Na política e na economia, o mundo caminha atordoado com os rompantes do presidente Trump, a queda do dólar, os conflitos geopolíticos, e tantos outros fatos que têm deixado a atmosfera tensa.

Nem parece que ainda estamos em janeiro.

E foi nesse clima que transcorreu a semana de alta-costura parisiense, que terminou ontem.

Mesmo sendo este o evento mais luxuoso e exclusivo da moda mundial, ele não está blindado do zeitgeist: talvez como reflexo direto, as coleções pareciam buscar uma válvula de escape para um universo onírico, leve e feliz.

Este último foi o caminho seguido por Chanel e Christian Dior, que tiveram motivos extras para atrair todas as atenções nesta temporada primavera-verão 2026: as estreias dos diretores criativos Mathieu Blazy e Jonathan Anderson, respectivamente, nesse segmento. 

Ao todo, 29 marcas deram corpo ao calendário. Entre as estéticas que se desenharam nesta temporada, vale destacar a silhueta confortavelmente próxima ao corpo – em contraponto com o oversize estruturado e o charme casual do tricô, um material que costuma ficar de fora da alta-costura.

Na Dior, a coleção foi desencadeada por um buquê de ciclâmenes, dado a Anderson pelo ex-diretor artístico da Maison, John Galliano, que assistiu a tudo da primeira fila. Foi seu primeiro desfile ao vivo da grife desde que foi destituído do cargo em 2011.

Flores são o core da Dior desde o seu primeiro show, em 1947 – a coleção Corolle, que incluía o famoso New Look, tinha vestidos sugerindo flores desabrochando – reflexo da paixão que remete aos jardins cultivados pela mãe de Monsieur Dior na casa da família em Granville, na Normandia. 

Anderson aliou esse DNA ao presente de Galliano e, voilá, levou para a passarela uma coleção que costurou realidade e imaginação, passado e futuro, a partir da construção de um presente com alicerces firmados sobre a fantasia e a arte.

Os primeiros vestidos, plissados ​​com crinolinas volumosas, resgatavam a imagem do New Look, mas dialogavam com a obra em cerâmica da artista Magdalene Odundo. Foi a primeira vez que Anderson teve contato com o savoir-faire da alta-costura, um universo construído por inacreditáveis trabalhos exclusivos feitos inteiramente à mão e que traçam uma linha direta com técnicas anteriores à industrialização.

Acreditando que a alta-costura precisa estar mais próxima do público, Anderson mostra a coleção em diálogo com criações icônicas de Christian Dior e esculturas Odund no Musée Rodin. Também doará o primeiro look do desfile para o acervo do Victoria & Albert, de Londres, e pretende dar acesso a itens considerados mais fáceis, como sapatos e bolsas. Por outro lado, ciente da importância das clientes fiéis, criou uma coleção extra para elas, além de uma linha de acessórios decorados com antiguidades e fragmentos de meteorito.

Já a estreia de Matthieu Blazy na couture da Chanel foi etérea e cool, em um cenário repleto de cogumelos mágicos que teve Fernanda Torres na primeira fila.

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Nas entrevistas, o diretor criativo disse que estava em busca de um efeito leve, poético e de fácil compreensão, fazendo ponte com os looks em tons esmaecidos confeccionados com tecidos diáfanos, como chiffon de seda no lugar do denso tweed clássico da maison e pérolas substituindo as tradicionais correntes que dão peso à jaqueta do tailleur.

Também em busca de maior conexão com o público, Blazy apostou em um casting diverso e escolheu abrir o desfile com Stephanie Cavalli, uma modelo italiana na casa dos 40 anos. Foi, ainda, uma maneira de resgatar a imagem central de Gabrielle Chanel, que usou suas criações em todas as fases de sua vida e acreditava no conforto das formas mais soltas sem perder elegância. A ideia de liberdade o levou a se inspirar em pássaros para os delicados detalhes em plumas verdadeiras, feitas de tecido ou bordados.

Já na Schiaparelli, aves em voo surgiram ao lado de caudas de escorpiões e crocodilos, que podem ser lidas como metáforas menos escapistas. As referências usadas pelo diretor criativo Daniel Roseberry passaram pela Capela Sistina, o filme Alien e o filósofo e poeta inglês David Whyte, especificamente nesta citação: “A raiva é a forma mais profunda de compaixão pelo outro, pelo mundo, por si mesmo, por uma vida, pelo corpo, por uma família e por todos os nossos ideais, possivelmente prestes a serem feridos.”

Outra estreia foi a da sobrinha de Giorgio Armani, Silvana, à frente da Armani Privé. A estilista está há 45 anos na marca italiana, a maior parte do tempo no estúdio de design das marcas do grupo. A alta-costura da Privé sempre oscilou entre o dia a dia e a festa, mas a nova diretora criativa manifestou o desejo de tornar tudo “um pouco mais usável,” o que culminou em um styling de “mulheres mais reais” sem fugir da tradicional estética armaniana.

Na Valentino, a coleção inspirada no universo da própria marca acabou se transformando em homenagem póstuma ao fundador, um apaixonado pela sétima arte e suas estrelas. Com cenário vindo do Kaiserpanorama, o formato anterior ao cinema, modelos dentro de estruturas iluminadas apresentaram vestidos dignos do tapete vermelho arrematados por coroas douradas, joias esculturais ou luvas longas de cetim em um clima de contemplação, distância e ritual hollywoodiano.

No balanço desta temporada, a alta-costura parisiense continua funcionando como um observatório sensível do presente. As estreias, homenagens e reposicionamentos criativos evidenciam um esforço das maisons em equilibrar herança, inovação e relevância cultural, além de uma tentativa evidente de ampliar o diálogo com o público sem perder o rigor técnico que define o segmento.

Também reafirma a função estratégica da alta-costura: a de laboratório simbólico e estético da indústria da moda, capaz de refletir com precisão e método as tensões e transformações do seu tempo.

O ADEUS A VALENTINO