soma zero. É um jogo muito antigo, praticado desde a época das tribos dos macacos. É hierárquico.” No fim, acaba sendo destrutivo, como explica Naval. “Para que o número três passe a ser o número dois, este precisa sair da posição. Portanto, o status é um jogo de soma zero.” 
 
O investidor-anjo Tim Ferriss, autor do prefácio, afirma que Naval é uma das pessoas mais inteligentes que ele conheceu – e também uma das mais corajosas.
 
O livro reúne também reflexões de Naval a respeito da felicidade e da qualidade de vida. São habilidades que podem e devem ser aprendidas, argumenta, não são coisas inatas das pessoas, a despeito das predisposições genéticas. Uma dica valiosa: “No trabalho, cerque-se de pessoas mais bem-sucedidas que você. No lazer, cerque-se de pessoas mais felizes que você.”
 
O comentário lembra uma pérola do cinismo proferida certa vez pela atriz Sharon Stone: “Não vá para a cama com uma pessoa que tenha mais problemas do que você.” 
 
A lógica pode ser aplicada ao mundo das startups. Como disse Naval em seu famoso fio no Twitter: “Não firme parcerias com céticos e pessimistas. As crenças deles só trazem satisfação para eles mesmos.”